Crítica: O Juiz, de David Dobkin
Críticas de filmes Drama

Crítica: O Juiz

Crítica O Juiz

Crítica: Novo trabalho de Robert Duvall e Robert Downey Jr. narra uma delicada relação entre pai e filho. 

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O INEVITÁVEL LEGADO PESSOAL, TEMA QUE GERA TANTA COMOÇÃO NOS DRAMAS DE RELAÇÃO PAIS E FILHOS é o cerne deste O Juiz, longa que traz dois grandes Roberts (Duvall e Downey Jr.) disputando o brilhantismo. E é uma pena que o diretor e roteirista David Dobkin não mantenha o foco no micro e tente abraçar o Drama com D maiúsculo.

Depois de receber a notícia da morte de sua mãe, seu único elo com a família, o bem sucedido e inescrupuloso advogado Hank Palmer (Downey) retorna a sua pequena cidade natal em Indiana e reencontra seus irmãos, Glen (Vincent D’Onofrio) e Dale (Jeremy Strong), e o pai (Duvall), o juiz virtuoso, conservador e respeitado por toda a cidade, menos pelo filho, com quem não fala há mais de 20 anos.

Após ser tratado como qualquer um no velório e de todas aquelas discussões que toda família conhece, Hank ainda precisa permanecer na cidade para defender seu pai, após este ser acusado do homicídio de um jovem que cometeu um crime passional após ter recebido sua condescendência como juiz. Se a trajetória de redenção de Hank não está óbvia, adicione aí uma ex-namorada (Vera Farmiga) que confronta sua versão passada e presente constantemente.

Poderia ser apenas um belo estudo de personagens (como também o é) se o falho roteiro (assinado também pelo novato Bill Dubuque e Nick Schenk, do excelente Gran Torino) não tentasse forçar uma comoção, que tinha tudo para ser natural, com muitos elementos do melodrama.

É redundante afirmar que um longa que conte com todos os elementos a seguir pesou MUITO a mão: Morte da mãe, que tem todos os momentos carinhosos registrados em vídeos que são projetados a cada momento que o nível de açúcar estiver baixo; suspeita de homicídio, que leva a todos os clichês de filmes de tribunal, como a rixa pessoal entre advogados; um irmão com deficiência e o outro que perdeu o sonho de sua vida em um acidente causado pelo outro irmão; pai e filho que não se falam há 20 anos, sendo o pai um ex alcoólatra e o filho um jovem rebelde; divórcio do personagem principal, com direito a disputa de guarda; um tornado que ocorre durante uma briga. Ah! Eu já mencionei câncer?

Embora alguns destes elementos (incluindo o câncer) sejam essenciais para o desenvolvimento, as subtramas tiram o foco do que realmente importa, culminando em uma suposição de incesto absolutamente inapropriada e desnecessária. Além disso, e de coincidências que fazem você pensar que só existem 10 moradores nesta cidade, o roteiro não respeita a famosa regra do “show, dont talk”, contando com diálogos expositivos do início ao fim e até mesmo aquele velho cacoete novelesco de protagonista falando sozinho.

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A fotografia de Janusz Kaminski, responsável pelos melhores trabalhos de Spielberg, como O Resgate de Soldado Ryan e A Lista de Schindler, embora conte com alguns planos maravilhosos que contrapõem os personagens de pai e filho ora em ambientes sufocantes, ora em ambientes onde haja uma imensidão entre os dois, parece adotar um tom televiso e preguiçoso as vezes. Algumas luzes a la instagram, com o sol ofuscando a ponto de deixar J. J. Abrams orgulhoso, e alguns closes um tanto quanto constrangedores diminuem um pouco o belo trabalho.

Entretanto, embora pareça desastroso até aqui, o drama é eficiente por alcançar o que se propõe: comover o público. Graças a dois elementos básicos: o que há de micro dos personagens e as incríveis atuações.

Assim, conhecemos profundamente aquelas reações não apenas pelos diálogos, mas pela cena na qual o filho tem que dar um banho em seu pai (que lembra lindamente Amor, do Haneke). Conhecemos o juiz Palmer porque ao ouvir sua filha (Emma Tremblay) perguntar porque os troféus do tio estão ali e não em sua própria casa, Hank responde: “porque eles são mais importantes para o seu pai”.

Conhecemos Hank porque ao ser confrontado com a realidade (como a disputa de guarda de sua filha e o estágio avançado da doença do pai) o áudio do filme se perde. O seu “personagem” advogado é tão vinculado a sua vida pessoal que é assim que ele escapa de uma briga no bar, por exemplo.

E tudo isso é reforçado pelas excelentes atuações. Duvall merece indicações a prêmios, um beijo e abraço por representar a senilidade com tamanha entrega. A necessidade de manter a sua imagem imaculada e o claro constrangimento perante o filho que praticamente não conhece estão estampados em sua expressão facial até mesmo quando estes elementos não importam.

Robert Downey Jr. não é um ator de método, é um ator de entrega pessoal, e é por isso que admiramos sua atuação mesmo reconhecendo sua própria persona em Hank, com os óculos coloridos, o sarcasmo e até mesmo a semelhança com sua vida pessoal (adulto bem-sucedido que foi garoto problema, sendo inclusive preso por porte de drogas).

É um alívio vê-lo sem uma armadura superpoderosa ou os maneirismos de um detetive que mundo todo conhece e sendo apenas humano. E essa vulnerabilidade do humano está em seu personagem desde a risada nervosa por estar discutindo com seu pai dentro de um hospital até ter que olhar para o lado de constrangimento após receber um elogio pelo qual esperou por toda a vida.Critica-O-Juiz-Robert-Downey-Jr-600x400 Crítica: O Juiz

Para completar, vemos aqui o quanto D’Onofrio faz falta ao mundo dos coadjuvantes, com um personagem que carrega uma expressão cansada, mesmo em seus momentos de maior ternura. Strong não deixa que a deficiência de seu personagem o torne uma caricatura e Bob Thornton sempre soube encarnar um caipira sacana. E Vera Farmiga, como em todos os seus filmes, é um ponto de destaque do longa, no único papel feminino em um longa sobre a dificuldade de expressão da vulnerabilidade masculina.

Mas eu não tinha dito que o filme era sobre legado? Sim, e essa dificuldade é um dos legados passado de pai para filhos. E é curioso que logo no começo do filme vemos Hank cuidar de orquídeas e dar uma bala para sua filha que veremos ao final ser o resquício de sua infância na vida adulta.

Em um momento do longa, o juiz diz que não pode declarar sua doença em tribunal, pois não pode perder a sua respeitabilidade na cidade, algo que o filho nega por aquele velho motivo “Freud explica”: não posso ser o que meu pai é.

E os personagens de Hank e Joseph foram brilhantemente construídos dessa forma: a antítese no macro, e o inevitável espelho no micro.

E se você duvida, fique de olho na cadeira ao final.

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[tresemeia]

Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha, treina o discurso para o Oscar com o shampoo e coloca uns vídeo no Youtube.