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Crítica: Rua Secreta – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #40

Rua Secreta

Alguns minutos após o início de Rua Secreta eu já tinha certeza de duas coisas: 1) eu não conseguiria abandonar a sessão sem saber a resolução do mistério envolvendo a rua do título; e 2) a paixão platônica do desengonçado Li Qiuming (Yulai) pela desconhecida Guan Lifen (Wenchao) me comovia e me fazia torcer para que ele conseguisse conquistá-la com seus flertes juvenis – qual não foi minha decepção ao perceber, portanto, que quanto mais o longa se encaminhava para seu desfecho, 1) menos a roteirista e diretora Vivian Qu parecia fazer ideia do que a tal rua secreta abrigava e 2) mais eu queria que o protagonista deixasse sua nova namorada de lado, ou sofresse as consequências por se aprofundar tanto e tão rápido nos problemas de uma mulher que nem parecia se interessar muito por ele.

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Qiuming é um jovem funcionário da correspondente chinesa ao Google Maps cuja rotina consiste em mapear ao lado do parceiro Zhang Sheng (Hou) as ruas de sua pequena cidade. Mas há uma rua específica da qual, por algum motivo, eles não têm permissão para se aproximar – por que? Certo dia, durante uma tempestade, a dupla oferece uma carona à bela Lifen, e os poucos minutos que passam no mesmo carro são suficientes para que Qiuming se apaixone pela moça e passe a persegui-la na esperança de forjar um segundo encontro acidental – o que ele não espera é que esse encontro também o levará a uma misteriosa mansão localizada na rua secreta, onde a resolução de todo o seu mistério estará escondida.

Tímido e propenso a se encantar por qualquer ser humano do sexo feminino que cruze seu caminho, Qiuming é vivido por Yulai Lu como um típico adolescente humilde e pertencente a uma cultura que valoriza o trabalho duro e reprime o lazer e a diversão. Por outro lado, a Guan Lifen interpretada por Wenchao He mantém-se um enigma do início ao fim da projeção, o que é bom porque nos mantém sempre inseguros quanto a suas motivações, mas ruim por impedir uma identificação maior de nossa parte. E é na relação delicada entre os dois que o filme quase consegue encontrar seu rumo (a cena do primeiro beijo, em que os sons diegéticos do motor da geladeira e da saliva de suas bocas criam um apropriado clima de expectativa e desconforto, é doce e singela), desabando completamente em seu terceiro ato preguiçoso e sem imaginação.

(Aliás, se você leu o final do parágrafo anterior, já deve saber que entrarei no terreno dos spoilers no próximo, certo?)

Por que Qiuming não checou o conteúdo dos pen drives deixados por sua musa em seu carro? Como exatamente o protagonista estava sendo espionado pela máfia alocada em Forest Lane? Afinal de contas, qual era o envolvimento de Lifen com aquela organização criminosa? São perguntas como essas que, jamais respondidas pelo roteiro, criam uma série de buracos e enfraquecem ainda mais seu desfecho pobre e cheio de saídas fáceis. Não fosse a delicadeza com a qual constrói o relacionamento de seu casal principal e mesmo a maneira intrigante com que apresenta sua premissa, Rua Secreta certamente enviaria muitos espectadores para fora da sessão se sentindo ofendidos por seu terceiro ato desastroso.

Rua Secreta Cartaz

Rua Secreta (Shuiyin Jie, China, 2013). Escrito e dirigido por Vivian Qu. Com Yulai Lu, Wenchao He, Yong Hou, Xiaofei Zhao, Tiejian Liu e Xinghong Li.

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