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Crítica: Sangue Azul – Mostra de SP

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #46

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Em Sangue Azul, o cineasta Lírio Ferreira (Árido Movie) cria um universo quase felliniano: retratando uma trupe de circo composta por pessoas humildes cujo estilo de vida nômade cobra seu preço nos laços amorosos precocemente cortados a cada nova cidade que encerra seu último espetáculo, na impossibilidade de amizades duradouras fora da companhia e na transformação da família em meras fotos amareladas no fundo da carteira – e que buscam manter o otimismo e a esperança no contato uns com os outros e na ilusão da fama e do reconhecimento -, o longa é um estudo de personagem sobre um homem cheio de carências afetivas apesar da pose de galã insaciável.

Este homem é Pedro (Oliveira), o “tocha humana” do circo liderado pelo experiente Kaleb (Peréio) que, conhecido por transar com praticamente qualquer mulher que cruze o seu caminho, é profundamente afetado ao retornar com o espetáculo à Fernando de Noronha de sua infância e adolescência, onde se reencontra com a mãe (Corveloni) e a irmã Raquel (Abras). Enquanto revê velhos conhecidos e questiona o rumo que sua vida está levando, ele inicia um incontrolável jogo de sedução incestuosa com Raquel, a princípio sentindo-se enciumado pelo relacionamento estável que a garota tem com o brucutu Cangulo (Braga) e logo passando a desejá-la intensamente.

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Macho-alfa por definição (e não poderia haver metáfora fálica mais clara que o canhão cilíndrico e rígido que se ergue para ejetá-lo durante as apresentações – e que “falha” quando as fantasias com Raquel o atrapalham em suas transas sem compromisso), Pedro deixou sua ilha de nascimento quando sua mãe decidiu “dá-lo” a Kaleb na esperança de que este desse ao garoto um futuro melhor que o que ela poderia lhe oferecer – e não é só a tensão sexual entre o protagonista e sua irmã que pode ser sentida desde o momento de seu reencontro, mas também a ambiguidade da relação do sujeito com a própria progenitora, que, culpada por um ato de desespero extremo, ainda demonstra um típico – e reprimido – amor materno através do mural que dedica ao filho como um altar e na própria doçura comovida que mareja seus olhos ao vê-lo.

Pois é de seus personagens e suas interações e da relação de suas personas circenses com sua verdadeira natureza que Sangue Azul retira sua sensibilidade, não só contando uma história de amor delicada e repleta de implicações psicológicas, mas também apresentando uma série de personagens marginais que poderiam muito bem protagonizar seu próprio filme solo: do “homem mais forte do mundo” vivido pelo sempre viril Milhem Cortaz (e que na verdade é um homossexual passivo que vive uma tórrida relação sexual com Kaleb) ao lançador de facas rancoroso vivido por Matheus Nachtergaele, cuja natureza agressiva invisível em sua fala mansa de catalisa em sua atividade nos palcos, os personagens coadjuvantes deste filme têm personalidades definidas o suficiente para que nos interessemos por seus pequenos conflitos.

Filmado em locações de tirar o fôlego através de uma fotografia inspiradíssima e que faz jus a elas (toda a sequência do mergulho de Pedro e Raquel já valeria o filme inteiro por sua poesia) e montado de maneira elegante e orgânica por Tina Saphira e Mair Tavares, que investem em raccords como o do abajur que se apaga em uma cena para se acender uma fração de segundo depois na outra para criar unidade e coesão narrativa, Sangue Azul é um belíssimo trabalho que ainda traz Daniel de Oliveira em mais uma performance sutil e complexa que cria um personagem real e repleto de indecisões, frustrações e medo.

Em um ano que vem se mostrando riquíssimo para o Cinema brasileiro, Sangue Azul é um dos longas mais belos lançados por nosso país.

Poster Sangue Azul

Sangue Azul (Idem, Brasil, 2014). Dirigido por Lírio Ferreira. Escrito por Lírio Ferreira, Fellipe Barbosa e Sérgio Oliveira. Com Daniel de Oliveira, Carolina Abras, Paulo César Peréio, Sandra Corveloni, Milhem Cortaz, Matheus Nachtergaele, Armando Babaioff, Rômulo Braga, Stefano Catarinelli, Servílio de Holanda, Rosimeire dos Santos, Lívia Falcão e Ruy Guerra.

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