Crítica: Sangue Azul

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Leia também a crítica que João Marcos Flores, do CineViews, escreveu para a gente durante a cobertura da Mostra de SP: Sangue Azul

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Grande premiado do Festival do Rio de 2014 e seleção do Festival de Berlim não fazem de Sangue Azul (Brasil, 2015) um grande filme. Por mais que a fotografia e o elenco sejam impecáveis, o drama de Lírio Ferreira é longo demais e falha em alguns aspectos do roteiro. Não foi uma decepção, deixo claro, mas também não me envolvi em nada com a história de maneira geral.

Dividido em capítulos, o roteiro é sobre dois irmãos que são separados quando crianças, Pedro/Zolah (Daniel de Oliveira) e Raquel (Caroline Abras), depois que a mãe, Rosa (Sandra Coverloni), percebe uma proximidade exagerada entre eles. Ela o entrega a Kaleb (Paulo César Pereio), ilusionista do Circo Netuno, e o rapaz só retorna décadas depois, após percorrer o mundo. Porém, esse retorno não vai afetá-lo somente, como também todos à sua volta.

Sem ler a sinopse (vi o filme sem nenhum prévio contato), eu havia pensado que os protagonistas eram irmãos de criação e o motivo da mulher ter mandado o filho embora era outro e não a atração que ele e a irmã tinham. Eu posso ter perdido essa informação em algum momento ou minha mente simplesmente não aceitou a possibilidade daquilo ser um incesto e eu acabei pensando que era um caso estilo Lagoa Azul: criados juntos e se apaixonaram, mas sem serem do mesmo sangue. O que quero dizer: confuso, por isso fiquei com essa dúvida quando os créditos começaram a rolar.

Enfim, não foi essa confusão que me desagradou apenas, foi o roteiro em si. Ok, Zolah foi embora com o circo e retornou à ilha paradisíaca em que cresceu após vários anos. Obviamente, rever a mãe e a irmã, agora noiva de Cangulo (Rômulo Braga), foi um baque em sua vida; era de se esperar que a atração entre ele e a jovem voltaria e isso provocaria muitas tensões. Sem contar o fato de que os integrantes do circo também seriam afetados naquela temporada na ilha, presos aquele ambiente isolado e regado a festas e bebida.

Até aí tudo bem, tudo se desenvolve como o esperado; o problema é que muitas coisas acontecem, mas pouco se tem de diálogos ricos, os quais orientam bem o espectador, sem contar os núcleos mal conduzidos. Em alguns momentos, a ausência de falas é perfeita, mas em outros ela chega a ser irritante e atrapalha nosso envolvimento com a história.

O relacionamento de Raquel e Cangulo, por exemplo, se destrói rapidamente, da noite para o dia, e isso poderia ter sido melhor explicado. Zolah chega e, de repente, os noivos param de se falar? Temos diversas cenas deles em casa e o que vemos é o silêncio profundo e rejeição por parte da mulher. Mas como chegamos ali? Só por causa de um rapaz aquele longo relacionamento acaba em poucos dias? Faltou um melhor desenvolvimento ali.

As interações entre os irmãos ficaram ótimas, especialmente uma em que mergulham juntos – de longe a minha favorita da película -, mas, separadamente, o roteiro não os apresentou suficientemente bem para criarmos qualquer envolvimento com os personagens. Enquanto Raquel é tímida e calada, Zolah é mulherengo e extremamente difícil de se ler. A única cena em que o vemos abrir o coração, depois que Rosa lhe conta o porquê de tê-lo mandado embora, termina com um choro bizarro no quarto. Sim, ele sofre e? Como não consegui criar nenhum afeto por ele em função de suas atitudes exageradas e frias, tal parte ficou estranha para mim. Com Raquel foi mais fácil, por um outro lado; o sofrimento dela ficou bem mais nítido na telona. Só que como o enredo não lhe permitiu um maior destaque, minha conexão não foi grande.

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A culpa não é dos atores e de jeito nenhum. Oliveira e Abras estão ótimos, assim como Coverloni, Braga e o sempre ótimo Milhem Cortaz. Matheus Nachtergaele e Laura Remos possuem papéis pequenos, mas aproveitam bem o espaço que recebem quando entram em cena.

A questão é: sabe quando você vê um filme, sabe do potencial do elenco, mas não vê ele sendo utilizado? E isso é observado de longe nos casos dos dois atores principais, infelizmente. Eu queria ter visto muito mais do ator mineiro e da atriz paulista, só que apenas fiquei no desejo. Não deu nem tempo de eu sentir uma química, para ser sincera, provavelmente pela falta de um melhor aprofundamento do roteiro, seja com mais diálogos ou cenas melhor desenvolvidas (o fato de existir uma diferença de dez anos entre os atores não influencia em nada, vale lembrar).

O filme é regado a bastante sexo sem compromisso e o fim não é o típico fim de produções que vemos no cinema, com uma resposta clara e ponto. Em outras palavras, o espectador acostumado com fórmulas prontas pode ficar um pouco entediado. O fato do circo ficar na ilha por bastante tempo também torna a película um pouco repetitiva, pois são quase sempre os mesmos cenários – circo, bar da Rosa, espécie de balada local e o mar -, apesar dos acontecimentos mudarem no decorrer do enredo. Às vezes cansa, se você não se adaptar a essa dinâmica. No meu caso, chegou uma hora em que eu não aguentava mais quando aparecia um novo capítulo na telona, então, imagine meu alívio quando li “Epílogo”.

Eu, pessoalmente, recomendo Sangue Azul por causa de sua belíssima fotografia. Começa em preto e branco, depois fica colorido e é possível ver o azul permeando o cenário – também sensacional, vale ressaltar –, seja no mar, em casa, roupas, entre outros. Fazia um bom tempo que eu não via um visual tão belo no cinema e faz falta, de vez em quando, um (a) cinegrafista que faça algo surpreendente. Neste caso, foi Mauro Pinheiro Jr.

Sangue Azul poderia ter tido sua trama melhor apresentada e explorada, mas tem um elenco de altíssimo nível e uma direção e fotografia que valem o ingresso. A decisão é sua.

 

Daniela Pacheco

Fascinada por cinema desde pequena. Ídolos? River Phoenix, Audrey Hepburn, Wagner Moura e Marion Cotillard.