Crítica: Sideways – Entre Umas e Outras

Sideways Entre Umas e Outras

Sideways – Entre Umas e Outras é um filme sobre alcoolismo em que a doença é usada como motivação para sustentar a dependência física e emocional do seu protagonista.

Sideways Entre Umas e Outras

ALEXANDER PAYNE NUNCA FOI UM CINEASTA QUE ME CHAMASSE A ATENÇÃO. Fora ter revelado a Shailene Woodley, em Os Descendentes, ainda tentava entender qual era o motivo de tantos amigos da crítica de cinema valorizarem tanto o trabalho dele. Pois bem. Em Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways, 2005) eu finalmente fui capaz de entender. Que filme!

Miles (Paul Giamatti) é um cara meio alcoólatra que disfarça seu vício graças ao talento na arte da degustação de vinhos. Ainda sofrendo pelo fim do relacionamento com sua ex-esposa, ele sai numa viagem de uma semana para a despedida de solteiro do seu amigo Jack (Thomas Haden Church). A jornada da dupla passa por diversos vinhedos e os espectador saliva de vontade de experimentar todos os vinhos que aparecem em cena. No entanto, por trás de tudo isso, há uma história interessante sobre crise de meia idade e o velho temor de ficar sozinho.

Com sutileza, Sideways é um road movie sobre alcoolismo e personagens medíocres – sem que isso signifique algo ruim, já que os protagonistas são vividos por dois atores geniais que conferem todas as nuances necessárias para nos convencerem de que vivem pessoas que nunca serão além daquilo. A doença de Miles nunca é explicitada pelo roteiro. Ao invés disso, Payne nos conduz pela jornada de um homem obcecado pelo relacionamento encerrado três anos antes e que sofre por suas limitações, sua pretensão de ser um escritor e sua desculpa de dizer que bebe por ser um enólogo.

Curioso é que não somos convidados a sentir pena do protagonista. Podemos nos identificar, claro, afinal é comum nos encontrarmos presos a um amor que só reside em nossas mentes. Acreditando que éramos pessoas bem melhores enquanto dividíamos nosso coração com alguém que nos fazia sentir especial. Miles vive isso. Se torna uma sombra de si mesmo por causa deste sofrimento e acaba dando asas para o seu alcoolismo. O espectador é testemunha do seu sofrimento e do quanto isso é pesado, como no diálogo em que ele analisa as características positivas de um bom vinho em uma metáfora com a sua própria vida, querendo provar para a figura feminina que lhe chamou a atenção que as pessoas também possuem a hora certa de serem “degustadas”, que o amadurecimento precisa ser “cultivado”, essas coisas. E se acreditamos em Miles e em seu sofrimento (vide o momento em que ele fica alterado e liga para a ex. Você enxerga nos olhos dele a tristeza, escuta o tom de voz de quem sabe que está sendo inconveniente mas gostaria de ser aceito e que vai se irritando a medida que a outra pessoa demonstra estar incomodada), tudo isso se deve ao trabalho fenomenal de Paul Giamatti.

Seu companheiro de cena, Haden Church, não deixa por menos e oferece um curioso paralelo ao comportamento de Miles. Jack está prestes a se casar, mas não hesita em omitir esse detalhe para poder comer uma garota. O problema é que o cachorro é sem noção e diz que a ama. Como se pode perceber, Jack é sim responsável pelo alívio cômico de Sideways, mas se engana quem pensa que essa tarefa é simples de ser cumprida, especialmente se tratando de uma produção tão densa e interessante quanto essa. A imaturidade de Jack reflete o seu medo de seguir adiante na vida e saber que o jogo acabou. E faz uma rima forte com o comportamento do amigo. Ambos se parecem no quesito de estarem estagnados em suas respectivas vidas: um peca por não viver e o outro por querer viver demais.

As Confissões de Schmidt continua sendo um porre; Os Descendentes é um filme sobre o Salsicha roubando a esposa do George Clooney, como alguém comentou na época – Marcelo Seabra, do site O Pipoqueiro, eu acho; Eleições eu não vi ainda; e Nebraska é razoável para mediano. Mas quando chegamos em Sideways não há muito o que dizer: é sensacional e indicado para todos aqueles que possuem dificuldade em interagir e se sentem incapazes de aceitarem suas próprias limitações até que alguém chegue para mudar tudo para provar que existe motivo para passarmos por todas essas experiências de merda. Estou esperando a minha vez.

Poster Sideways

Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways, 2004) Dirigido e escrito por Alexander Payne. Com Paul Giamatti, Thomas Haden Church e Sandra Oh

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.