Crítica: Um Lugar Chamado Notting Hill | Cinema de Buteco
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Crítica: Um Lugar Chamado Notting Hill

Crítica: Um Lugar Chamado Notting Hill – “Hugh Grant quebra o modelo padrão das comédias românticas e se transforma na versão masculina das princesas dos contos de fada no filme escrito por Richard Curtis (Questão de Tempo)

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COMÉDIAS ROMÂNTICAS GERALMENTE SEGUEM UM PADRÃO: o príncipe encantado precisa dar uma cagada para mostrar que é humano e imperfeito, assim como acontece na vida real, e depois corre atrás da mocinha para recuperar o seu amor. Essa fórmula já está batida até mesmo para o Leonardo Lopes, membro mais jovem da equipe do Cinema de Buteco, mas que já deve estar quase careca de ver obras repetindo incessantemente a mesma estrutura. Felizmente, Um Lugar Chamado Notting Hill subverte as regras e cria um autêntico príncipe encantado encarnado no bonitão Hugh Grant: ele é o cara que foi abandonado pela esposa, é o cara que é dono de uma loja de livros de viagem, que é bondoso, engraçado, inteligente, enfim, um partidão. Desta vez, quem coloca tudo a perder é a mocinha vivida aqui por Julia Roberts, que talvez esteja em um de seus melhores trabalhos em toda a carreira.

O amor, nós sabemos muito bem, é uma coisa complexa. Raramente os caras legais se dão bem. Quando acontece, a pessoa é feia ou chata, ou simplesmente tem um cheiro esquisito que te faz ter pavor da ideia de dormir ao lado dela novamente. Só que, como disse logo acima, Um Lugar Chamado Notting Hill subverteu os fatos. Podemos afirmar sem medo nenhum que ele é um conto de fadas invertido em que Hugh Grant interpreta a princesa, e pasmem!, Julia Roberts é o rebelde idiota que irá fazer um monte de besteira. Essa curiosa mudança nos padrões torna o longa-metragem especialmente inesquecível até mesmo para os rapazes.

William é o autêntico retrato do chamado “cara legal”. Tímido, desastrado, inteligente e engraçado. O tipo perfeito para qualquer mulher – embora a maioria não saiba disso. Mulheres costumam a ter a ilusão de acreditar que segurança e conforto são mais importantes que a felicidade. Esse comportamento apenas ilustra a própria sensação de insegurança da garota, que se sente incapaz de aceitar sua própria independência e busca alimentar a necessidade de ter um homem provedor. William não é esse cara. Por mais carinhoso e devotado que seja, ele não pode oferecer garantia nenhuma financeira. Ainda mais quando está lidando com uma atriz de Hollywood cujo último salário foi de US$ 15 milhões. Anna, felizmente, não sofre deste mal. Ela é bem resolvida, mas possui outro problema: é uma verdadeira predadora. Enquanto Will fica embasbacado a olhando na loja, sem acreditar na sorte que teve de atender uma atriz de Hollywood, ela percebe sua vantagem e joga com isso.

Não de maneira cruel, afinal de contas, ela é apenas uma garota parada na frente de um cara e pedindo que ele a ame, mas Anna vive seus próprios conflitos e medos. Isso a torna dura e capaz de rejeitar o amor incondicional de William por duas oportunidades. Como dizem por aí, o cara bonzinho costuma se ferrar. Foi o caso do nosso “príncipe”, que no final consegue ter o amor próprio de tomar uma decisão correta e dispensar Anna. Só que o cinema é como a vida real: bom senso é uma porcaria, e amor próprio costuma ser supervalorizado. Numa virada completa de toda a estrutura apresentada até então, o filme abraça seus clichês e temos o mocinho (finalmente) correndo atrás garota.

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Nada disso funcionaria se não fosse a química entre Grant e Roberts. O espectador se apaixona junto deles e passa a torcer para que a vida normal daquele vendedor de livros se transforme completamente e que ele consiga fazer aquela atriz hollyoodiana feliz “prá dedéu”. O elenco de apoio tem papel fundamenal na trama. Dos amigos e familiares de Will até os empresários e agentes de Anna, e até mesmo a breve participação de Alec Baldwin como o namorado grosseiro, todos agem em perfeita harmonia para fortalecer o romance do casal entre suas idas e vindas.

Seria um pecado fazer uma crítica de Um Lugar Chamado Notting Hill sem citar a famosa passagem de tempo durante um plano sequência em que Will está caminhando pelas ruas de seu bairro. Enquanto acompanhamos o andar deprimido do protagonista, o tempo vai passando lentamente e descobrimos isso através das mudanças de estações e interações dos figurantes. Um trabalho genial, e muito analisado por críticos de cinema em geral.

Existem várias piadinhas hilárias sobre o universo de Hollywood, muitas delas brincando com a carreira do elenco, como no momento, logo no começo, após William (Grant) derrubar suco de laranja na camisa branca de Anna (Roberts), em que há uma alusão a Uma Linda Mulher. Essa aparente sinceridade é uma recompensa para os cinéfilos que apreciarão o momento de humor depreciativo da indústria. Aliás, o roteiro do brilhante Richard Curtis não dá uma bola fora e todas as piadinhas funcionam para manter o ritmo do longa-metragem e arrancar boas risadas do espectador.

Em 1999, ano em que o longa-metragem foi lançado, os tempos eram outros. Anna se preocupou bastante com um escândalo causado pela distribuição de fotos comprometedoras que havia tirado no começo da carreira. Disse que os jornais arquivam tudo, que um dia todas as coisas que tinham contra ela poderia ser usado novamente. Considerando com os dias de hoje, e o recente caso do The Fappening (as imagens pessoais de várias atrizes que foram roubadas e distribuídas pela internet), pensamos no quanto a reação da personagem parece exagerada e como as coisas mudaram. Quem dera se escândalos ficassem apenas nas bancas de jornais e programas de televisão. Pelo menos aí, o alcance era segmentado e a maioria não teria acesso às imagens. Hoje em dia, com a internet e os smartphones, nudez de ninguém está protegida. Esse é um detalhe que agora torna Um Lugar Chamado Notting Hill ainda mais charmoso, afinal é um retrato de uma época que já ficou no passado.

Para os apaixonados de plantão, ou mesmo para aqueles que simplesmente estão interessados em assistir a uma boa comédia romântica, Um Lugar Chamado Notting Hill é uma boa pedida. Doce na medida certa para não deixar ninguém doente, e com um timing cômico perfeito, esse é um daqueles filmes a que assistimos milhares de vezes sem nunca enjoar.

[tresemeia]

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Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.