Crítica: Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência - Mostra de SP | Cinema de Buteco
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Crítica: Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência – Mostra de SP

Crítica Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #35

Crítica-Um-Pombo-Pousou-Num-Galho-Refletindo-Sobre-a-Existência--600x337 Crítica: Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência - Mostra de SP

Para quem conhece a obra do cineasta sueco Roy Andersson (Canções do Segundo Andar, Vocês, os Vivos) e os temas normalmente abordados por ela, este Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência fará todo o sentido: como se visto através dos olhos de um pássaro – metafórico, claro – disposto a observar 24 horas por dia a experiência humana e constatar todos os seus absurdos e incoerências, o longa salta de uma esquete cômica a outra em que seus atores encenam o nonsense de nosso dia-a-dia em sociedade com o senso de humor peculiar do roteirista e diretor.

Descrever cada situação apresentada pelo longa, aliás, seria inútil, já que elas são muitas e nem sempre interligadas – assim como listar seu elenco seria igualmente desnecessário uma vez que as figuras vistas ao longo da projeção nada mais fazem que representar a espécie humana como um grupo, todos maquiados de branco como palhaços (ou mortos-vivos em meio a uma sociedade que controla suas decisões – uma interpretação facilmente defendida pela maneira absolutamente apática com que aqueles homens e mulheres reagem aos acontecimentos ao seu redor) e filmados de longe em planos conjuntos que parecem justamente evitar sua humanização.

O que podemos fazer, por exemplo, é usar algumas de suas esquetes e gags para analisar a narrativa como um todo: há apenas dois personagens que, aparecendo em vários “segmentos” distintos, tentam conferir a mínima unidade ao projeto. Vendedores ambulantes de objetos inúteis que eles anunciam como de grande utilidade (e com a expressão entorpecida que é uma constante entre todos os indivíduos vistos ao longo da projeção), eles percorrem cenários diferentes e interagem como todo o tipo de gente tentando convencê-las a gastar dinheiro com uma dentadura plástica de vampiro, um brinquedo de borracha que produz uma espécie de risada e uma máscara de um tal “Sr. Um Dente” – o que não é, segundo Andersson parece sinalizar, muito diferente do que fazem as centenas de milhares de marcas que incentivam nosso consumismo dia após dia.

É pelo mesmo prisma, aliás, que as cenas mais difíceis do longa devem ser interpretadas: em uma delas, um macaco é visto acorrentado a um mecanismo quase medieval onde recebe uma forte descarga elétrica a cada vinte segundos enquanto uma enfermeira conversa calmamente ao telefone a alguns metros dele (repetindo a frase: “Fico feliz que você esteja bem”, que é usada por vários “personagens” em momentos diferentes do filme); já em outra, um grupo de opressores brancos levam seus escravos a um enorme barril cercado por tubulações de “respiração”, ateiam fogo em sua base e os observam correr desesperadamente e, assim, não apenas fazer o bujão girar como produzir um som dissonante através de seus gritos filtrados pelos tubos. Em ambos os casos, o longa parece comentar o escândalo da crueldade humana com animais e semelhantes de outras raças, criando o show de horrores visual que ela representaria para um ser que não estivesse acostumado com nosso modo de agir como espécie.

Compondo enquadramentos milimetricamente equilibrados que, sempre variando em tons de bege e marrom e trazendo pouquíssimos objetos de cena, parecem querer criar um universo que remete ao nosso, mas não o é de fato (uma observação que reforça a ideia de um “mundo dos mortos”), Andersson, seus diretores de fotografia István Borbás e Gergely Pálos e seu diretor de arte Frank Aron Gårdsø ainda simulam um simulacro da vida real em que eles, os vivos (ou os mortos) estariam presos a uma gaiola e submetidos ao escrutínio constante de… nós, os pombos?

Obviamente inspirado em Monty Python em seu humor negro e nonsense, Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência tem ainda uma série de momentos extremamente divertidos, como aquele em que um paciente ouve o discurso de um dentista despreparado e pessimista e aproveita a primeira brecha para escapar ou mesmo os “três encontros com a morte” encenados logo no início da projeção, causando uma permanente e mista sensação de riso, estranhamento e repulsa – o coquetel que, para Andersson, parece resumir a experiência humana.

Grande vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano, Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência pode não ser uma obra prima, mas é suficientemente intrigante para merecer este importante prêmio que recebeu.

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Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência (En Duva Satt På En Gren Och Funderade På Tillvaron, Suécia, 2014). Escrito e dirigido por Roy Andersson. Com Holger Andersson e Nils Westblom.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.