Crítica: A Viagem de Yoani - Mostra de SP | Cinema de Buteco
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Crítica: A Viagem de Yoani – Mostra de SP

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38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #20

 critica-a-viagem-de-yoani-600x399 Crítica: A Viagem de Yoani - Mostra de SP

A figura da blogueira e ativista cubana Yoani Sanchez gera tanta controvérsia que montar um documentário sobre seu papel na discussão política mundial é um desafio que poderia constranger quase qualquer diretor, principalmente porque a maioria deles tentaria assumir uma das duas posturas extremas que Sanchez costuma despertar: enquanto alguns se sentiriam tentados a tratá-la como uma mera mercenária comprada pela propaganda norte-americana anti-Cuba com o objetivo de esconder do mundo a maravilha que é a vida na ilha de Fidel, outros se entusiasmariam com a ideia de alçá-la ao posto de heroína mundial engajada na luta pela desintegração de uma tirania perversa e repressora dos direitos humanos.

Duas posturas que têm, simultânea e contraditoriamente, sua razão – e é justamente por entender essa ambigüidade de sua documentada que o cineasta Peppe Siffredi faz de A Viagem de Yoani um documentário obrigatório.

Concentrando-se na visita de uma semana que Yoani fez ao Brasil em 2013, o longa não se acovarda diante dos diferentes tipos de alvoroço que a blogueira despertou por aqui: vaiada e xingada por grupos de militantes da extrema esquerda brasileira por onde quer que passasse e festejada por figuras repugnantes da extrema direita (sendo Jair Bolsonaro o mais efusivo entre eles), Sanchez se encarregou de revelar indireta e inconscientemente o que há de pior nos dois mundos – algo que Siffredi deixa claro na cena em que uma militante faz um discurso pró-Cuba e é questionada por Yoani sobre a última vez que ela esteve lá (a resposta óbvia é que ela nunca esteve, claro) e no momento em que Bolsonaro revela tudo o que há de errado por trás do apoio à blogueira ao emendar sua defesa a um odioso discurso de apoio à Ditadura.

E se há um elogio que qualquer documentarista faria de tudo para receber e que é mais do que justo que seja utilizado para falarmos de Siffredi é dizer que sua capacidade de tirar o espectador de sua zona de conforto e fazê-lo questionar sua própria opinião acerca de Sanchez é simplesmente admirável, uma vez que é tão impossível iniciar a projeção idolatrando a cubana e não desiludir-se diante de sua óbvia relação de servidão aos interesses econômicos da extrema direita quanto entrar na sala de exibição detestando sua figura e não sair dela reconhecendo que, ao menos nas questões que envolvem a falta de liberdade promovida pelo partido comunista naquele país (que obriga sua população a viver em pleno 2014 sem banda larga ou acesso a Google, Yahoo e Facebook, por exemplo), ela está coberta de razão.

Prejudicado apenas pela precariedade de suas transições gráficas, que parecem ter sido feitas por um adolescente aprendendo a mexer no Corel Draw, A Viagem de Yoani faz tudo aquilo que um bom documentário tem a obrigação de fazer: jogar uma nova luz sobre temas que o espectador julgava conhecer a fundo, incentivando-o, durante o processo, a também descobrir um pouco mais sobre sua proporia visão do mundo que o cerca.

A Viagem de Yoani (Idem, Brasil/Cuba/EUA, 2014). Escrito e dirigido por Peppe Siffredi.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.