Crítica: Viver É Fácil com os Olhos Fechados – Mostra de SP

Critica Viver É Fácil com os Olhos Fechados

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #32

Critica Viver É Fácil com os Olhos Fechados

Escolhido pela Espanha para lutar por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro na cerimônia do Oscar 2015, Viver É Fácil com os Olhos Fechados é um road movie divertidinho que, se não contasse com a simpatia de Javier Cámara, com uma trama lúdica sobre o fanatismo que os Beatles despertavam mundo afora na década de 60 e com uma recriação de época impecável, provavelmente não teria recebido tanta atenção nem do público nem da crítica – e é uma pena que o diretor David Trueba, que também assina o roteiro do longa, decida em diversos momentos desviar a atenção de seu adorável protagonista para os dois aborrecentes que o acompanham, contagiando o espectador com a apatia dos atores que os interpretam.

Antonio (Cámara) é um professor de inglês do ensino médio que, fã incondicional dos Beatles e especialmente de John Lennon, vai à loucura quando descobre que seu ídolo estará na Espanha para filmar seu novo longa-metragem como ator. Solitário, ele não tem ninguém para dar satisfação, não pensando duas vezes antes de colocar seu calhambeque na estrada rumo a Almería, onde o set da produção de John está instalado – e é logo no início da viagem que ele encontra, pedindo carona em pontos distintos da estrada, a bela Belén (Molina), que decidiu voltar para a casa da mãe ao descobrir-se grávida, e o tímido Juanjo (Colomer), que deixou a família por recusar-se a manter-se submisso ao pai militar repressor e agressor.

Partindo dessa coincidência absurda envolvendo o encontro entre seus três personagens principais (mas que até se justifica pela proposta bem-humorada do projeto, vá lá), Viver É Fácil com os Olhos Fechados usa a fotografia ensolarada de Daniel Vilar para contar uma história que jamais oferece um risco real e palpável a Antonio, Belén ou Juanjo, investindo no humor físico através das trapalhadas do primeiro e no humor do constrangimento através de suas dificuldades de se conectar com seus jovens amigos para criar um clima leve e “para cima” em que tudo anda em um ritmo calmo, sereno e tranquilo (quando o trio para em um bar à beira da estrada, ouvimos as longas histórias contadas por seu dono sem interrupções).

Usando o clichê da charada que tenta criar algum senso de unidade para o roteiro (no caso, aquela envolvendo o apelido que dão a Antonio na escola em que trabalha) e utilizando a ditadura de Franco como um pano de fundo que jamais tem função alguma dentro dos propósitos da narrativas, o longa se salva pela doçura de Cámara, que, com sua figura naturalmente engraçada e sorridente e o carisma que já conhecemos dos filmes de Pedro Almodóvar, faz com que nos importemos com seu personagem e torçamos para que ele realize o seu sonho, por mais tolinho que este seja. Em contrapartida, Natalia de Molina demonstra uma inexpressividade proporcional à sua beleza, enquanto Francesc Colomer mantém-se um vácuo emocional do início ao fim da projeção.

Leve, rápido e inofensivo, Viver É Fácil com os Olhos Fechados não chega a representar uma experiência desagradável, mas mas está muito longe de ser um filme que possa ser considerado bom.

Poster Viver É Fácil com os Olhos Fechados
Viver É Fácil com os Olhos Fechados (
Vivir Es Fácil con los Ojos Cerrados, Espanha, 2013). Escrito e dirigido por David Trueba. Com Javier Cámara, Natalia de Molina, Francesc Colomer, Ramon Fontserè, Rogelio Fernández, Jorge Sanz e Ariadna Gil.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.