Crítica: Whiplash: Em Busca da Perfeição, de Damien Chazelle
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Crítica: Whiplash – Em Busca da Perfeição

Miles Teller e J.K. Simmons contracenam em uma produção capaz de fazer o espectador suar na poltrona. 

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Whiplash

EXISTEM DOIS TIPOS DE PESSOAS: as que se motivam e as que se intimidam por desafios. Elogie a primeira e ela se acomoda, instigue esta mesma pessoa e ela se supera. A segunda funciona exatamente do mesmo jeito, só que ao contrário: se acomoda com o desafio e se supera para receber elogios.

Whiplash conta a história de Andrew Neyman (Miles Teller), um estudante de música com uma grande ambição: se tornar um dos maiores bateristas de Jazz da história. Para isso, ele conta com uma bolsa de estudos numa das mais conceituadas escolas de música do país e uma rotina árdua de estudo e prática em seu instrumento.

O filme é repleto de referências à história do Jazz, desde histórias de Charlie Parker e Buddy Rich até referências atuais como a Wynton Marsalis, atual Diretor de Jazz do Lincoln Center e ao Blue Note, conceituada casa de Jazz de Manhattan.

O primeiro elemento técnico que pode ser analisado é o nome do longa-metragem: Whiplash. Que além de uma música da Don Ellis Band, é uma palavra que remete a diversas traduções e significados. Eu confesso que minha primeira impressão foi que ela remeteria a torcicolo, efeito colateral comum após horas de treino na bateria. Mas assim que Andrew entra para banda de Terence Fletcher (J. K. Simmons) outro significado da palavra se revela: chicotada, pois o regente da Jazz Band maltrata seus músicos freqüente e constantemente com o intuito de estimulá-los a buscar sempre e cada vez mais a perfeição.

Vi algumas pessoas comparando Terence Fletcher com o Sargento Hartman (R. Lee Ermey) de Nascido para Matar, muito por conta das agressões verbais e por conta da rigidez disciplinar que Fletcher conduz sua banda, mas sou forçado a discordar desta visão. No filme de Stanley Kubrick, o militar é um sádico que através de seus métodos transforma crianças em assassinos. Ele não se desarma de sua persona cruel sequer um segundo durante o filme, enquanto que o regente em Whiplash é um personagem com personalidade muito mais ambígua, complexa e bipolar. Apesar das seqüências em que encarna um carrasco serem mais marcantes ao público, considero que as indicações e prêmios de melhor atuação que J. K. Simmons recebeu (e ainda vencerá mais alguns) se devem à grande sensibilidade mostrada enquanto toca o piano ou se emociona com a beleza da música. A dualidade do personagem criada por Damien Chazelle foi quem permitiu que o ator mostrasse todo o seu talento, e não é a toa que seu nome transmite essa dualidade, pois “Terence” significa gentil em latim e o nome Fletcher está associado a flechas. J. K. Simmons está interpretando um gentil opressor.

Andrew por sua vez, é um jovem talentoso e sonhador. Seu objetivo é claro e ele demonstra o filme inteiro que está disposta a fazer o que for necessário para alcançá-lo. E uma dessas coisas é conseguir a atenção de Fletcher.  Por isso que no início da obra, a sala e a banda onde ele ensaia são desinteressantes, lá as cores são opacas. Já na sala da banda de Fletcher tudo muda, as cores ficam mais vibrantes, a sala e a música possuem um brilho dourado reluzente remetendo ao tesouro que Andrew vivia a procura.

O filme ainda tem pontos de destaque como a edição de som e a montagem. Diversos plano detalhe durante a execução das músicas ajudam a dar um ritmo sincopado ao andamento do longa. Intercalados com closes nos personagens, eles nos mostram de forma visual como cada um se sente e vive a música.

Além da pressão psicológica empregada pelo tutor, é possível ainda enxergar na tela o resultado da exaustão física fruto dos intermináveis exercícios ao instrumento em busca da perfeição. E o diretor aproveita este fato para mostrar que Andrew literalmente estava dando seu sangue e suor para alcançar seu objetivo. A cena envolvendo um balde de gelo também merece uma atenção especial.

Apesar da fama de descontraído por conta das improvisações, o Jazz é marcado pela busca incessante da perfeição por parte dos músicos. O Jazz tem swing e é perigoso, dado que grande parte sempre surge nas adversidades, no rompimento com o comum e de onde se menos espera. Acredito que o diretor foi extremamente feliz na decisão da forma como filmar este tema.

Zona de Spoilers

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Fletcher praticamente tortura seus alunos com o intuito de fazer aflorar um gênio da música. Ele justifica seu método fazendo referência a uma das lendas do Jazz, Charlie Parker. The Bird, como era conhecido, estava tocando um solo em uma jam session com a Count Basie Orchestra. No relato de Fletcher, Parker tocou tão mal que Jo Jones, o baterista, jogou um prato em sua cabeça, quase decapitando-o. Depois da humilhação e intimidação, Parker foi para casa e praticou tanto que ele voltou um ano depois e fez história com seu solo, inventando o Bebop, uma das vertentes mais virtuosísticas do Jazz.

Segundo crítica de Whiplash publicada no The New Yorker, a história real não foi bem assim e o crítico cita diversas biografias que comprovam isso apontando este fato como um grande furo no filme. Eu não sou tão radical. Se a história do prato arremessado contra Charlie Parker foi alterada para reforçar a narrativa, eu só vejo elogios. Um filme é uma obra de ficção e não tem compromisso integral com a verdade. Se quisermos tal fidedignidade dos fatos recomendo o excelente documentário Jazz de Ken Burns.

Fletcher enxerga em Andrew determinação e resiliência, qualidades que se encaixavam perfeitamente em sua filosofia como regente. E apesar de no começo do filme, nós, espectadores, ainda nutrirmos alguma identificação com o protagonista, ela vai se perdendo com o passar do filme. Andrew demonstra uma tremenda ganância, passando por cima de tudo e de todos, terminando seu namoro de forma extremamente antipática ou ainda menosprezando seus parentes em nome do seu objetivo e de seu grande ego.

Andrew Neyman e Terence Fletcher entendem-se muito bem, praticamente foram feitos um para o outro. E o resultado desta parceria é a seqüência final do filme, onde vemos Andrew extravasando toda sua raiva na forma de um solo de bateria que inicialmente iria apenas irritar seu mestre, mas que acabou se tornando, guardada as devidas proporções, o solo genial que Fletcher tanto queria. Finalmente ele ajudou a desaflorar um músico comparável ao Charlie Parker de suas histórias. E quando ele percebe o que está acontecendo sua fúria se transforma em orgulho e ele praticamente acolhe Andrew com um olhar paternal enquanto prepara a orquestra para a entrada da próxima música numa cena de tirar o fôlego!

Extraordinário, Triunfal, Inspirador, Visceral, Perigoso, Febril, Arrebatador, Inebriante, Espetacular, Explosivo, Deslumbrante, Petrificante, Excitante, Assombroso, Glorioso, Estelar, Incrível, Louco, Fascinante e Ousado. Estes são os adjetivos que o trailer promete e Whiplash cumpre. Um filme sobre Jazz, sobre superação, sobre fazer sacrifícios e sobre a relação de um mestre e um aprendiz dispostos as últimas conseqüências pelo amor a música.

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Referências

Jazz – Ken Burns

Crítica do filme Whiplash por Richard Brody do The New Yorker

Blue Note Jazz Club New York

Wynton Marsalis

Lincoln Center

Don Ellis Band

Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash, 2014, EUA) Dirigido e escrito por Damien Chazelle. Com Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser e Melissa Benoist.

Leonardo Carnelos

Leonardo Carnelos é engenheiro mecânico aeronáutico, árbitro de tênis e responsável pelo blog Art Perceptions (www.artperceptions.com). Paulista, paulistano e palmeirense, acredita que a vida não faz sentido sem o estudo da Arte.