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Filme: Divertida Mente (2015)

Texto originalmente publicado no blog CineViews

Divertidamente melhores animações

Do primeiro ao terceiro Toy Story (1996-2010), a Pixar construiu uma filmografia simplesmente impecável em que até os projetos menos ambiciosos, como Vida de Inseto e Carros, funcionavam ao menos como ótimos filmes de gênero. Foi com enorme decepção, portanto, que eu e centenas de milhões de fãs ao redor do mundo passamos a ver o estúdio abandonar a originalidade e se aprisionar a continuações caça-níqueis (Carros 2, Universidade Monstros) e produções genéricas (Valente) que não faziam jus às emoções intensas causadas por obras-primas comoWall.E, Ratatouille, Os Incríveis, Monstros S.A. e Up. Pois a boa notícia é que Divertida Mente não apenas se inscreve no panteão dos melhores filmes já produzidos pelo estúdio de John Lasseter como apresenta a premissa mais madura e existencialista de toda a sua História.

Em um nível, digamos, “superficial” (e vocês entenderão a escolha do termo), o roteiro escrito pelo co-diretor Peter Docter (Monstros S.A., Up) ao lado de Meg LeFauve e Josh Cooley conta uma história extremamente simples e prosaica: logo depois de completar onze anos de idade, a menina Riley (Dias) recebe dos pais (MacLachlan e Lane) a notícia de que a família se mudará da Minnessota de sua infância à distante e hostil São Francisco. Chegando lá, a garota precisa lidar não apenas com as agruras de uma mudança comum (deixar os amigos para trás, enfrentar o início das aulas em uma nova escola, etc), mas também com uma casa velha e mal cuidada, um caminhão de mudança que atrasa uma eternidade e, claro, os primeiros sinais da puberdade.

Mas, como o título original explica, nós somos convidados a acompanhar os conflitos de Riley de dentro para fora – e a maneira inventiva com a qual os roteiristas abordam as raízes emocionais das reações da menina transforma o longa não só em uma viagem fascinante a um universo rico em ideias e significados, mas também em uma reflexão extremamente sofisticada acerca dos mecanismos usados pela psique humana em prol de sua própria preservação.

De uma central de comando inspirada no conto dos espermatozoides de Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar, de Woody Allen, a Alegria (voz de Amy Poehler na versão original), a Tristeza (Smith), a Raiva (Black), o Medo (Hader) e o “Nojinho” (Kaling) não apenas disputam pelo controle da personalidade de Riley, como são responsáveis pelo armazenamento de suas memórias e pelo equilíbrio entre as áreas mais importantes de sua vida (família, amigos, hobbies, etc) – e a equipe criativa da Pixar merece todos os aplausos do mundo pela maneira sempre criativa e visual com a qual consegue abordar conceitos complexos e mesmo existencialistas que vão da “produção” dos sonhos ao esquecimento seletivo, passando por memórias recorrentes e involuntárias, traumas do passado e os filtros emotivos através dos quais enxergamos a realidade à nossa volta em diferentes momentos da vida.

Dos elementos mais óbvios aos mais sutis, o design de produção de Divertida Mente é um espetáculo visual repleto de imaginação e inventividade, dando vida a conceitos subjetivos que dificilmente poderiam ser explicados a uma criança ou deixarem de soar aborrecidos para os adultos. Assim, não só as cores e o design dos personagens que representam as cinco principais emoções da protagonista surgem cheios de significados (note que o amarelo dourado da Alegria é levemente quebrado pelos cabelos azuis que, mesmo com um corte moderno que comprova sua vivacidade, exibem o azul royal onipresente na “pele” da Tristeza, sugerindo o balanço necessário que será decisivo no clímax da projeção), como a “geografia” da mente de Riley apresenta uma infinidade de informações de maneira prática, didática e de fácil compreensão (e nesse sentido, o grande destaque fica por conta do passeio de certos personagens pelas profundidades do pensamento da garota, passando pelo pântano expressionista do subconsciente e transformando-se momentaneamente em pensamentos abstratos e minimalistas), além de chegar a emular a estrutura nervosa do cérebro humano através de corredores que, formando o labirinto de memórias na qual a Alegria e a Tristeza se perdem, surge todo formado por paredes compostas por miolos.

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Cutucando a mesma ferida da trilogia Toy Story (o rito de passagem representado pelo fim da infância), o longa explora com inteligência o processo de abandono de informações que não tem mais a menor serventia para uma pré-adolescente (os nomes das princesas da Disney, o amigo imaginário – que, vale dizer, protagoniza um daqueles momentos de cortar o coração que são marca da Pixar -, etc) e a aquisição de novos medos e inseguranças que, potencializados na adolescência, contribuirão com a formação do adulto que dela nascer – e o roteiro de Docter, LeFauve e Cooley atinge uma profundidade admirável no momento em que “reencena” o primeiro dia de aula na nova escola através do ponto de vista interior da personagem (que mal imagina que, por trás dos rostos hostis de seus novos colegas, também existe uma profunda insegurança, como testemunhamos na cena exibida durante os créditos finais e que nos dá acesso aos pensamentos dos coadjuvantes de diversas cenas).

Inteligente (e doce) ao deixar claro através das “ilhas” que, por mais que passemos por uma série de transformações intensas ao longo de nossa existência, há “lugares” em que as âncoras de quem somos permanecem fincadas, o roteiro de Divertida Mente ainda merece ser elogiado por sua incrível capacidade de distribuir pistas ao longo da trama que gerarão recompensas no local e momento adequados – e impressão que dá é que cada componente encontrado na “ilha da imaginação” (os namorados imaginários, as bexigas, nuvens, guloseimas e afins) acaba tendo uma utilização prática na escapada da Alegria e da Tristeza de volta à torre de comando.

Ah, sim, porque Divertida Mente não é só um longa complexo e ambicioso, mas também extremamente divertido em sua trama mais “superficial”, oferecendo uma oportunidade para as crianças se entreterem enquanto seus pais choram litros e passam vergonha a seu lado.

Um “mico” ao qual já estávamos todos acostumados e do qual, diante do breve desvio do estúdio de suas origens nos últimos anos, já estávamos morrendo de saudades.

João Marcos Flores

Crítico de Cinema associado à OFCS (Online Film Critics Society, a maior associação de críticos online do mundo, sediada nos EUA) e editor do blog Cineviews.