Meu Amigo Totoro

UMA OBRA DE ARTE NADA MAIS É DO QUE A EXPRESSÃO DO PENSAMENTO E DA MEMÓRIA DE CADA UM DE NÓS. As experiências vividas, observadas e apreendidas por nós fundamentam nossa personalidade, nossa filosofia, nosso caráter. São base para os nossos desejos e moldam nossas decisões. A memória é um assunto muito discutido em todos os aspectos, em todas as áreas deste mundo e mesmo assim continua um mistério para a humanidade. Hayao Miyazaki não é um ser diferente: obviamente mais na arte do que em muita coisa, não há objetividade, e ele não é imune. O tempero a mais é a atenção que ele dá a sua própria memória, o respeito que tem pelas imagens e lembranças que ela o proporciona.

Meu Amigo Totoro é um de seus filmes mais infantis – talvez o mais – e é inspirado em dois aspectos de sua memória: vivência e observância. Vivência porque ele também teve uma mãe doente que vivia internada em hospitais enquanto ele ficava com o pai; observância porque mora ao lado de uma escola jardim-de-infância e resolveu contar uma história a partir de uma criança em específico, a filhinha de um amigo seu (precoce e inteligente como as garotinhas estilo Dakota Fanning – que por sua vez dubla a versão americana – são). Misturando mitologia japonesa (claro! Quem é que presta mais tributo ao próprio folclore que Miyazaki?), sua infância, a filhinha do seu amigo e sua própria filosofia – como sempre -, ele simplesmente quis mostrar a mente que toda criança tem: a mente que fica nas nuvens 24 horas por dia, inocente, divertida, sempre atrás de escape. Curiosidade: o Rei Totoro é o símbolo do Studio Ghibli, o estúdio de animação do diretor.

As irmãs Satsuki e Mei se mudam para o interior do Japão com o pai para ficar mais perto do hospital onde a mãe está internada. Logo, logo as pequerruchas descobrem que a casa é habitada por seres que mais parecem bolinhas de carvão (outra familiaridade nas obras do diretor, como os “escravinhos” da caldeira em A Viagem de Chihiro e os monstrinhos em O Castelo Animado), que mais tarde deixam a casa porque gostam de viver em casas vazias (metáfora utilizada para refletir o clima triste do lar no início da mudança, por razões óbvias). Dois coelhos brancos (Lewis Carroll e sua Alice mandam lembrança) passam correndo e aguçam a curiosidade de Mei, a mais nova, que desembesta-se atrás deles e acaba caindo num jardim fechado por plantas e árvores, bem em cima da barriga de um troll. Ao ouvir o seu grunhido, ela o acaba chamando de Totoro (o que não é bem o que ele grita mas sim o que ela entende). Este espírito mágico não é o único de sua raça e outro aparece, em menor escala. Sempre juntos, esses dois “Totoros” nunca são vistos por mais ninguém além das duas irmãs. E ao contrário de muitos pais que riem ou zombam da imaginação infantil (ou não?), o pai das meninas as encoraja e compreende a situação. Mas o clímax da história acontece quando as garotas recebem a notícia de que a mãe não está bem e ficará mais tempo internada, fazendo com que Satsuki se estresse e grite com Mei, que sai atrás da mãe sozinha pela estrada com uma espiga de milho na mão, convicta de que comida saudável a curará.

Pesado? Seria se Miyazaki não elevasse as coisas com seres mágicos, brincadeiras de criança, roteiro sutil e coisas sem pé nem cabeça (como árvores crescendo do dia para a noite ou um “gatônibus” voando no céu). As crianças não se entregam à tristeza e tentam se divertir e fugir da realidade mesmo que inconscientemente. O universo com Totoros, danças e criaturas mágicas que ninguém além das crianças vê é o retrato da realidade infantil e que é também a nossa, dos adultos altamente conscientes do desespero e do cotidiano que também sonham coisas sem sentido para inibir a fixação em problemas. Enxutando ainda mais a história, já conto para vocês que o filme tem final feliz – talvez para dar ainda mais leveza e certa esperança no fim das contas. Filosofando botecosamente, arrisco dizer que Meu Amigo Totoro é uma metáfora adulta com personagens-criança, e não o contrário.

Há quem diga que este filme é uma das maiores animações de todos os tempos. Na minha opinião não é. Está longe. O próprio Miyazaki fez coisa muito melhor. Talvez se eu tivesse assistido este filme pequenininha eu o endeusasse como muita gente faz, mas acontece que o vi recentemente e aí a experiência não é a mesma. Eu poderia falar de Nausicäa – A Princesa do Vale dos Ventos, O Castelo no Céu, O Serviço de Entregas da Kiki, Porco Rosso – O Último Heroi Romântico, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar ou qualquer outro trabalho dele. Escolhi este filme por sua representação cultural (este é o segundo maior filme de Miyazaki depois de A Viagem de Chihiro), já que este é o último texto da coluna para o homenageado do mês e eu queria fechar com chave de ouro. O maior impacto que este filme teve em mim foi a amizade das irmãs mesmo durante os tempos ruins. Me fez lembrar a amizade que tenho com minha única irmã, mais nova que eu e que me tirava do sério (como todo irmão faz um como o outro) mas que sempre queria brincar comigo, dormir comigo, assistir filmes e ganhar um abraço, tanto quanto a “pituxinha” Mei. E acho, sinceramente, que essa é a maior lição que o diretor quis ensinar: irmandade não tem idade, não tem época, não tem hora, não tem limites e com certeza nos dá muito à imaginação.

Título original: Tonari no Totoro
Direção: Hayao Miyazaki
Produção: Toru Hara
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Chika Sakamoto, Noriko Hidaka, Hitoshi Takagi, Toshiyuki Amagasa, Sumi Shimamoto
Lançamento: 1988
Nota:[tresemeia ]

Fernanda Minucci