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Crítica de Mulher-Maravilha (2017)

poster mulher-maravilhaPATTY JENKINS COMANDOU CHARLIZE THERON EM MONSTER – DESEJO ASSASSINO EM 2003. Provavelmente é um dos melhores filmes produzidos com uma psicopata feminina no papel principal, desbancando até mesmo o talento de Sharon Stone com um picador de gelo em Instinto Selvagem. É estranho pensar que uma cineasta tão eficiente tenha ficado mais de 15 anos longe das telas de cinema, trabalhando quase que exclusivamente em séries de TV antes de assumir a direção desse verdadeiro clássico do universo super-herói Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017).

É bem verdade que ela flertou com esse universo paralelo de Hollywood anos atrás, quando foi anunciada como diretora da continuação de Thor. Não sabemos o que teria sido de O Mundo Sombrio se Jenkins não tivesse pulado fora depois das famosas “divergências criativas” com a cúpula da Marvel, mas duvido que ela pudesse fazer alguma coisa pelo longa. Vamos assumir que todos os filmes do Thor são bem chatos, né?

De qualquer forma, Jenkins foi convidada novamente para dirigir um filme de super-herói. Mais precisamente, ela substituiu Michelle MacLaren (Game of Thrones), que desistiu de Mulher-Maravilha pelos mesmos motivos que Jenkins havia abandonado o barco do Thor, na direção de um projeto que nasceu cheio de pressão pela necessidade de significar a grande virada no mundo das adaptações da DC. Outro motivo para aumentar a pressão era o fato de que Jenkins seria apenas a segunda mulher da história a dirigir um longa orçado em mais de US$ 100 milhões. Apenas Kathryn Bigelow tinha superado essa marca com K-19: The Widowmaker, em 2002.

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Por último, desde que a Marvel iniciou essa produção em massa em 2008, com Homem de Ferro, as mulheres receberam pouca atenção. Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) são importantes na narrativa dos Vingadores, claro, mas será que já não passou da hora de receberem uma atenção extra? O passado mostra que o cinema castigou os fãs quando tentou colocar uma heroína como protagonista. Ou alguém vai dizer que Mulher-Gato ou Elektra fizeram algum bem? O fato é que a DC largou na frente da concorrente e dedicou o primeiro grande filme solo com uma mulher no papel principal. E isso é foda pra caralho.

Iniciar a crítica de Mulher-Maravilha levantando essas informações para você é tão ou mais importante que falar do resultado da adaptação. É preciso reforçar a importância da obra e como o seu sucesso é fundamental para o futuro, quando se fala em igualdade. Queria evitar entrar nesse mérito porque existem canais demais e textos demais falando sobre o tema, mas temo que será difícil evitar seguir esse caminho. Sabe por que?

Eu fui um moleque branquelo que me identificava facilmente com o Peter Parker. Oras, eu sabia bem o que era ser rejeitado e se dar mal com as garotas, além do bullying com os fortões. Cresci “me” assistindo e sempre notando que personagens femininas existiam apenas para girar ao redor dos protagonistas, como se elas não tivessem suas próprias histórias para contar e inspirar. Sempre foi assim e, porra, sendo bem sincero, cagava pra isso porque eu era um moleque idealizando a vida que nunca teria naqueles caras dos desenhos e filmes. Até que vi um vídeo com a Leslie Jones (Caça-Fantasmas) comentando sobre sua reação ao ver Whoopi Goldberg atuando. Ela disse que era uma criança e que ter visto alguém parecida com ela na televisão a encheu de esperanças. Tornou o sonho de ser atriz possível.

Aí bateu a real, né? Pensar no outro. Descobrir um pouco de empatia e perceber que o mundo é grande demais para não ter espaço para todos.

Enquanto assistia a Mulher-Maravilha, especialmente nos minutos iniciais, quando uma mini Diana acompanha o treino das amazonas, comecei a imaginar milhares de menininhas assistindo aquilo e se inspirando, percebendo que existe espaço para elas também. Me deu um orgulho tremendo, quase como se estivesse vendo uma pessoa querida, ver a nanica imitando as amazonas e botando pra quebrar sozinha. Isso é especial e Patty Jenkins merece todo o reconhecimento do mundo por ter sido a cineasta capaz de levar isso para o cinema e oferecer algo tão incrível.

Gal Gadot já tinha mostrado qualidade em Batman vs Superman, mas a segurança dela e a naturalidade com que aparece em cenas de humor e luta é arrepiante. Juro que não imaginaria um resultado tão bom. Mesmo dividindo alguns breves momentos com Robin Wright e Connie Nielsen, Gadot não se intimida ou parece menor em cena. Excelente também ver o trabalho de David Thewlis, que atualmente está atuando na terceira temporada de Fargo. São atores experientes servindo para um bem maior, assim como a Marvel costuma fazer com os seus coadjuvantes.

A influência do trabalho genial de Zack Snyder se faz presente nas várias sequências de ação. A tela congela por alguns segundos e nos remete imediatamente ao estilo único de Snyder. Aliás, esse estilo e personalidade é o que transforma as tentativas da DC no cinema muito mais frutíferas que as da Marvel, que independente de contar histórias com uma qualidade muito superior, torna impossível identificar estilo dos seus diretores. Tudo parece uma grande temporada de série de televisão em que não é permitido fugir das regras. Mulher-Maravilha supera Batman vs Superman nas sequências de luta e ação, que não causam nenhum tipo de caos mental na cabeça do público.

Como resposta para o público, a DC conseguiu manter o seu clima adulto sem que isso significasse ausência de humor. Mais ainda: Mulher-Maravilha consegue usar cores que nos fazem deixar o cinema com uma sensação otimista até então inédita nessas adaptações. Demorou, mas finalmente acertaram o tom sem precisar se rebaixar ao nível da Marvel.

Mulher-Maravilha é imperdível e disputa de perto o título de melhor filme de super-herói do ano com Logan. Se a gente considerar apenas o lado emocional, não temos a menor dúvida de que esse é forte candidato para aparecer no topo das listas de melhores do ano, fugindo das restrições de “heróis”, esse terreno que a partir de agora deixou de ser exclusivamente dos caras.

PS: Não perca tempo esperando cenas pós-créditos, pois elas não existem.

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