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Crítica: Pantera Negra

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Pantera Negra não possui spoilers e poderá ser apreciada sem moderação.

crítica de pantera negra posterTORCI O NARIZ QUANDO LI AS PRIMEIRAS OPINIÕES DA CRÍTICA SOBRE PANTERA NEGRA. Ainda que Ryan Coogler seja um cineasta jovem (31 anos) e já tenha dois grandes trabalhos nos ombros (Fruitvale e Creed), ainda estamos falando de um produto do Universo Cinematográfico da Marvel, ou seja, existe sempre uma babação de ovo exagerada que quando não é patrocinada, é feita por gente que acredita piamente que não existia cinema antes da Marvel.

Capitão América: Soldado Invernal, Dr. Estranho, Thor: Ragnarok e o Guardiões da Galáxia vol. 1 foram algumas das vezes que ouvi esse papo de “Melhor filme da Marvel” ou “o mais maduro” ou “o mais interessante”. A verdade é que entrei na sala de cinema sem me deixar contagiar pelos elogios rasgados. Em duas horas, já estava convencido que as críticas publicadas tinham razão. Pantera Negra é mesmo diferente.

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É diferente porque combina ingredientes essenciais para tornar uma obra inesquecível: trilha sonora inspirada (Kendrick Lamar dá um pouco do seu mojo especial para criar uma atmosfera especial), atuações de qualidade num elenco competente, vilão que faz a diferença ao invés de parecer mais um bundão do momento, personagens femininas independentes e com importância significativa para a narrativa, cenas de ação bem filmadas e, acima de tudo, uma inédita mensagem séria no universo Marvel.

Michael B. Jordan é um dos meus atores favoritos dessa nova geração e seu Erik Killmonger é provavelmente o maior vilão da Marvel em muitos anos. Michael Keaton fez um excelente Abutre no recente Homem-Aranha: De Volta ao Lar, mas foi uma exceção. As produções da Marvel andam sofrendo com antagonistas medíocres, mas Killmonger é uma verdadeira força da natureza. Uma consequência das ações irresponsáveis daqueles que deveriam zelar por fazer o bem – e Jordan incorpora isso com uma grande intensidade.

Do outro lado, Chadwick Boseman causa uma certa estranheza com o tom do seu personagem. Após a sua introdução em Capitão América: Guerra Civil, pareceu fora de tom ver o personagem deixando de lado seu jeitão sério e calado para parecer um bobão inexperiente diante a ação firme de Nakia (Lupita Nyong’o) e força de Okoye (Danai Gurira, a Michonne de The Walking Dead). Minutos depois, felizmente, entendemos melhor o tom da produção e o choque inicial deixa de incomodar.

Tenho apenas uma observação que empobrece a força do seu protagonista. Heróis funcionam com o público por serem representações perfeitas das nossas próprias imperfeições. T’Challa é a encarnação do politicamente correto em níveis extremos. Ele não tem defeitos, não demonstra fraqueza, está sempre sereno.

Me perguntei se ele não estava tentando atingir o nível de Buda do Universo Marvel. Se existe uma falha no roteiro, está aqui, mas a verdade é que Boseman está tão bem no papel, que consegue tornar esse detalhe quase irrelevante. Quase.

Veredicto: Pantera Negra é bom?

O cinema produzido pela Marvel é um marco da nossa época e isso ficará sempre registrado na história do cinema para as próximas gerações – se é que existirão próximas gerações. No entanto, suas aventuras são, em sua maioria, rasas e desprovidas de DNA de um bom diretor de cinema. Fruto dos interesses financeiros dos estúdios, o Universo da Marvel é um grande seriado em que é difícil saber quem dirigiu X ou Y.

Pantera Negra transcende esse universo limitado com uma mensagem política e social certeira, sem ignorar a ação. Mais que apenas mais uma aventura de super-herói, Coogler fez uma obra que será lembrada como o produto pop mais agudo contra racismo e machismo da nossa geração.

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