Sucker Punch - Mundo Surreal | Cinema de Buteco
Críticas de filmes de ação Fantasia

Sucker Punch – Mundo Surreal

por João

(Sucker Punch) De Zack Snyder. Com:Emily Browning, Jena Malone, Jamie Chung, Abbie Cornish, Emily Browning, Carla Gugino, Vanessa Hudgens

Zack Snyder se propõe pela primeira vez a criar um mundo próprio com Sucker Punch seu mais recente filme, agora baseado em uma história de sua autoria. Mas este seu mundo, que em outras palavras trata-se de sua marca como diretor já existe desde que dirigiu 300, e seu sucessor Watchmen. Em todos estes trabalhos percebe-se que a violência estilizada (o que também nunca seria possível sem o caminho estilístico aberto por Robert Rodriguez em Sin City) é o foco principal, mas esta via de direção não se sustentaria sem uma boa história.

Neste caso o filme pende entre obra de entretenimento muitíssimo bem feita, e entre filme que prioriza a técnica, deixando de lado uma história convincente, quando as situações pelas quais passa a protagonista deixam de se justificar e se tornam apenas meio para que cenas de ação (bem executadas, volto a dizer) aconteçam.

A protagonista em questão é uma garota sem nome e sem voz, pelo menos na primeira sequência do filme que nos apresenta a ela. Só se sabe que acaba de perder a mãe devido a um plano traçado por seu padrasto que a acusa de matar sua irmã mais nova, mandando-a à uma clínica para tratamento mental. Vítima de um médico criminoso, que ganha dinheiro forjando diagnósticos, tudo o que lhe resta é esperar por uma não recomendada lobotomia. Sem ter onde se esconder ela se abriga em sua própria imaginação.

O hospital psiquiátrico se transforma em bordel, as internas tornam-se prostitutas que servem aos desejos gananciosos do cafetão (que no “mundo real” era o tal médico corrupto) e ela se torna Babydoll. É aqui que a história se torna o palco para as pirotecnias de Znyder. Às vezes muito bem vindas, mas às vezes excessivas.

Na primeira seqüência de luta, que seria uma segunda incursão ao mundo da imaginação da moça que se inicia quase automaticamente quando ela executa seus números de dança (comparações com A Origem e seus diversos níveis de realidade são inevitáveis), vemos uma cena, bem coreografada, filmada (com closes em detalhes da cena, câmera lenta) ao som do Army of Me da Bjork (a trilha sonora também merece créditos, assim como em Watchmen) onde Babydoll, luta contra gigantes samurais feitos de pedra. Aqui ainda existe uma tensão já que a personagem se vê insegura, pois ainda não se sabe capaz de derrotar qualquer desafio, e o espectador teme por sua vida.

Mas é depois desta sequência que o show de efeitos e de ação começa a ficar um pouco repetitivo: sabemos que Babydoll junto com seu exército de garotas que se unem por liberdade (depois de misteriosamente descobrirem uma enorme confiança na novata), sempre sairão sãs e salvas, não importando os inimigos que enfrentam (seja um exército de mortos-vivos, seja lutando contra uma mãe dragão enfurecida). Mas é justamente quando o filme parece ter se tornado um jogo de vídeo-game muito bem projetado, é que Zack Snyder nos lembra de que o destino de nossa heroína já está traçado, e que dele ela não se livraria. O espectador se surpreende, e mesmo que este seja um artifício mais que gasto (o da surpresa, o da reviravolta), aqui ele não deixa de ser eficiente. Os planos de Babydoll não se concretizariam, nem no domínio da imaginação, e ela não se livraria de seus algozes.

Ou se livraria? Babydoll parece ter plena consciência de que sua vida já estava de todo modo perdida. “Quem já está morta, não deve temer por sua vida”, nos diz uma das garotas em determinado momento, e o que parece ficar no fim do filme, é uma mensagem de que independente da situação (e talvez realmente na mais insólita delas), o ser humano encontra forças para encontrar liberdade, seu maior bem.

Zack Snyder entrega um filme irregular, mas que num balanço final é pelo menos diversão mais cerebral que a média, bem feita, esteticamente irrepreensível (exceto pelo design da mãe dragão, que ficou devendo), e que prova que o diretor sabe lidar com as ferramentas que tem, e sabe como transportar o espectador para mundos tão fantásticos quanto o criado pela imaginação de Babydoll. E assim como a garota que se sente vencedora em seus devaneios onde destrói monstros como heroína de desenho japonês (esqueci de citar o figurino à la cosplay – mas na medida certa!), nós também satisfazemos nosso desejo: o de catarse com entretenimento inteligente. Assistam.

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

Comentários

  1. Cansativo em alguns momentos (ou seria melhor dizer que existem momentos desnecessários?), mas extremamente provocante e com uma trilha sonora de chapar a cabeça de todo mundo.

  2. Gostei do texto. Praticamente tudo o que eu pensei sobre o filme. Fiquei embasbacada com as cenas de ação + trilha (Beatles, quase morri), mas achei que o roteiro renderia mais. Mais pro final, já tava de saco cheio das cenas de ação… Mas no fundo, gostei do filme. Mesmo achando que ele ficou devendo.