Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Cavalo de Guerra

STEVEN SPIELBERG É BOM? É uma pergunta que divide gregos e troianos. Açucarado? Sim, chega a ser um perigo para diabéticos. Americano demais? Também. Vendido? Mercenário? Megalomaníaco? Sim! Perdeu o tato? Já teve tato? Aí, meus caros, fica com vocês. Sem dúvida estamos falando de um homem que, na década passada, tinha no nome o mesmo peso que hoje tem a palavra “Scorsese“. Era o último biscoito do pacote em Hollywood. Atores e atrizes se matando para fazer os filmes dele. Ganhou o Oscar de Melhor Diretor duas vezes na mesma década, num intervalo de cinco anos.

Hoje em dia é assim? Não. Spielberg não é mais a potência que já foi, o que não faz dele menos importante. Aliás, ele pode fazer o quiser na indústria cinematográfica. Já chegou ao céu, onde cineastas passam a vida tentando chegar. E o céu é sem limites para este homem: tem dinheiro, poder, fama e prestígio para inventar e fazer acontecer o que bem entender. Dos que vi de sua filmografia, gostei muito de Prenda-me Se For Capaz, Minority Report – A Nova Lei, A.I. Inteligência Artificial, O Resgate do Soldado Ryan, Os Caçadores da Arca Perdida, A Lista de Schindler… São filmes realmente bons. Não há como negar, ele domina as técnicas de filmagem como ninguém e se um filme dele não tem a história boa, da técnica a gente nunca pode reclamar.

Pois bem, eis que surge no fim do ano passado Cavalo de Guerra – história de amor entre um cavalo e seu jovem dono, separados pela pobreza, pela guerra e pelo acaso. Baseado no livro de Michael Morpurgo, o filme tem um elenco es-te-lar, digníssimo: Peter Mullan (Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 1), Emily Watson (Sinédoque, NY), David Thewlis (Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 2), Benedict Cumberbatch (O Espião Que Sabia Demais), David Kross (O Leitor), Eddie Marsan (Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras), Tom Hiddleston (Thor) e o novato protagonista Jeremy Irvine. Todos atuam muito bem, exercem seus papeis com louvor e eu conheci ainda Niels Arestrup (O Profeta), ator francês que rouba a cena.

A fotografia é linda, lembra muito …E O Vento Levou e os filmes de um dos diretores preferidos de Spielberg, o grande John Ford; a trilha sonora de John Williams é maravilhosa, obviamente. Gloriosa e épica, do jeito que a história pede (ou que o diretor gosta?). Direção de arte impecável, com atenção a tantos detalhes! Os casebres, os campos, os moinhos, acampamentos de guerra, trincheiras… Tudo bem feito. Por isso tudo, o filme foi indicado a seis Oscars, todos técnicos – Melhor Trilha Original, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som – com exceção ao de Melhor Filme. Todos os outros são muito merecidos, são mesmo. Mas melhor filme do ano? Será?

Não, na minha opinião. Uma pessoa me falou uma coisa, numa conversa de Buteco, que ficou na minha cabeça: “Eu amei aquele filme, cheguei a chorar. Você não se sentiu emocionada com Cavalo de Guerra? Não se sentiu tocada?“. E querem saber? Não. Não! Quer dizer, não muito. Cavalo de Guerra é a-çu-ca-ra-dís-si-mo, sentimentalista até demais. Claro, em certos momentos, me senti tocada pela história das pessoas que vivem na guerra, principalmente o momento do avô com sua neta me comoveu. Mas, num balanço geral, achei absurdo e piegas demais. É uma epopéia equina que, por algum motivo, me soou meio ridícula. Não me levem a mal, sou a rainha das coisas absurdas – amo filmes, de O Senhor dos Aneis a Dr. Fantástico – e esse quê de novela mexicana nunca cola comigo.

Outra coisa que me irrita bastante é antropofagia em filmes dramáticos. Uma coisa é um filme de animação, como os vários da Disney e da Pixar, e Babe, O Porquinho Atrapalhado, que é uma caricatura… Mas um cavalo que tem sentimentos humanos por humanos e sentimentos humanos por outros cavalos? Cavalos são cavalos, têm peculiaridades assim como todos os animais, humanos incluídos. Por que, então, retratá-los como gente? Eu sei que é licença poética, mas novamente não colou. Talvez se ele falasse eu acreditaria mais.

Vai ter gente que vai precisar de um lencinho, claro. Os mais sentimentais devem se identificar com a história mais do que eu me identifiquei. Para quem não é, vale a pena assistir pelo simples amor ao cinema – para prestigiar os detalhes. Do jeito que bem gosta, Spielberg fez esse doce mais doce que doce de batata-doce… tanto, que chega a amargar.

Título original: War Horse
Direção: Steven Spielberg
Produção: Revel Guest
Kathleen Kennedy
Frank Marshall
Tracey Seaward
Adam Somner
Steven Spielberg
Roteiro: Lee Hall
Richard Curtis
Elenco: Jeremy Irvine
Peter Mullan
Emily Watson
Niels Arestrup
David Thewlis
Tom Hiddleston
Benedict Cumberbatch
Celine Buckens
David Kross
Eddie Marsan
Lançamento: 06.Jan.2012
Nota: 

Comentários