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Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

Sexta-feira, 19 de novembro de 2010, milhões de pessoas se dirigirão ao cinema para assistir à primeira parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte. O Cinema de Buteco teve o prazer de assistir à cabine de imprensa em Belo Horizonte na última quarta-feira.Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 é um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos. E realmente é o começo do fim de uma história que marcou uma geração. Muitos de vocês cresceram lendo e/ou assistindo as aventuras do menino Potter, e agora é dado o momento de conhecer o fim.

Acredito que todos já saibam qual a sinopse do filme, mas caso você tenha vivido os últimos meses sem nenhum contato com o mundo da magia segue um resumo:

A primeira parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte inicia-se imediatamente após os eventos relacionados à morte de Dumbledore e a ascensão de Voldemort no final do sexto filme, Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Relíquias da Morte mostra Harry, Hermione e Rony deixando a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts para procurar e destruir as Horcruxes remanescentes: pedaços da alma de Voldemort que foram escondidos dentro de objetos quaisquer em um esforço do bruxo por tornar-se imortal. Com Voldemort subjugando Hogwarts e reacendendo seu reino de terror no mundo bruxo, Harry e seus amigos tornam-se essencialmente fugitivos, desesperadamente tentando escapar da captura dos agentes de Voldemort. Eventualmente Harry toma conhecimento da existência das Relíquias da Morte do título, uma tríade de objetos mágicos extremamente poderosos que, acredita Harry, irá ajudá-lo a balancear o poder a seu favor, e eventualmente derrotar Voldemort de uma vez por todas. (Fonte Movie Music UK/ by Jonathan Broxton)

O filme se inicia com a tradicional abertura da série, com o tema “Hedwig’s Theme” ao mostrar o logo da Warner, porém logo entramos em uma atmosfera pesada, cheia de medo e tensão. Sentimentos que são muito bem trabalhados durante toda a película, que se mostra muito mais adulta neste fechamento.

David Yates, cujo trabalho à frente da franquia sempre me deixou com receios, realiza um ótimo trabalho. Se em A Ordem da Fênix ele reduz o maior livro da série em uma das menores sequências (deixando de fora conceitos essenciais para a história), e em O Enigma do Príncipe a história se sustenta em um eixo totalmente diferente do livro (o que o torna, em termos cinematográficos, um dos melhores da série), nas Relíquias da Morte, ele parece querer se redimir de todos os seus “possíveis erros” ao filmar uma história muito mais fiel ao livro. Algo que com certeza agradará aos fãs da série.

A primeira parte de As Relíquias da Morte se mostra em vários momentos em um ritmo lento, em que absolutamente nada acontece. E ficamos à mercê de acompanhar a fuga e a solidão do trio principal. Defeito herdado do livro, onde talvez, os primeiros 60% da história acontecem em banho-maria. Tal problema pode ser considerado resolvido pela acertada decisão do estúdio em dividir o filme em duas partes, pois David pode aproveitar um roteiro mais cuidadoso e mais fiel ao livro que facilita na explicação de vários elementos que aparecem na história, tirando-nos a sensação de que as coisas acontecem simplesmente sem o mínimo de explicação.

Não é um filme com muitas sequências de ação (a maior parte delas é guardada para a segunda parte) e sim um filme mais psicológico, onde temas como solidão, fuga e medo são mais explorados. David consegue tirar dos atores belíssimas atuações. Principalmente em relação ao trio principal, que parece ter ser esforçado mais do que nunca em interpretar os seus papéis. É impossível não sentir as dores e emoções do personagens.

Podemos ver Daniel Radcliffe muito mais solto e desenvolto no papel principal, tendo que mostrar diversos sentimentos durante a história e explorando variadas formas de atuar (como na cena da transformação dos sete Potters). Emma Watson mostra todo o seu amadurecimento como atriz no papel de Hermione Granger (podemos sentir com ela a tristeza na cena inicial ao se despedir dos pais, e a segurança com que conduz o trio principal na caçada às horcruxes). Rupert Grint, que, na minha opinião, sempre foi o melhor do trio principal, não fica atrás (é angustiante vê-lo apos a fuga do Ministério da Magia).

O elenco adulto, apesar da pouca participação, mostra o acerto na escolha de cada um. Helena Bonham Carter (Alice no País das Maravilhas) está adorosamente odiosa no papel da comensal da morte Belatriz Lestrange, espero ansiosamente para vê-la na parte 2 (a cena onde ela tortura Hermione é muito boa, dá para ver o prazer que ela sente). Robbie Coltrane (007 – O mundo não é o bastante), no papel do guarda-caças Hagrid, nos brinda com uma ótima sequência de fuga numa motocicleta (duas vezes menor que o meio gigante) pelos céus da Inglaterra. Ralph Fiennes (A Lista de Schindler, O Leitor) retorna com muito mais espaço para o papel do ofídico vilão Lord Voldemort, com uma atuação desenvolta, se mostra mais à vontade no papel do cruel vilão (rezo para que, na segunda parte de Relíquias, as cenas de ação tenham sido escritas para a altura de sua atuação). Brendan Gleeson (Coração Valente) volta para uma rápida e má aproveitada aparição do auror Olho-Tonto Moody (mas mesmo que o roteiro não o tenha aproveitado, vale muito a pena ver este personagem em cena). Jason Isaacs (O Patriota) volta no papel do comensal da morte Lucius Malfoy, e possui um dos personagens mais interessantes do filme: humilhado por senhor após fracassos e uma temporada em Azkaban, podemos vê-lo em momentos de grande interpretação. Os fãs de Alan Rickman (Sweeney Todd), têm muito o que reclamar, pois seu personagem Snape pouco aparece (particulamente minha expectativa é para segunda parte). Julie Walters (Mamma Mia) e Mark Williams (101 Dálmatas) aparecem rapidamente (mas não menos marcantes) nos respectivos papéis de Sra. Weasley e Arthur Weasley.

Outros atores também estão satisfatoriamente de volta. Tom Felton, no papel de Draco Malfoy, volta nesta primeira parte, mas com uma participação bem mais limitada do que no último filme, onde seu personagem foi bem mais explorado. Bonnie Wright, a Gina Weasley, aparece tão rapidamente no filme, que sua cena não consegue contribuir muito para o filme (ou explorava mais, ou não colocasse). Já James e Oliver Phelps, que interpretam os gêmeos Fred e Jorge Weasley, novamente são os responsáveis por alguns do momentos mais engraçados da história.

Outros personagens aparecem rapidamente, como Rufus Scrimgeour (Ministro da Magia, sua atuação e imponência me fazem pensar por que ele não foi aproveitado no sexto filme); Mundungus Fletcher (exatamente como muitos fãs esperavam que ele seria!); Ninfadora Tonks e prof. Lupin (não foram nada explorados no filme); Gui Weasley (finalmente o conhecemos), lobo Greyback (só aparece), Neville Longbottom (por alguns segundos apenas), Dolores Umbridge (em ótima forma), Xeno Lovegood (não poderia esperar melhor pai para Luna) e alguns outros personagens que será mais interessante descobrir durante a película.

David Yates constrói uma história coesa. Não busca invenções mirabolantes para tornar a história mais interessante, de certa forma o roteiro reverencia a história original. Construindo cenas mais intensas, que fazem o telespectador sentir a tensão de cada uma delas. É de se elogiar a opção de usar câmera de mão para filmar a maior parte do filme, ditando sempre um ritmo de tensão e movimentos nervosos durante a peregrinação do trio principal. É importante ressaltar o uso de animação como solução para explicar a origem das Relíquias da Morte, talvez um dos mais belos trabalhos que eu ja tenha visto nos últimos tempos (pena que a legenda não ajudou).

Infelizmente muitas coisas não foram explicadas ou abordadas, mas nada que comprometa o entendimento da história apresentada até então. Já que o roteiro aparentemente busca preparar o terreno para responder apenas às questões levantadas durante os filmes, o que inevitavelmente possa deixar alguns fãs dos livros mais desapontados.Algumas cenas merecem uma atenção redobrada:

– A reunião de Voldemort e seus Comensais da Morte (chega a ser cruel ver Voldermort em ação)
– a transformação dos sete Potters e a posterior perseguição pelo céu
– fuga do casamento (é rapida, mas vale a pena)
– a troca de feitiços na lanchonete (parece um tiroteio!)
– invasão ao Ministério da Magia em busca de uma horcruxes (os atores escolhidos para interpretar o trio principal são perfeitos)
– briga entre Rony e Harry (podemos ver como esses garotos amadureceram)
– a visita a Godric’s Hollow (a cobra Nagini aparece de forma repugnante)
– a destruição de uma das Horcruxes (talvez tenha gente que não goste, mas é uma das melhores cenas!)
– a tortura na casa dos Malfoys (muita tensão, simples, direta e dura!)
– e a morte de um dos personagens mais queridos (tão emocionante quanto foi no livro! “Que lugar lindo é esse aqui. Como é bom estar rodeado de verdadeiros amigos…“)
– e a cena final (que é mais uma pausa do que propriamente o fim deste filme)

E dois fatores técnicos me conquistaram neste filme. O primeiro é a trilha sonora composta pelo francês Alexandre Desplat (O Despertar de uma Paixão, Desejo e Perigo e Lua Nova). Totalmente orquestrada, a música é envolvente e cheia de camadas. É uma trilha emocionante, que ajuda a compor o tom sombrio da história, se desenvolvendo com ela e completando-a nos momentos devidos, levando quem assiste a uma experiência mais profunda com os sentimentos da história. Apesar da trilha não apresentar nenhum tema que sairemos cantarolando quando saírmos do cinema, esse é com certeza um filme a que assistiria apenas para ouvir a trilha sonora.

O outro quesito técnico é a fotografia de Eduardo Serra (Diamante de Sangue), que nos premia com cenários naturais maravilhosos (muito explorados nesta sequência), ao mesmo tempo que não abandona a cor cinza que permeia toda historia. Aliás, este é um filme que é marcado por cores mais frias, como o cinza, o azul e o preto. Cores que arremetem os sentimentos de medos, dúvidas, fugas e conflitos em que os personagens estão inseridos neste arco da história.

As Relíquias da Morte- Parte 1 não é um filme que termina em si mesmo. Muitos podem achar que o filme termina sem nos dizer nada. Mas funciona como um prelúdio para o desfecho da guerra entre o bem e o mal, entre Harry e Voldemort, além de preparar (ou pelo menos tentar) as respostas para todas as dúvidas construídas durante a série.

Enfim, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 está entre os melhores filmes da série. Para os fãs é uma grande dificuldade falar de forma menos passional sobre a série. Indo além de toda a expectativa criada, As Relíquias da Morte se torna um filme extremamente interessante de se assistir, e é por muitos dos acertos desse filme é que dou 4 caipirinhas (aguardando ansiosamente pela parte 2).

*****
Nota do Buteco: Confesso que fui muito tentado a colocar vários spoilers nesta resenha, visto que, como fã, gostaria de contar o máximo de coisas a que tive o prazer de assistir, e tentar separar uma coisa da outra foi realmente difícil. Mas respeitando os direitos de quem não gosta de spoilers, refiz esta resenha 5 vezes, entre sono, conversas no MSN e um computador que travou no meio da escrita, procurando colocar o mínimo de spoilers possível. Por isso, caso o resultado da tentativa tenha sido desastrosa, os motivos já estão apresentados. [FC]

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