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Crítica: Debi e Lóide 2

Continuação surpreende pela qualidade e pelo humor politicamente incorreto, além das atuações de alto nível de Jim Carrey e Jeff Daniels.

Crítica Debi e Lóide 2

EM 1994, os irmãos Farrelly ganharam fama e respaldo em Hollywood com o imenso sucesso da comédia Debi e Lóide. Além de ser um dos cartões de visita do astro Jim Carrey, a produção é uma das principais obras do gênero lançadas nos últimos 20 anos. De lá pra cá muita coisa mudou. Enquanto os Farrelly continuaram fazendo seus filmes (sempre oscilando entre comédias muito boas – Passe Livre – ou medíocres – Os Três Patetas), Carrey entrou em declínio e deixou de ser um dos principais nomes da comédia norte-americana. Apenas Jeff Daniels manteve uma carreira regular, especialmente após estrelar a elogiada série The Newsroom. Com essas cartas na mesa, era apenas uma questão de tempo para que esse reencontro com o passado se tornasse realidade.

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Desde o anúncio oficial da produção, durante um primeiro de abril, muitos torceram o nariz. Questionavam a necessidade de uma continuação e duvidavam muito das chances do quarteto superar o original. Eram questões relevantes, afinal Debi e Lóide realmente é um dos filmes mais hilários de todos os tempos e uma sequência produzida apenas para arrecadar dinheiro e alavancar a carreira de Jim Carrey parecia um insulto. No entanto, Debi e Lóide 2 superou as expectativas e oferece momentos tão ou mais surreais quanto aquele encantador lançamento de 20 anos atrás.

Uma questão bem importante é que Debi e Lóide 2 funciona muito bem como um filme solo. Ou seja, não há a obrigação do espectador conhecer os personagens ou ter assistido ao longa original. É óbvio que aqueles que estiverem com tudo fresquinho na cabeça irão se divertir muito mais, inclusive com risadas garantidas antes mesmo das piadas acontecerem. A trama se passa 20 anos depois dos eventos insanos protagonizados pelos dois amigos. Desta vez, eles precisam encontrar a filha perdida de Harry (Daniels) para que ela possa doar um rim para o pai.

A abertura dialoga com os fãs e faz piada com a questão do timing perfeito de 20 anos para tomar uma decisão de ter uma continuação. Aliás, durante boa parte dos minutos iniciais da continuação existem pistas e “presentes” para os admiradores do filme original. Essa brincadeira, essa atenção especial do roteiro com o público é louvável. Os Farrelly conseguem fazer isso com a maior naturalidade do mundo sem se deixar cair numa situação cafona ou que prejudique a narrativa. Se tratando de uma comédia é muito delicado detalhar cenas ou os motivos que as tornam especiais, mas preciso compartilhar que rever o menino cego me fez rir sem parar durante muitos minutos, e isso foi apenas uma das surpresas reservadas para os fãs.

Crítica Debi e Lóide 2 - Menino cego

O roteiro investe em gags físicas acima das inúmeras sacadas preconceituosas absurdas. Se isso é bom ou ruim, depende do ponto de vista. Tanto Carrey quanto Daniels encenam sequências em que o humor físico é muito forte. Funciona e arranca boas gargalhadas, mesmo nos momentos mais violentos ou que envolva a morte de alguém. Aliás, especialmente nesses momentos. Os vinte anos que separam um filme do outro não foram o bastante para diminuir a falta de noção dos personagens, que parecem realmente ainda mais surreais do que já eram no passado.

No entanto, nem tudo são flores na sequência. A fórmula é bem parecida com a do original, o que dá a impressão de que tudo não passa de uma refilmagem disfarçada de homenagem. Temos um interesse amoroso, uma jornada para chegar em determinado destino, um vilão fingindo ser outra pessoa para andar de carro com os protagonistas, dentre outras semelhanças. Só que a qualidade das piadas, e a saudade desses personagens é tão forte que esses detalhes acabam deixando de importar. Como costumo dizer: se vou assistir a uma comédia, me preocupo mais em conseguir as minhas risadas do que com a qualidade impecável. Se eu quisesse ver uma obra perfeita do humor, procuraria Billy Wilder.Debi e Lóide é sobre a falta de noção, desrespeito e ausência de limites. Eles possuem liberdade para se repetirem, ainda mais se isso funcionar e render bons momentos, como é o caso aqui.

Falando na trilha sonora, além de pequenos momentos para relembrar as músicas que embalaram a aventura de Debi e Lóide em 1994, a música que toca em diversas cenas do filme é “Right Action“, do pessoal elegante do Franz Ferdinand. Divertida e animada na medida certa para se tornar a cereja sonora desse bolo preparado pelos Farrelly.

Debi e Lóide 2 é o melhor filme dos irmãos Farrelly em muitos anos, superando o divertido Passe Livre e se igualando a O Amor é Cego e Quem Vai Ficar Com Mary?. Uma coisa é certa: desta vez, eles realmente se esforçaram para quebrar todos os recordes do que é politicamente incorreto. Esse exagero soa como um alívio em tempos que as pessoas correm riscos de apanharem na rua por expor suas opiniões ou fazer piadas ofensivas entre grupos de amigos mais conservadores.

Poster Debi e Loide 2
Debi e Lóide 2 (Dumb and Dumber To, 2014, EUA) Dirigido por Peter e Bobby Farrelly. Escrito por Sean Anders, Mike Cerrone , Bobby Farrelly , Peter Farrelly , John Morris, Bennett Yellin. Com Jim Carrey, Jeff Daniels.

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