Esposa de Mentirinha

Antes do filme começar fica aquela dúvida sobre o que esperar dos próximos minutos. Geralmente as comédias estreladas por Adam Sandler são idiotas (e por isso mesmo tão amáveis) e costumam contar a presença raramente agradável/engraçada de Rob Schneider. Felizmente o longa Esposa de Mentirinha (título horroroso, por sinal) escapa um pouco dos últimos trabalhos de Sandler e o resultado é uma história de amor (quase) tão linda quanto em Como se Fosse a Primeira Vez.

Sandler vive um cirurgião plástico que usa uma aliança de casamento no dedo para seduzir as mulheres das redondezas. Todo o seu truque ia rendendo boas conquistas sexuais até que ele conhece e se apaixona por uma loiraça que parece ter acabado de entrar na vida adulta. O problema é que ela acaba acreditando que ele era casado mesmo e exige conhecer a esposa para descobrir se o casamento deles está mesmo ruim das pernas. Eis que Jennifer Aniston entra em cena para fingir ser a esposa cruel. O resultado é uma comédia recheada de confusões, desencontros e descobertas.

Na linha tênue entre o besteirol e o sem-graça, Esposa de Mentirinha rende boas risadas. Além de abusar do humor físico e non sense (como na sequência em que uma cabra recebe primeiros socorros de um personagem que fingia ser médico), a produção tem um roteiro esperto com sacadas bem divertidas com pequenas deixas nos diálogos (o momento em que as duas crianças se perguntam sobre o que seria o N`SYNC) e participações inspiradas de Nicole Kidman e do cantor Dave Matthews. Aliás, a atuação da dupla infantil é o ponto alto da comédia. O garoto Griffin Gluck é meio xarope, mas depois de um tempo é fácil se deixar levar pela ironia e o cinismo elevado do pirralho. Já a menina Bailee Madison rouba a cena com seu sotaque britânico altamente forçado. Jennifer Aniston surpreende com um corpo escultural (de fazer inveja na sua antagonista Brooklyn Decker), bem diferente daquele que a atriz mostrou em Separados Pelo Casamento. Talvez seja a primeira vez que Aniston tem uma boa oportunidade de mostrar seu talento com um bom roteiro nas mãos. Não é a toa que sua personagem flui naturalmente e nos diverte tanto que é impossível não relembrar os bons tempos de Rachel Green no seriado Friends.

Seria um pouco de injustiça dizer que Sandler é apenas ele mesmo mais uma vez. Mais uma mistura de Zohan com seu personagem galinha de Como se Fosse a Primeira Vez. Seria apenas um pouco injusto, pois no fim das contas é exatamente isso que assistimos em Esposa de Mentirinha. Mas a cada filme ele consegue transmitir a sensação que aquilo tudo é novo, como se o público nunca tivesse assistido seus trabalhos anteriores e percebido que ele está se repetindo da mesma forma que Johnny Depp faz atualmente. Pelo menos Sandler consegue ser ingênuo e carismático de uma forma irresistível.

Esposa de Mentirinha é um filme sobre o poder da mentira e suas consequências. Com certeza vai causar identificação na parcela de público que se sente praticamente na obrigação de mentir e se diverte com isso. Apesar desse lado “negativo”, o filme tem aquelas velhas histórias de amor onde tudo acontece do jeito que deveria ocorrer na vida real (e nunca acontece). O amor vira um sentimento mágico que transforma as pessoas e suas formas de levar a vida. Ao mesmo tempo em esse clichê depõe contra a produção, serve para mostrar que quando um filme possui um roteiro eficiente e com personagens apaixonantes, torna-se difícil resistir e apontar apenas para as falhas da história. Para todos aqueles que são fãs de Sandler e de comédias onde não precisamos pensar demais, Esposa de Mentirinha é diversão garantida.

3 Caipirinhas.

ps: o 2t não aconselha o uso de dentes em camisas (alheias ou não) durante o filme. pode render um momento bem “wtf?”, bem como o risco de um processo. cuidado.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.