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Queime Depois de Ler

(Burn After Reading). De Joel e Ethan Coen. Com George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand, Richard Jenkins, J.K. Simmons, John Malkovich, Tilda Swinton, David Rasche, Jeffrey DeMunn, Dermot Mulroney.

Queime Depois de Ler é um filme que começa do nada e termina em lugar nenhum. Parece ser esta a intenção dos irmãos Coen, não só neste, mas em toda a sua filmografia, pelo menos nos filmes que vi – Fargo, Gosto de Sangue, e no recente sucesso Onde os Fracos não tem vez: concentrar a história na sucessão de acontecimentos, a forma como eles se (des)encadeiam, e não em suas conseqüências. Isso pode ser visto com olhos mais “sombrios” (caso daqueles exemplos que citei) ou com olhos bem humorados, caso deste longa. E o humor non sense tende a acentuar essa característica dos diretores, o que faz com que o filme funcione de uma forma bem satisfatória. É sim uma comédia, apesar de nunca chegar a apresentar momentos de grande humor (exceto na cena do aparelho construído pelo personagem de Clooney, dada a sua bizarrice), mas uma comédia de erros. A forma como aqueles personagens agem de forma completamente inconseqüente, levados sempre por motivações tão irrelevantes, é o que dá o tom engraçado ao filme.


A história é mais ou menos assim: um ex-agente da CIA, Ozzie Cox (Malkovich), após ser despedido decide se dedicar a carreira de escritor, e quer publicar suas memórias. Sua mulher Katie Cox (Tilda Swinton), o ridiculariza, e pretende se divorciar, para viver com seu amante Harry Pfarrer (Clooney), que por sua vez além de um casamento fracassado, mantém encontros furtivos com mulheres que conhece na internet. Uma dessas mulheres é Linda Litzke (McDormand), que embora trabalhe numa academia, sente-se extremamente mal com seu corpo, e pretende fazer algumas cirurgias plásticas para reformular sua aparência. Finalmente temos seu companheiro de trabalho Chad Feldheimer (Brad Pitt, o melhor do filme), um afetado e sem noção personal trainer, que entre uma coreografia cafona e outra, age sem usar nem 30% de seu cérebro…

Colocados estes personagens, e um CD que contém segredos da inteligência americana, e é claro, uma enorme incapacidade para lidar com os acontecimentos que cada um desses personagens tem, está instaurado o caos e a falta de lógica. Como adultos podem se comportar de forma tão imbecil? E como podem parecer não ter nenhum tipo de raciocínio frente às situações? Essa é a dúvida que perpassa todo o filme, dúvida essa que compartilhamos com o personagem de J.K. Simmons, o “chefão” da CIA, que ao final não sabe por que perdeu seu precioso tempo com aquele caso, já que os próprios envolvidos trataram de resolvê-lo (de uma forma nada convencional, diga-se de passagem). A razão simplesmente não existe! Assim com também não se sabe por que Jerry Lundegaard prefere conseguir o dinheiro que precisa daquela forma em
Fargo, e também pela falta de maiores motivos para matar do assassino Anton Chigurh em Onde os Fracos… Mas é por isso mesmo que Queime Depois de Ler é um ótimo filme.

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Ah! Só uma coisa: o filme que Linda assiste com seus pretendentes, o Coming Up Daisy, é também uma adaptação de um livro de Cormac MacCarthy, o mesmo autor do livro que inspirou Onde os Fracos não tem Vez

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