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A Troca ou Um Filme pra Falar de Mãe

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MINHA MÃE SEMPRE ME CONTA A HISTÓRIA DO DIA EM QUE CONFIRMOU A SUA PRIMEIRA GRAVIDEZ: ao sair do consultório ela dava gritos de felicidade enquanto meu pai a carregava nos braços. Iniciava-se ali um processo que vai muito além do biológico: dentro de mom’s não só uma nova vida começava, mas também um novo sentimento, de proteção, cuidado, carinho, coisa instintiva e que passaria a partir de então a fazer parte da vida daquela figura – o amor de mãe.

Como ele começa, como se instala e fica, incondicional e naturalmente eu não me atrevo a dizer. Mas me atrevo a concordar que sentimento parecido só nossas queridas mães conseguem experimentar.Mãe é um assunto complicado por isso: é gente acima de tudo. Ou seja, ser humano, com suas limitações, individualidades, vontade e escolhas, mas a opção pela maternidade de certa forma faz com que todas tenham algo em comum. A forma como mãe se relaciona com seu filho é única, forte, às vezes desastrosa (sempre humana), mas elas não tem culpa. Estão sempre tentando fazer o melhor.ingrid bergman-horz
Gosto de falar sobre mãe. De pensar sobre a forma como esse relacionamento entre mãe e filho acontece. Freud explica? Também não sei, mas o cinema retrata com toda a sua diversidade. Em filmes como Sonata de Outono e A Excêntrica Família de Antônia por exemplo, vemos o lugar que estas mulheres ocupam enquanto mães em contraponto com suas individualidades. Podemos ver uma mãe que erra, fere e abandona mesmo que ame (embora não consiga abrir mão de si mesma), ou uma mãe que estende sua maternidade para muito além de seus filhos (o ser mãe aqui é quase um ato de generosidade, de doação).

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Em A Troca de Clint Eastwood, vemos em cena uma mãe que não consegue desistir de seu filho, mesmo que tudo a faça pensar no contrário. A força de Christine, vivida por Angelina Jolie, sua tamanha entrega que por anos tomou conta da sua vida. É notório a capacidade do diretor de sensibilizar e manipular as emoções do espectador como poucos no cinema atual. É de um jeito sempre calmo, sem muitos exageros, contido. Mas poderoso. Christine percebe que seu filho não está lá quando chega em casa do trabalho. Tempos depois uma criança é encontrada. Não é seu filho desaparecido. A polícia se nega a assumir o erro, e pensa ser mais fácil convencê-la de que o instinto materno está comprometido pelo trauma do desaparecimento do que resolver o problema.

Christine é uma personagem difícil. Pelo menos da forma como foi interpretada por Jolie, que a propósito está fantástica. Sozinha, trabalhadora, numa Los Angeles do fim dos anos 20: machista e corrupta. É fácil perder o controle. Fragilizada, ela não tem quem a defenda, e quando se dá conta está no meio de uma história que não lhe pertence. Christine não se importa com os erros da polícia. Ela só quer encontrar seu filho.
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É aos poucos que Christine se dá conta de que seu caso faz parte de um universo desconhecido e hostil. Mas como filho e dignidade roubadas, ela já não tem o que perder: irá até o fim. A trama de um garoto que iria ser deportado para o Canadá se desenrola e mistura o drama de Christine a de um assassino de crianças. Por mais que a coisa toda se resolva, é realmente comovente a forma como Christine resiste e mantém a esperança. O tempo passa, mas ela continua se movendo pelo menor indício de possibilidade de rever seu filho. E nãos e pode condená-la. Apesar dos conselhos de “continuar vivendo a vida”, só ela sabe que não é bem assim. Sua vontade de viver é substituída pela dor e pela vontade de achar seu filho. Inteligente a opção do figurino em retratar estas mudanças através das cores que ela veste.

O cinema de Clint quer contar histórias humanas e possíveis (A Troca é inclusive baseado numa história real), mas que funcionem sozinhas. Sem muitos truques, muitos recursos de câmera. Ele deixa os atores soltos para que a história surja. E como estamos falando de uma figura que notavelmente sabe o que faz, os resultados são na maioria das vezes sensacionais.O amor de mãe começa com a tal confirmação da maternidade. Mas não se sabe até onde ele vai, ou se vai. Ele fica. Mesmo com a dor de um filho que se foi, ou que está longe. Mãe nunca deixa de ser mãe.

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Para as futuras mães: escolham bem seus papais por que a coisa é bonita, mas não é fácil; para as presentes mamães: um bonito dia das mães, com presentinhos e almoço especial. Mãe merece. Se cuide um pouco também, vá ao salão, pro shopping, saia com suas amigas, namore um pouco, pense em você.

Para a minha mãe: espero que depois de 26 anos você não tenha se arrependido. Não muito. Não sou fácil, mas você também não é. E é por sermos tão parecidos que pode até ser chato às vezes, mas o mais legal é que é divertido.

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Título original: Changeling

Direção: Clint Eastwood

Produção: Clint Eastwood, Brian Grazer, Ron Howard

Roteiro: J. Michael Straczynski

Elenco:  Angelina Jolie, John Malkovich, Amy Ryan, Michael Kelly,Jeffrey Donovan, Riki Lindhome, Kelly Lynn Warren, Colm Feore,Jason Butler Harner, Geoffrey Pierson, Devon Gearhart, Sterling Wolfe, Devon Conti, Denis O’Hare, Dalton Stumbo

Lançamento: 2008

Nota: [quatro]

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