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Abutres


O CINEMA ARGENTINO TEM TRAZIDO ÓTIMAS SURPRESAS. Esta boa safra foi coroada em 2009 com o Oscar para O Segredo de Seus Olhos de Juan José Campanella, e com este Abutres (escolhido para representar o país na última edição da premiação) que retoma novamente um filme cuja temática trata de submundos que vão muito além da realidade social ou política de seus personagens (o que se poderia chamar de vício da maioria da produção brasileira). O submundo aqui é o humano, produto de um meio hostil que abriga indivíduos que mesmo em busca de certa dignidade, se vêem em situações limite nas quais eles mesmos se colocaram. Estão em busca de ajuda e no encontro com o outro a possibilidade de uma salvação se coloca. Mas a realidade nem sempre tem espaço para finais felizes.

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Sosa (Ricardo Darín, de O Segredo…) é um advogado que enquanto não recupera sua licença se ocupa em trabalhar no mercado de indenizações de vítimas de acidentes de trânsito. Ele espera à porta dos hospitais por casos em potencial. Pessoas que devido a fragilidade dos acontecimentos, abrem guarda para que Sosa lhes ajude: tornam-se então, clientes que terão boa parte do dinheiro que teriam direito de receber desviados para uma quadrilha especializada em lucrar com a tragédia alheia. É quando ele conhece Luján (Martina Gusman), paramédica que tenta se manter alerta à base de anestésicos. Uma improvável relação de amor, cuidado e afeto se inicia. Como que uma busca por um respiro na superfície destas duas realidades tão frustrantes.

Em suas primeiras aparições em cena, os protagonistas serão vistos em momentos que atestam suas constantes situações no mundo: ambos não tem a menor perspectiva de felicidade, vivem em busca de algo que lhes faça esquecer a falta de sentido em que se transformou suas vidas. O cuidado com que os personagens são pensados faz então com o que o espectador lhes compreenda, e com certa estranheza quando nos damos conta, nos identificamos com eles, queremos vê-los longe dali, salvos da realidade que eles mesmos criaram. Eles vivem rodeados por um uma atmosfera pesada, um caos que os sufoca sufocando-nos também.

Esta é a sensação de quem assiste à Abutres. O roteiro é extremamente inventivo quando revela situações gradualmente conduzindo emoções e sensibilidades, mesmo físicas, pois transita entre cenas carregadas de tristeza e morte e cenas onde há umas possibilidade real de um amor verdadeiro entre os personagens, algo que poderá salvá-los de si mesmos, mesmo com o risco que correm ao fatalmente se envolverem com uma máfia que revela-se mais perigosa do que se imaginava. A cena final fala por si só: toma o espectador de assalto num surpreendente desfecho que somente confirma que não estamos assistindo a um filme de romance. Recomendo.

Carancho, 2010

Direção: Pablo Trapero

Roteiro: Pablo Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre

Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón.

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