Amores Imaginários | Cinema de Buteco
Drama

Amores Imaginários

por João

donal Amores Imaginários


QUÉDIZÊ

donal Amores Imaginários


(Les Amours Imaginaire) DesXavier Dolan. Com: Xavier Dolan, Niels Schneider, Monia Chokri, Anne Dorval, Louis Garrel.


Amores Imaginários é um filme direto, que não pretende perder tempo com muitas justificativas, já que o que interessa aqui é o jogo no qual os personagens se envolvem quando conhecem um rapaz que passa a ser objeto não de obsessão exatamente, mas de devoção. Dedicam a ele um amor que julgam ser a única possibilidade de salvar-lhes a vida, de lhes tirar de uma solidão que escolheram estar, quando buscam viver apenas amores imaginários, ou histórias de amor imaginárias.

Xavier Dolan, a nova sensação cinéfila dos últimos tempos (selecionado para a mostra Un Certain Regard em Cannes, prêmio dado a cineastas revelação) compõe um quadro realista sobre estas relações vindas de uma necessidade que não diz respeito ao amor, mas sim a solidão, à carência, ao desejo de auto-afirmação. Quando Francis (Xavier Dolan) e Marie (Monia Chokri) vêem Nicolas (Niels Schneider) numa festa, é impossível não perceberem o magnetismo do rapaz, a forma como ele atrai todos os olhares e atenções. Como “quem desdenha quer comprar”, a príncípio ambos demonstram certo desinteresse (“ele não faz meu tipo!” os dois dizem) para logo em seguida comemorarem um encontro entre os três. Com o passar do tempo, os três amigos ficam cada vez mais inseparáveis, e na medida em que essa aproximação se acentua, aumenta também a dependência: Francis e Marie se vêem numa situação ridícula e frágil já que, todas as ações dos dois passam a ser pautadas por uma possível reação de Nicolas à elas. Cria-se uma espécie de competição velada pelo amor do rapaz.

Mas não se pode culpar alguém por não corresponder um amor, e o que Dolan quer dizer com Amores Imaginários é: quem é responsável por nossas desilusões amorosas? No caso do casal de amigos protagonistas do filme, toda a responsabilidade recai sobre eles, já que imaginam uma história pré-existente aos acontecimentos, à realidade: imaginam momentos, encontros românticos, reações da pessoa amada, criam expectativas, e principalmente, idealizam uma relação, um amor capaz, como já disse, de lhes tornar mais nobres, já que ser feliz no amor, é muitas vezes considerado um artigo raro em extinção, e quem possui este privilégio possui também uma preciosidade dada a poucos: a impossibilidade da solidão.

Existem pessoas que por mais descoladas, modernas, antenadas, cultas, vividas, não estão preparadas para a solidão. Qualquer um que não esteja bem resolvido consigo mesmo vai depositar a fórmula da sua felicidade no outro, e quando isto acontece a felicidade (mesmo que imaginária) torna-se o bem mais frágil que se pode ter, pois conta com a disponibilidade deste outro, com sua retribuição. E ser rejeitado dói, sempre. Mas a busca nunca termina nestes casos, e a cena final mostra isso (com uma participação rápida de Louis Garrel).

Quem for mais atencioso, verá que Dolan é ácido com a geração à qual pertence. Amores Imaginários é crítico justamente porque é realista, o que se vê nos falsos depoimentos que pontuam a história: os modelos de amor, e as formas de se relacionar estão cada vez menos tradicionais, mas isto não quero dizer que as pessoas menos tradicionais estão felizes com isto.

O filme é um espetáculo visual, de extremo bom gosto. Além de assinar a direção e o roteiro (e de atuar de forma sensacional), Dolan é o responsável pelo figurino e cenografia. Percebe-se este cuidado, para que o retrato pretendido seja ainda mais fiel. Dolan aqui tem um pouco de Wes Anderson e Almodóvar pelas pretensões estéticas muito bem sucedidas, de Tarantino pelo filtro pop que torna o filme ainda mais charmoso (a trilha sonora é fantástica e cool ao extremo, com versão de música do Kill Bill em italiano) e um toque de Wong Kar-Wai pela forma como fala do amor. E ainda por cima tem apenas 21 anos! O hype se justifica. Assistam.



João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

Comentários

  1. tudo bem vai… o filme é Hype, os cenários são mega bem feitos, o figurino é cool… Agora, cá entre nós, não é um clipe, é um filme!

    Kd o roteiro??????????

    Achei o roteiro palpérrimo, algo extremamente "Dawnso's Creek francês" aonde as pessoas só pensam, pensam, pensam, debatem, debatem, debatem… e no fim das contas nada nunca acontece.

    fora a incrível química que se estabelece entre Dolan e Monia Chokri (principalmente na cena da briga rsrs), o filme não tem mais nada para oferecer…

    Ñ passa de um amontoado de pessoas insatisfeitas projetando um tipo de relação que não existe, um tipo de conceito (do platonismo) que está super-ultrapassado.

    Me adiro vir do cinema francês um filme com um conceito desses, que ao invés de propor uma crítica ao assunto, estimula as pessoas à terem esse tipo de comportamento sonhador e idealizador… que de acordo com o mesmo… uma hora qum sabe…

    Sério… depois de toda a ladainha, eu esperava um fim no mínimo sensato como o de "500 days of Summer", mas não ocorreu… =/

  2. Cheio de clichés e de manias estilísticas e formais copiadas de Kar Wai, Tarantino, Ford e uns quantos mais. O J'ai tué ma mere é muito melhor.

  3. O objetivo do filme, ao meu ver, é justamente a idealização do amor, o ideal de amor, mostrar o quanto o amor depende apenas da pessoa que o sente e não do objeto ao qual o amor é direcionado. Sendo assim, o filme é bem sucedido.

    Eu Matei Minha Mãe é um filme exagerado. Esse é mais delicado. Os 2 são bons, mas eu prefiro esse…

    João, amei vc ter notado o Garrel no filme, quase tive um treco no cinema nessa hora! Hahahaha!

  4. "Ñ passa de um amontoado de pessoas insatisfeitas projetando um tipo de relação que não existe, um tipo de conceito (do platonismo) que está super-ultrapassado": acho que vc está justamente falando da história do filme, que portanto existe. e como todos os temas nascem iguais em valor num filme (né tt??) o que importa é como eles são abordados. e nisso dolan é impecável. só discordo quanto ao negócio do "tema do platonismo ultrapassado". ultrapassado tá, sempre foi, ou melhor, esse amor platônico que a gente acha que conhece nunca existiu. MAS, dolan fala de um tema legítimo que é justamente.. OS AMORES IMAGINÁRIOS! rs

    não perceber garrel seria um erro incorrigível da minha parte né ju!
    (se bem que prefiro dolan).

    e só pra constar é um filme canadense, embora seja falado em francês.

  5. Fabrício, eu não tô na ilegalidade não, hein?! Eu assisti no Festival do Rio! Hahahaha!
    Mas bem já tenho em casa tbm =x