Crítica: Scary Mother (2017)

O título do representante da Geórgia no Oscar 2018 pode causar uma certa confusão. A scary mother do filme não apresenta nada de assustador fisicamente como um monstro ou zumbi, mas seu lado artístico insiste em expor o que a mulher reprime.

Manana, uma mulher de meia-idade, esposa e mãe de 3 filhos, é uma representação daquela pessoa que muitos gostam de ter por perto, mas, ao mesmo tempo, não aceitam quando a pessoa manifesta vontade própria, afinal é cômodo ter uma mãe e esposa em casa pronta para atender às necessidades da família.

Mas, como deve vir a realização de alguém neste cenário? Ela deve se sentir realizada pelas conquistas do marido? Pelas conquistas dos filhos? Manana se mostra dedicada ao seu trabalho como escritora, o que é encarado com certa benevolência mascarada como apoio por seus familiares, que tentam esconder a saudade que sentem da antiga Manana, mas na verdade, sentem falta da comodidade de tê-la sempre disponível.

Assim, a mulher apresenta seu trabalho através de uma leitura que pode ser caracterizada por um vômito de palavras há muito tempo guardadas em seu interior. Em uma leitura em voz alta, a mulher não respeita pontuações e prefere colocar seu trabalho para fora em uma velocidade vocal espantosa. A família fica surpresa e assustada com as palavras de Manana, segundo alguns, uma verdadeira pornografia. Sendo assim, a mulher é intimada a abandonar seu trabalho. Ela tem a “liberdade” de escrever qualquer outra coisa, mas marido e filhos se sentem no direito de podar a mulher de todas as maneiras possíveis, em uma demonstração clara do egoísmo existente até mesmo em familiares mais próximos e queridos.

A reação das pessoas próximas a Manana expõe o comportamento da sociedade que prefere que mulheres (principalmente aquelas que passaram dos 40) se dedique à família e ao “funcionamento” diário da casa. A permissão (encarada como apoio) que Manana recebe é uma maneira da família deixar apenas que a mulher se distraia. Ninguém a respeita como artista, exceto seu editor. O que a família quer, na verdade, é que a escrita seja apenas uma forma de Manana se distrair em seu tempo livre, e ignora seu lado excêntrico, parte da artista. A questão que fica é: e se fosse um homem tentando se descobrir como artista, a recepção de seu trabalho seria tão dura? Também podemos nos perguntar até que ponto é aceitável socialmente a viagem interna que uma pessoa pode fazer enquanto se revela como artista.

Testemunhamos a triste luta interna da mulher que tenta sufocar o grito da artista que está nascendo. É um exemplo muito comum de sacrifício. Quantas mulheres você conhece que deixam de aprender algo novo para que não afete a rotina de sua família?

Manana é interpretada por Nato Murvanidze com muita cumplicidade e paixão. Não é uma personagem fácil, mas a atriz consegue balancear os sentimentos da escritora. Destaque também para o ator Avtandil Makharadze, que interpreta o pai da personagem. Sua participação é pequena e incrível.

Scary Mother é o filme de estreia da cineasta georgiana Ana Urushadze. A jovem de 27 anos conduz belamente um filme que carrega o peso de muita imposições e sede de liberdade. É uma obra provocativa e que mostra o lado bem distante do glamour do processo de criação e de aceitação de um artista.

O filme será exibido na 41ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, nos seguintes horários:

19/10: Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, às 17h15;

21/10: PlayArte Splendor Paulista, às 14h;

24/10: Espaço Itaú de Cinema Augusta, às 17h;

27/10: Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, às 19h;

29/10: Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, às 17h10.

 

 

Graciela Paciência

Graciela Paciência nasceu e cresceu em São Paulo. Por muito tempo acreditou que seu futuro estivesse na direção de videoclipes, mas agora prefere gastar seu tempo livre no cinema, em frente à TV ou na companhia de um bom livro. Gosta de Stephen King, clássicos e cinema europeu. Suas metas de consumo estão (quase) sempre atrasadas, mas o importante é seguir em frente.