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Fatal

(Elegy) De Isabel Coixet. Com Penélope Cruz, Ben Kingsley, Dennis Hopper, Patricia Clarkson, Peter Sarsgaard, Deborah Harry.
“Eu creio que foi Bette Davis que disse ‘A velhice não é feita para covardes’. Mas Tolstoi disse: ‘A maior surpresa da vida de um homem, é a velhice’.”

É assim que somos apresentados aos pensamentos de David Kepesh (Ben Kingsley), um renomado crítico e professor de artes, que nos acompanha narrando e desvendando (de forma subjetiva, há que se dizer) os conflitos pelos quais está passando quando, de repente, descobre que a velhice não aquietou seus impulsos sexuais (o que lamenta). E mais: sua liberdade enquanto homem solteiro e independente pode ser abalada – e será – por uma jovem aluna chamada Consuela (Penélope Cruz), que terá uma passagem fatal pela vida desde experiente homem.

A palavra experiência aparece neste filme de Isabel Coixet (com sua abordagem sempre genial e sensivelmente triste da vida) como um dado não necessariamente seguro, ou melhor dizendo, que não garante vantagens para aqueles que viveram mais que os outros. A idade, ou a velhice, como dito no monólogo que abre as narrações do protagonista é vista aqui como uma conquista (com ela vem também uma sensação de sobriedade, de domínio sobre si mesmo), mas também é um momento surpreendente na vida de um homem, principalmente deste homem no qual se foca a narrativa de Fatal (baseado num livro de Philip Roth). David é surpreendido pela possibilidade de ter perdido o controle. De desejar alguém sem saber se esta mulher lhe devotará total dedicação e dependência. Ele se lamenta de não vê-la dizer com todas as palavras que o ama, e que ele é o único homem que a satisfaz sexualmente. Consuela se revela um mistério, que nem toda a experiência de vida de David conseguirá desvendar.

“Mulheres bonitas são invisíveis”, diz seu amigo confidente com quem compartilha a mesma vitalidade sexual, o espirituoso George (Dennis Hopper, numa aparição que inspira saudosismo). Esta “invisibilidade” está ligada justamente a esta beleza, que cega quem vê, e que fica extasiado com a imagem da mulher bela: assim não há como olhar para seu interior. A imagem desta mulher é perfeita, mas sua personalidade será para sempre fragmentada. Penélope Cruz consegue transmitir exatamente isto em cena: bela como sempre, mas misteriosa, deixando resquícios do que realmente sente através de pequenos gestos, reações. Até o espectador tem dúvidas sobre aquela mulher. Mas reparem na cena em que David, mesmo depois de resistir, aceita o convite para sua festa de formatura: um olhar, um gesto, demonstram tudo. Aquela mulher realmente o ama.

O contrário é o que se vê do personagem de Ben Kingsley. Personagens permeados por esta amargura silenciosa parecem ser a sua especialidade (ver Casa de Areia e Névoa, de 2003). David está sendo completamente desnudado por Consuela. Se vê (como qualquer pessoa apaixonada), com um medo estranhamente doentio de perdê-la. Não tem certeza de um futuro, infantilizado, ciumento, possessivo, reagindo de maneira tola às assertivas da mulher amada. Falha, comete erros, e imediatamente se dá conta disso. Mas não consegue agir de outro modo. Está perdido e sem aquilo a que sempre recorreu: sua autoconfiança, sua certeza de que satisfazia sexualmente suas amantes, o que garantia que elas voltassem. Mas não com Consuela.

Há também o caso antigo, o filho amargurado pelo pai distante, mas que ironicamente carrega o mesmo jugo (algo belissimamente ilustrado pela cena em que vemos na porta de seu consultório médico o sobrenome Kepesh). Mas antes de tudo Fatal é uma elegia (título original do filme), um triste poema que em tudo lembra a morte, o fim, a perda. É um filme que não deixa dúvidas de sua constante melancolia (fotografia e figurino parecem ter se esquecido que existem cores quentes), e de sua mensagem não só de que todos têm o mesmo destino, mas que ainda em vida passamos pelo mesmo caminho de tristezas e de desilusões. Como se a vida fosse um constante desvelamento de nós mesmos e dos nossos sonhos. Um processo de destruição dos pilares que construímos para manter de pé as fortalezas que nos protegem. Antes de ser um filme sobre uma história (triste) de amor, é um filme sobre a fragilidade humana. Recomendo.

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