Love is in the Air. Especial Junho Parte 5: O Segredo de Brokeback Mountain | Cinema de Buteco
Drama

Love is in the Air. Especial Junho Parte 5: O Segredo de Brokeback Mountain

por João

2787 Love is in the Air. Especial Junho Parte 5: O Segredo de Brokeback Mountain

(Brokeback Mountain) De Ang Lee. Com Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Randy Quaid, Michelle Williams, Linda Cardellini, Anna Faris, Randall Malone, Kate Mara, Scott Michael Campbell, Roberta Maxwell

Falar de O Segredo de Brokeback Mountain é sempre complicado, porque há a necessidade de manter a forma delicada sem se esquecer do peso exigido, assim como o fez Ang Lee quando dirigiu a história. Fico pensando se existe um cinema mais feminino ou mais masculino, e se isto está necessariamente ligado ao gênero de quem realiza o filme. Mulheres podem fazer um filme totalmente masculino (se for este o caso a vitória de Kathryn Bigelow não é necessariamente uma vitória do cinema feminino), assim como o contrário é totalmente possível. É sempre o caso de Ang Lee (salvo algumas exceções, que não por coincidência representam seus trabalhos mais medianos).

Neste filme, realizado em 2005 Ennis del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) são contratados para cuidar das ovelhas de Joe Aguirre (Randy Quaid) em Brokeback Mountain. Isolados em meio a uma paisagem que guarda algo de selvagem, eles acabam se envolvendo. Nasce em Brokeback Mountain um sentimento que os acompanhará por toda a vida, com o qual terão que conviver, compreender e até mesmo lutar. Jack e Ennis se descobrem apaixonados. Mas o final do verão chega e o período de trabalho acaba. A vida segue, mas aquela história os acompanhará durante toda a vida.

Não é só um detalhe o fato de que a história começa em 1963 e se passa num dos ambientes mais machistas que se tem conhecimento: the cowboy world. Mas Brokeback Mountain é muito mais que um filme sobre os “cowboys gays”, como comumente foi chamado na época. Um olhar mais atento vai rejeitar qualquer rótulo já que é um filme que fala com todos e para todos. Não é só sobre a história de amor de Jack e Ennis que nos fala o filme (algo que eu criticava por exemplo em Do Começo ao Fim), é a história de duas vidas que tentam sobreviver a uma solidão velada, porém sentida, e que encontra uma espécie de salvação no amor que sentem um pelo outro.

Ang Lee não tem pressa. É como se a história fosse dividida em duas partes. A primeira mais lenta, ritmo que o cotidiano vivido pelos dois na montanha exige. A personalidade de ambos é completamente diferente: Jack é mais expansivo falador. Vê em Ennis uma figura quase enigmática. Uma rocha que consegue penetrar aos poucos. “Você falou mais agora que neste tempo todo que estamos aqui”, diz Jack em certo momento do filme, ao que Ennis responde: “Eu falei mais agora que em minha vida toda”. O que nunca fica claro é a forma como a amizade se transforma. Cada um, a sua maneira, desenvolve uma atração e dá espaço para que ela tome seu lugar de maneira diferente. O público observa esse processo devagar, o que de certa forma é um exercício interessante de Lee, já que todos sabem onde aquilo vai dar (poderia fazer um post sobre a experiência de ver este filme no cinema do Shopping Cidade, mas é desnecessário). Conhecer motivações, personalidades e sentimentos parece ser mais interessante à Lee. Não é à toa que ele ganhou o Oscar de Melhor diretor naquele ano.

Jack vê Ennis com outros olhos desde o primeiro contato. Ele se preocupa em disfarçar isto, e tem êxito, pelo menos aos olhos de Ennis, já que a cuidadosa composição de Jake Gyllenhaal deixa escapar olhares e ações que denunciam intenções. Ennis já resiste em ver espaço para uma amizade inicial, que dirá para um envolvimento amoroso… Muito se explica na cena em que ele conta a Jack sobre um episódio que comprova o quanto a educação de seu pai, e a visão da sociedade eram rígidos neste sentido. Ele não poderia ceder. Mas “o amor é uma força da natureza”: incontrolável. E quando não se tem mais nada ao redor além do outro e desta força dominadora, não se tem também muita escolha. Enfim, eles passam uma noite juntos.

A segunda parte do filme se inicia logo quando eles se despedem, ao fim da temporada de trabalho em Brokeback Mountain. Um pacto subentendido entre os dois é selado: aquilo que acontecera torna-se um segredo, fica para trás. A vida de ambos tem de seguir. Qualquer pretensão que envolva o acontecido na montanha é inimaginável. O olhar pelo retrovisor, o choro (misto de sentimentos: há tristeza pela despedida, mas há também autopunição, já que o sentimento agora é inegável) são sinais de que um adeus ou um até logo não são sinais de um fim. Casamento, filhos, trabalho… Um respiro acima desse mar de opressão que a vida dos dois se tornou, parece ser o reencontro. Os sonhos dão lugar às obrigações, a vida conjugal é mentirosa. A ansiedade de ver o outro se confunde com a felicidade diante da possibilidade da fuga, mesmo que momentânea. Detalhe na cena do cartão postal: “You Bet”. Ennis fala pouco, mas fala com uma vontade enorme de ver Jack novamente – Heath Ledger está sensacional. Mas, até quando esta felicidade momentânea será suficiente?

Os conflitos surgem principalmente devido às personalidades, tão diferentes de ambos. A intenção é sempre a mesma: eles adorariam viver este amor plenamente. A diferença é que o idealismo de um, sempre se choca com o pragmatismo de outro. Diferente também é a forma como preservam este sentimento: Jack se envolve com outros homens, simplesmente para satisfazer suas necessidades sexuais; Ennis nega a possibilidade de algo parecido, e para ele, o fato de Jack pensar de outra forma quanto à isso é inadmissível. O amor se transforma com o tempo. Convive com certa acomodação e resignação. Mas não acaba.

O filme não seria o que é sem as poderosas interpretações do elenco. Além da dupla principal, Michelle Williams e Anne Hattaway estão fantásticas, e na medida certa. Não é um filme para excessos. É um filme de emoções contidas, e por isso mesmo poderosas.

A trágica realidade mostrada no final de O Segredo de Brokeback Mountain não o é só pela violência, mas pela grandeza de um amor épico e que merecia ser vivido. Ficam as lembranças, cheiros, e uma imagem que se contrapõe àquela que se vê na janela: todo aquele tempo passou, mas o sentimento de Jack e Ennis continuará sempre intocado, como quando saiu de Brokeback Mountain…

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

Comentários

  1. Esse filme é surpreendente em vários sentidos, da ótima trilha sonora, às atuações, o roteiro e a fotografia, há cenas em que parecem pinturas na tela, principalmente quando os dois estão na montanha!
    O final é um dos mais tristes em anos, mas condiz com a realidade da época e do ser humano!
    Ótima crítica!

    Abraço