Na Estrada


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Na estrada (On the road, 2012), adaptação para o cinema do inspirador livro de Jack Kerouac (1922-1969), um dos principais expoentes da geração beat e grande influência dos movimentos contraculturais da década de 1960, Walter Salles confirma, de forma sensível e hábil, a atualidade de uma obra escrita há mais de 50 anos.

Através do personagem Sal Paradise (interpretado por Sam Riley) – que, juntamente com seu amigo Dean Moriarty (baseado em Neal Cassady e incorporado por Garrett Hedlund) e outros companheiros de viagem, busca experienciar a vida com “total” liberdade, tentando romper limites até ironicamente reencontrá-los – a trajetória do próprio Kerouac é narrada pela câmera e montagem ágeis no beat do jazz e da benzedrina. A estruturação rítmica da narrativa, alternando cenas editadas na batida frenética e improvisada do jazz com momentos contemplativos (acompanhados da bela e melancólica trilha de Gustavo Santaolalla), traduz o estilo alucinante da escrita em prosa espontânea de Kerouac, semelhante ao fluxo do pensamento.

O interessante roteiro de Jose Rivera substitui algumas das informações fictícias criadas por Kerouac em seu romance por elementos biográficos do escritor, numa mistura que reflete para o espectador o processo de vivência e da criação a partir desta vivência. Dessa forma, enfatiza toda a concepção de On the road (de 1947 a 1951, lançado apenas em 57), a partir das experiências, anotações e reflexões do autor/personagem que são transmitidas para o rolo de papel em ritmo de bebop – o jazz inovador de Charlie Parker, um ícone para a geração beat – remetendo à velocidade de sua máquina de escrever e culminando com os créditos em fonte courier new sobre textura de papel, ao som da voz do próprio Kerouac pronunciando trecho de sua obra seminal sobre a perda da inocência.

Se Kerouac inspirou-se em Proust e seu primeiro volume de Em busca do tempo perdido, Swann’s way (1913) – livro que funciona como adereço dramático reiterado no decorrer do filme, com sua ideia de que todos somos potenciais artistas, se por arte entendemos transformar as experiências do cotidiano em algo revelador de maturidade e entendimento – Salles, por sua vez, inspira-se na obra e na vida de seu personagem, com sua cadência sincopada e vertiginosa, relidas por sua própria sensibilidade.

Na estrada chega a lembrar Diários de motocicleta (2004), road movie do cineasta brasileiro pela América Latina; desta vez, pelas paisagens dos Estados Unidos, Canadá e México. Como é comum no filme de estrada, a experiência da viagem afeta os personagens, metaforizando o fascínio por caminhos inexplorados. Representando a busca da própria identidade – outro tema recorrente na filmografia de Salles – os deslocamentos dos personagens nos guiam por uma viagem muito mais pessoal, ainda que também geográfica, sendo a paisagem um elemento fundamental de interferência na percepção dos acontecimentos, principalmente através da fotografia e tonalidade de cores dos diferentes lugares e culturas. Destaque para as sequências no México, em que a passagem do carro dos protagonistas acaba ofuscando a bela paisagem, com sua fumaça e poeira levantadas.

Outra proximidade com o road movie anterior de Salles encontra-se na maneira como o filme parece atualizar uma história de época – evidenciada mais pelos automóveis e costumes do pós-guerra, do que pela caracterização dos personagens principais que soam propositalmente contemporâneos, em oposição aos essenciais personagens secundários (em pontas brilhantes de grande elenco: Kirsten Dunst – uma platinada Camille que vai perdendo literalmente seu brilho –, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Amy Adams, Alice Braga e Terrence Howard).

Aliás, parece uma jogada interessante a escolha da “adolescente” do momento (Kristen Stewart) – que não chega a comprometer como a libidinosa e perdida Marylou, com sua contraditória ânsia por “normalidade” – para, talvez, atrair espectadores que curtam “crepúsculos e tais”… Assim, podem ter acesso a um filme com alguma profundidade e discussão bastante atual e necessária sobre o que fazer com a vida num mundo desencantado em que a liberdade, infelizmente ainda hoje, é cerceada pelo moralismo das normas sociais e pelo vil metal. “Não há ouro no final do arco-íris”.

Nota:  

Ana Lucia

Ana é cinéfila desde que se entende por gente e, de tanto estudar Cinema (Mestrado na EBA/UFMG e Doutorado na ECA/USP), acabou virando professora na Escola de Belas Artes da UFMG. Encontrou no Buteco um local fora da Academia pra discutir filmes com quem também ama a sétima arte. É roteirista (filme “Bandeira”, 2006, de Antonio Fialho), coordenadora do Cineclube UFMG e autora dos livros “O filme dentro do filme: a metalinguagem no cinema” (1999) e “Entretenimento inteligente: o cinema de Billy Wilder” (2004).