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Não morra antes de assistir: Fale com Ela

(Hable con Ella). De Pedro Almodóvar. Com Javier Cámara, Darío Grandinetti, Rosario Flores, Leonor Watling, Geraldine Chaplin, Paz Vega.

Fale com Ela é um filme que se revela aos poucos. Novamente o tema do amor está em questão (e também o da falta de comunicação e da obsessão, como é visto normalmente em textos sobre o filme), mas parece que o tema central é a forma como a vida une e separa, esvazia e preenche, e como mesmo contra nossas vontades temos que lidar com isso, o que só concluímos segundos antes dos créditos finais. É quando o filme nos deixa a sensação de que todos aqueles acontecimentos (fortes e extremos cada um à sua maneira) só serviram para que aqueles personagens ficassem juntos! É como se o andamento da vida fosse (e de fato é) totalmente independente das nossas vontades, passionais ou mais racionais, e que mesmo sem nos dar conta, nos adaptamos e aprendemos com isso.

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A história a princípio nos fala de dois casais – Benigno e Alícia, Marco e Lydia, que se conheceram e se envolveram em situações distintas. Enquanto a relação entre Benício (Javier Cámara) e Alícia (Leonor Watling) surge e se mantém devido a impulsos obsessivos dele, Marco (Dário Grandinetti) e Lydia (Rosário Flores) estão vindo de relacionamentos fracassados, dos quais ainda guardam dores. Benigno nutre uma admiração quase doentia (embora saudável para ambas as partes) por Alícia, e Lydia usa as touradas para realizar um ritual quase que suicida, já que o antigo amor nunca foi de fato superado.

Benigno e Marco se conhecem quando seus respectivos pares entram em coma: Alícia num acidente de carro, e Lydia quatro anos depois quando se acidenta numa de suas touradas.As duas passam a sofrer do mesmo mal: EVP ou Estado Vegetativo Permanente, onde não há idéias ou sentimentos, apenas as funções básicas do organismo. Enquanto Benigno insiste em comunicar-se com Alícia e a enche de cuidados e carinho, Marco já não consegue nem tocar em Lydia, já que não reconhece nela aquela mulher forte e independente de outrora. É quando Benigno lhe diz, em tom quase imperativo: “Fale com Ela! Conte a ela o que está sentindo!”, ao que Marco responde: “Mas isso não faz sentido, ela não sente nada!”. Talvez o momento do diálogo realmente tenha passado, e quando Marco descobre isso, é tarde demais.

O fato é que a história não é das mais convencionais, (ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original naquele ano), e a forma como as histórias se cruzam também não é. Chega a ser quase nonsense. Mesmo tratando de temas fortes (traição, um possível complexo de Édipo, estupro), Almodóvar com sua costumeira delicadeza ( já escrevi sobre ele aliás em Lei do Desejo e Volver) não perde tempo com julgamento de valores, mas prefere criar cenas belíssimas e chocantes, mesmo quando simples (a cena de Benigno limpando o corpo de Alícia, a tourada ao som de Por toda minha vida de Elis transformando aquele ritual numa declaração de amor e a cena clássica do filme mudo O Amante Minguante, importantíssimo para o desfecho da trama). Com direito a participações especiais (Caetano Veloso, Geraldine Chaplin e Paz Vega), Fale com Ela é um filme surpreendente, e que prende até o final.

Provavelmente nada do que eu tenha dito aqui serve de referência para o filme, mas assistam e tirem suas conclusões…

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