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Os Descendentes

Por mais deliciosa que seja uma “sessão pipoca”, o bom de chegar a época do Oscar é poder assistir a filmes hollywoodianos diferentes do padrão estritamente comercial, com um ritmo menos vertiginoso e caráter mais introspectivo. Época quando a maioria das produções deixam de ser destinadas apenas à garotada em férias e as histórias podem oferecer situações e personagens mais densas, próximas do mundo real. É o caso do candidato a cinco de algumas das principais estatuetas do Oscar (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Montagem e Ator), Os Descendentes, de Alexander Payne, que este ano, representa a parcela potencialmente rentável de filmes “independentes” que a Academia gosta de destacar, indicando à premiação.

Embora nada excepcional, com uma narrativa simples e sem grandes acontecimentos, cujo enredo é baseado no livro da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings, o filme cativa pela sensibilidade e despretensão. Histórias de pessoas que percebem estar apenas sobrevivendo ao invés de realmente viver são recorrentes no cinema, desde o fundamental clássico Se meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder, até Amor Sem Escalas, de Jason Reitman, passando pela filmografia do próprio Payne – vide Sideways ou As confissões de Schmidt. E, em Os Descendentes, o cineasta atinge uma abordagem melancólica e leve, graças à sua direção segura e sempre eficiente, num roteiro (co-escrito por ele, Nat Faxon e Jim Rash) que sabe adicionar pitadas de humor ao drama, sem recorrer a situações fáceis ou melodramáticas, além de um elenco afinado em que George Clooney realmente se supera – podendo mesmo vencer o Oscar por sua atuação contundente e, por que não dizer, comovente.

Ele interpreta Matt King, um advogado resignado que tem que dar conta de si e de suas filhas (uma menina e uma adolescente – a promissora Shailene Woodley), quando sua esposa entra em coma após um acidente, precisando entender em que ponto sua vida está e o que fazer daí por diante. Com a rasteira do destino que o obriga a sair da inércia, o filme adquire contornos de um road movie (assim como nas obras já citadas de Payne), em que a experiência da viagem é vital para a transcendência das personagens.

De forma simples e sutil, Payne sugere imagens significativas, como o primeiro plano que inicia o filme, com o rosto pleno de vida da mulher de King (que irá contrastar terrivelmente com sua face em coma no restante do filme); a adolescente que chora debaixo d’água, emergindo da piscina suja e descuidada que seu pai negligenciou; a corrida de King pela rua, afastando-se de sua dor – e passando por placas em que se lê “no outlet” e “stop”.

As belas imagens do Hawai – fora do clichê de guias turísticos ou filmes de surf – intensificam a ideia de que uma paisagem virgem vale mais do que qualquer empreendimento milionário. Uma paisagem carregada de alegorias pertinentes às questões propostas pelo filme, o que é ainda apontado pelos diálogos, como a relação família e arquipélago – várias ilhas que fazem parte de um conjunto complexo. Sem esquecer os momentos de silêncio (da ausência de palavras), muitas vezes acompanhado pela trilha musical com o dedilhar de guitarras havaianas, que ajudam a compor o clima melancólico que perpassa a narrativa, instigando à contemplação – algo pouco recorrente no cinema industrial contemporâneo – e deixando espaço para os sentimentos evocados no espectador.

Se Payne possui um tema recorrente em suas últimas obras, é o de se ter consciência da importância da vida enquanto se tem tempo de vivê-la e, em Os Descendentes, ele reitera esta premissa de forma singela – e, talvez, até um tanto lenta para o espectador acostumado a narrativas menos intimistas –, mas deixando um gosto de desencanto no ar. Sentimento de melancolia que remete a 14º Arrondissement, belo segmento que dirigiu para o projeto Paris, je t’aime!, de vários diretores), em que uma mulher solitária reflete: “Talvez fosse uma coisa que já havia esquecido… Posso dizer que senti, ao mesmo tempo, a alegria e a tristeza. Mas não uma tristeza imensa, porque me sentia viva. Sim, viva!”.

Título original: The Descendants
Direção: Alexander Payne
Produção: Jim Burke
Alexander Payne
Jim Taylor
Roteiro: Alexander Payne
Nat Faxon
Jim Rash
Elenco: George Clooney (Tudo Pelo Poder)
Shailene Woodley
Beau Bridges
Judy Greer
Matthew Lillard
Robert Forster
Lançamento: 27.Janeiro.2012
Nota: 

 

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