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Repulsa ao Sexo

O Cinema de Buteco avisa: o texto a seguir possui spoilers

O SEXO E A OBSESSÃO PODEM SER CONSIDERADOS ELEMENTOS CHAVE DO CINEMA DE ROMAN POLANSKI. Em Repulsa ao Sexo, de 1965, o cineasta polonês iniciou a sua trajetória internacional, rodando o primeiro longa-metragem da “trilogia do apartamento” na Inglaterra. Anos depois ele filmaria o terror O Bebê de Rosemary, de 1968, e O Inquilino, de 1976. É de conhecimento popular que a vida pessoal de Polanski nunca foi das mais comuns: a sua mãe morreu em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial; em 1969, sua esposa Sharon Tate (com quem contracenou em Dança dos Vampiros) foi assassinada pelo maníaco Charles Manson; e finalmente, em 1977, Polanski foi acusado de estuprar uma garota de 13 anos de idade. Tendo conhecimento de todos os fatos da vida do cineasta, fica ainda mais interessante a experiência de assistir pela primeira vez algumas de suas contribuições para a história do cinema, como é o caso de Repulsa ao Sexo.

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O filme conta a história de uma mulher reprimida sexualmente e que após ficar sozinha no apartamento durante uma viagem da irmã com o amante, começa a enlouquecer. Catherine Deneuve (Dançando no Escuro) interpreta Carole, uma bela e frígida mulher que lida da pior maneira possível com o seu inconsciente e dramas do passado. O trabalho da atriz é incrível, ganhando ainda mais força com o uso da trilha sonora em momentos importantes e que conduzem o filme para a sua inevitável conclusão.

Numa primeira avaliação (e após generosas doses de cachaça ou tequilas – estou de férias das caipirinhas) seria fácil afirmar que a personagem de Deneuve seria o par parfeito para Adam Sandler, em Embrigado de Amor, de Paul Thomas Anderson. Ao observar a personagem caminhando e a sua forma de lidar com as pessoas ao seu redor, você já pensa imediatamente: “Olha só! Aposto que o Cabeça de Ovo ficaria apaixonadinho por essa maluca”, mas não demora muito para você se arrepender de ter falado (ou escrito) isso em voz alta. Retraída, completamente desconfortável ao lado de alguém do sexo oposto, e com uma constante vontade de se fechar no seu próprio universo (aqui retratado como o conforto do seu apartamento), Carole logo mostra que não existe no cinema outro personagem capaz de “salvá-la” de sua loucura. Completamente mecânica, ela vive em um estado zumbi no trabalho e apenas ao lado de sua irmã ou de outras mulheres consegue sorrir.

A tensão criada pelo desespero de Carole, acentuada pela fotografia em P/B, deixa o espectador roendo as unhas diante a situação. Completamente dependente da irmã e completamente desligada da realidade, Carole se deixa levar pelos seus pesadelos, chegando a imaginar homens invadindo o apartamento para estuprá-la, mãos masculinas surgindo das paredes e qualquer outra coisa que funcione para aumentar o estado de sua loucura. Em uma das cenas, Carole tenta adormecer enquanto ouve a sua irmã transando com o amante, o qual ela odeia. Em outro momento, a personagem é beijada por um jovem. Logo ela corre para casa e escova os dentes até se sentir “limpa” do gosto da saliva do apaixonado Collin.

Carole fica tão maluca no meio de seus delírios que desaparece do trabalho e deixa as coisas começarem a apodrecer pela casa, como um pobre coelho que seria servido de jantar. O cobrador do aluguel (uma versão inglesa do Seu Barriga) faz uma visita e tenta transar com Carole, após se sentir seduzido pela condição frágil da garota e do seu vestido. É o único momento em que a esquizofrenia da personagem é justificada, dando a entender que aquilo poderia sim ter acontecido no seu passado.

O grande trunfo de Polanski e seu Repulsa ao Sexo é a maneira como o terror psicológico é desenvolvido de maneira incômoda e perturbadora, onde não se sabe ao certo até onde Carole é vítima de si mesma ou de outras pessoas. A esquizofrenia da personagem fica ainda mais interessante se observado alguns detalhes relevantes do roteiro: o fato dela trabalhar num salão de beleza e sempre estar próxima o suficiente de ouvir uma mulher reclamando de seu marido; a maneira como os homens a observavam na rua, o que a tornava um zumbi frígido e belo; e claro, o fato de Deneuve ser uma das mulheres mais bonitas do cinema. Repulsa ao Sexo tem o seu lado crítico dos padrões de beleza, mas o interessante é realmente observar a decadência de uma mulher enquanto ela se deixa vencer pelo medo de viver e superar seus dramas.

Nota:

 

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