Sinédoque Nova Iorque

por João

(Sinecdoche New York) De Charlie Kaufman. Com Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Sadie Goldstein, Tom Noonan, Michelle Williams, Hope Davis, Emily Watson, Dianne Wiest, Jennifer Jason Leigh.

Em Sinedóque NY somos apresentados à vida de Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), e ao atual estado de coisas em que ela se encontra. Surge uma proposital sensação de estranhamento, de incômodo no espectador: algo não está em seu lugar. Como se as ações se encadeassem sem muita coerência na vida daquele pai de família-diretor de teatro. Caden vive, mas é como se não estivesse lá. Caden está morto.

O texto de Charlie Kaufman (que agora é dirigido por ele mesmo) já é conhecido por sua inventividade e por tocar em assuntos complexos alternando profundidade e leveza. Percebe-se que muito dessa tal “leveza” se devia à contribuição da visão de outros diretores (Spike Lee para Quero Ser John Malkovich e Michel Gondry para Brilho Eterno de Uma Mente Ser Lembranças), já que em Sinédoque NY tudo é mais sombrio, mais triste. A história em si contribui para isso, e não deixa muito espaço para os delírios visuais que víamos naqueles filmes.

Quando Caden acorda numa manhã de 22 de outubro, tudo lhe lembra a morte, como se ele próprio estivesse antecipando a sua. Cada indício de finitude (sintomas físicos que denotam não apenas um homem hipocondríaco, mas que refletem seu estado de espírito) deflagra uma crise existencial na medida em que ele se depara com o fato de que sua situação no mundo é ínfima e passageira, se deparando também com sua (nossa) única certeza e realidade, contra a qual luta, sem obviamente conseguir alguma vitória: “Todos nós sabemos que vamos morrer. Cada um acredita secretamente que não”, diz um dos personagens em determinado momento do filme.

É quando Caden descobre que conseguiu verba de um prêmio dado a grandes realizadores para produzir uma peça. Ele tem um plano: reconstruir uma realidade que reconstruísse também sua visão de mundo. O espetáculo reflete certa megalomania de Caden, embora esta megalomania não se traduza em uma supervalorização do personagem, já que Caden nos é mostrado a todo momento como um fracassado na medida em que é demasiadamente humano, tendo deixado se levar por uma tendência exageradamente pessimista – e é interessante a cena em que vemos sua primeira esposa numa capa de revista, já que os dois viviam em iguais condições, ou pelo menos compartilhando da mesma realidade: ela uma artista plástica de sucesso, enquanto ele está num hospital decadente e só. Existiria então uma escolha sobre como lidar com esse niilismo?

Re-construir a realidade com a intenção de retê-la, de melhor compreendê-la buscando uma pretensa objetividade. É naquele imenso galpão de Caden busca aquilo que nunca conseguiu: criar seu mundo, manipular as relações, dirigi-las, compreendê-las. Uma segunda chance, mesmo que apenas fictícia. Paralelamente a isso, ele se vê incapaz de corrigir os rumos que sua própria vida tomou, e a busca por uma solução para isso soa fatalmente inútil. “A vida é feita das relações com o outro e das escolhas que fazemos”, é o que nos diz Kaufman através da trajetória de seu personagem. É assustadora a forma como desperdiçamos isso, como agimos de forma quase relapsa com nós mesmos. Como a vida passa. Agora Caden tem esperança de que vai criar um grande espetáculo, simplesmente porque este espetáculo é a própria vida, os mesmos acontecimentos vividos, agora reinterpretados por atores, dentro de um galpão. “O todo visto e vivido através da parte” – sinédoque é o nome que se dá a uma figura de linguagem que desempenha esta função.

Esta passagem gradual por níveis de realidade (a vida de Caden, a vida de Caden encenada, a vida daqueles que estão ao redor de Caden encenada junto com a vida de Caden) deixa o espectador completamente imerso neste universo criado por Kaufman. Não há desconforto ou confusão pelas escolhas do roteiro, mas sim por aquilo que é visto, já que carrega um pessimismo. Caden se vê através do ator que o interpreta (que só foi escolhido porque o seguia já durante vinte anos, conhecendo-o assim, como nenhum outro ator o faria).

O que Caden não sabia era que contar uma história sobre seu lugar/condição no mundo demandaria o mesmo com todos os outros. Não há figurantes na realidade, já que somos todos protagonistas de nossa própria história. Mesmo que ela dure milésimos de segundo dentro da eternidade. A despeito da solidão, ninguém vive sozinho. É um ciclo que nunca acabaria.

O fim é triste: não há esperança só resignação. Caden foi fracassado como pai, como marido, e como criador do espetáculo que por definição nunca chegaria ao fim, dada a idéia inicial que ele tivera. Existir não é fácil. Recriar a existência se mostra mais difícil ainda. Exceto para Kaufman, cujo retrato inevitavelmente se vê em Caden. O fato de que ele dirige o filme é quase metalingüístico. E no fim das contas assistir à Sinédoque NY se mostra uma experiência triste, pesada, mas bonita, justamente porque é sincera. Kaufman é mesmo genial. O filme é obrigatório. Assistam.

  • 2T

    Preciso ver esse filme. Urgente. Urgente.

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.