Triângulo Obsceno | Cinema de Buteco
Drama

Triângulo Obsceno

por João

dying-gaul-poster01 Triângulo Obsceno(The Dying Gaul). De Craig Lucas. Com: Patrícia Clarkson, Peter Sarsgaard, Campbell Scott, Bill Camp.

Robert Sandrich (Peter Sarsgaard) é um roteirista que até hoje não teve uma história aprovada por nenhum estúdio. Isso até escrever sobre seu romance com Malcolm (Bill Camp) que era seu agente, mas acabou morrendo tragicamente em decorrência de uma séria doença. Ao apresentá-la para Jeffrey Tishop (Campbell Scott), executivo de um estúdio, vê sua única oportunidade de se tornar um roteirista de sucesso embora com uma condição: que reescreva o roteiro, substituindo Malcolm por uma mulher. “A américa odeia gays!”, diz Jeffrey, que oferece um milhão de dólares para a adaptação do roteiro. Mesmo com um pouco de remorso, e receoso por mexer com fantasmas do passado, Robert passa a dedicar seu tempo reinventando a história enquando convive com Jeffrey e sua esposa, Elaine (Patricia Clarkson), exemplar dona de casa, que deixou sua carreira de roteirista para se dedicar à família.

O que acontece, como o próprio título sugere, é que todos os personagens se envolvem de uma forma, um pouco grotesca: enquanto Jeffrey se sente totalmente atraído por Robert (ele confessa ser bissexual), Elaine também nutre uma estranha obssessão pelo escritor, embora por outras motivações.

Novamente as aparências enganam (e quando elas dizem a verdade, não é mesmo?), e quem parece inofensivo em determinado momento se mostra totalmente cruel quando possui alguém nas mãos, capaz de manipular como ninguém os sentimentos do outro, e abrindo mão dos seus próprios, para ver determinada pessoa sofrer. Aquele que estava acostumado em sempre ter tudo sobre controle, deixa de agir com a tal “racionalidade” e é enganado por todos. E finalmente, aquele que se mostra durante todo o tempo como vítima, capaz de atos inimagináveis (e por alguns contestáveis) por amor, com sua nobreza de caráter apenas abalada por uma proposta irrecusável, não é capaz de abrir mão de sua própria vida (num suicídio altruísta talvez, mas quem é nobre o bastante para isso?), embora não pense duas vezes antes de destruir a vida de alguém só por um capricho, ou por vingança (ou pelos dois).

As atuações estão magníficas. Sobre Patrícia Clarkson, não há muito o que falar. Ela já mostrou sua competência em vários trabalhos. Mesmo mais madura continua linda, e está muito bem no papel de Elaine. A cena em que decide acabar com toda a farsa ao perceber que corre perigo de vida, e cobra o mínimo de sinceridade de seu marido é perfeita, e emocionante. Uma lição de como manter sua dignidade mesmo em momentos como aquele. A surpresa fica por conta de Peter Sarsgaard. Figurinha carimbada em filmes alternativos, na sua marioria como coadjuvante, ele segura muito bem o papel do perturbado escritor, criando trejeitos nunca exagerados, apenas coerentes com o personagem. Sua atuação ao lado de Campbell Scott na cena final é fantástica: todos são bons aparentemente, até que sua bondade seja colocada em xeque. E se for necessário, é só agir como se nada tivesse acontecido. Bom filme.

Obs: o título original, The Dying Gaul, refere-se a uma obra que aparece no filme, em uma fotografia, provalvemente tirada em um passeio do casal… (tks wikipedia!!)

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.