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Um Novo Despertar

O CINEMA DE BUTECO indica a leitura da crítica de Jairo Souza.
E também não indica a leitura do texto a seguir para aqueles que ainda não assistiram ao filme.


MEL GIBSON ESTÁ BEM LONGE DA IMAGEM DE GALÃ QUE CULTIVOU NOS ANOS 90. Após passar por um longo período na geladeira, sua amiga Jodie Foster lhe ofereceu uma excelente oportunidade de recuperar um pouco do prestígio perdido depois de crises de alcoolismo e declarações polêmicas para um público careta, hipócrita e conservador como o dos Estados Unidos.

Gibson mostra que mantém todo o seu talento e rouba a cena em Um Novo Despertar, drama comandado (e estrelado) por Foster. A produção é sensível, sincera e mostra todo o sofrimento de uma pessoa afundada na própria depressão e que não consegue se recuperar. Raras foram as vezes em que um filme foi capaz de retratar a decadência de um homem de uma maneira tão simples e real.

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Walter (Gibson) é um cara que está na pior. Ignorado na família e no trabalho, a sua situação começa a melhorar depois que ele começa a se comunicar com todos ao seu redor através de um castor de pelúcia. O Castor vira sua forma de manter sua sanidade com as pessoas e todos pensam que faz parte de uma nova terapia desenvolvida pelo psiquiatra do personagem. O problema é que as coisas começam a desmoronar lentamente e o Castor deixa de ser o auxílio que Walter precisava para se recuperar, para começar a dominar lentamente a sua consciência.

Um Novo Despertar, ou The Beaver, no original, oferece vários personagens interessantes, além da dupla Walter/Castor. Foster é uma mãe e uma esposa dedicada, que acredita que o marido poderá se recompor e voltar a ser uma pessoa equilibrada. Anton Yelchin interpreta Porter, filho mais velho de Walter, e que se odeia por todos os traços de sua personalidade que são iguais à do pai. Ele costuma ganhar dinheiro vendendo trabalhos escolares para os estudantes de sua escola, o que o leva a conhecer a personagem de Jennifer Lawrence, que embora seja uma excelente atriz, aqui é apenas uma sombra de suas atuações em outros filmes, como Inverno da Alma e X-Men: Primeira Classe.

Além da depressão de Walter e da fuga encontrada no Castor (que sempre entra em cena acompanhado de um belo tango), Foster investe bastante na relação conturbada entre pai e filho, cujo passatempo é bater a cabeça na parede e listar todas as características  semelhantes às do pai. Isso é nada mais que aquele velho medo que os filhos têm de se tornarem exatamente o reflexo daquilo que cresceram odiando e prometendo que nunca seriam.

Uma das cenas mais fortes do filme é a que marca a reconciliação de Porter com Walter. Ele chega em casa brigando e gritando, “Ei, Walter, você se lembra de mim? Do seu filho?”, e então toda a sua raiva desaparece no momento em que percebe que o pai precisa de ajuda. O filho de Walter ignora toda a sua raiva e a frustração com o relacionamento com o seu pai e é o momento de catarse completa de Um Novo Despertar, tudo isso acompanhado por uma música do Radiohead.

Indicado principalmente para aqueles que já apelaram para o mundo da fantasia para buscarem soluções para abandonarem suas próprias condições de depressivos, Um Novo Despertar também funciona para os fãs de boas histórias dramáticas sobre relações familiares. Com certeza não é um filme muito fácil ou daqueles que podem ser assistidos sem a devida concentração, mas certamente deixa uma lição poderosa de esperança para a resolução dos problemas da alma. Vale mencionar também o filme Melancolia, de Lars Von Trier, que é inspirado e movido justamente em cima do mesmo tema, mas que oferece uma resposta mais densa e digamos, definitiva para a depressão.


Título original:
 The Beaver
Direção: Jodie Foster
Roteiro: Kylle Killen
Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, Jennifer Lawrence
Nota:

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