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Weekend

A INTIMIDADE DESVELADA NO DECORRER DE FIM DE SEMANA, segundo filme de Andrew Haigh, é aquela que aparece através do confronto das diferenças. A dupla de protagonistas se descobre naquilo que encontram no outro, na medida em que este encontro faz aparecer suas fragilidades e a maneira como se escondem – cada um a sua maneira, por trás de suas solidões. Cada um se relaciona com sua sexualidade de maneira distinta: enquanto um prefere se esconder, o outro faz questão de se expor. Ambos têm coisas que preferem resguardar, mas o contato que dura como o título do filme evoca, apenas um final de semana, cria um jogo que se não os transformará, fará com que se deparem com novas possibilidades de se relacionar com o outro, por mais que suas demandas pessoais apontem para caminhos contrários, já confortáveis.

Escrito, dirigido e editado por Haigh, Fim de Semana é um exercício de personagens interessante na medida em que os confina em espaços diversos: seja um apartamento, ou uma encontro entre amigos, a todo o momento Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New) empreendem uma luta por reconhecimento e por afirmação. Conhecem-se em uma boate, dormem juntos na primeira noite, e tudo começa quando Glen, logo ao acordar, propõe à Russell que narre suas lembranças da última noite a um gravador. Tudo ficará guardado e será usado posteriormente em um trabalho de arte. A partir daquelas confissões, e das intenções de Glen ao registrar encontros com desconhecidos, o espectador percebe que algum laço inesperado acontece.

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Ambos estão suficientemente desiludidos, a ponto de se expor sem temer por julgamentos ou reações inesperadas. Não há o que temer na solidão. O processo que torna este encontro um encantamento recíproco aparece para o espectador nos pequenos detalhes. A cena em que Russel leva café para Glen traz uma sensação de surpresa: não sabemos quem está do outro lado do plano. Poderia ser qualquer um, ou só mais um. Mas não. Nas conversas corriqueiras, percebemos que ambos passam a se importar um com o outro. O aviso de que Glen se mudará para a América para fazer um curso de artes, faz com que aqueles encontros se tornem algo mais: diferente das outras vezes que fizeram sexo com desconhecidos, a possibilidade de não mais se ver traz uma sensação de urgência.

Haigh fala dos estereótipos (tanto hetero, quanto homossexuais) de maneira natural, e realista. O lugar que estes diferentes tipos de sexualidade ocupam é tratado de maneira crítica, sem com isso levantar bandeiras. O roteiro lida as situações que demarcam diferenças entre ser gay e ser hetero (que, como vemos, está além da prática sexual) com suavidade e naturalidade. O preconceito velado, o discurso que marginaliza nas entrelinhas. Há em Fim de Semana uma tomada de partido não maniqueísta. O reconhecimento de que, devido a um discurso já instituído a heteronormalidade permite que um rapaz fale da noite de sexo que teve com uma mulher, ou que um grupo de adolescentes exponha publicamente suas falas preconceituosas, mas inibe o homossexual de expor seus desejos/experiências da mesma forma, a não ser num contexto de guetização.

Transitando entre tomada de posição política e desenvolvimento dos personagens,  o filme mostra uma trajetória que mesmo sendo curta, é intensa, reveladora. Bebidas, drogas e sexo. Gozo e tristeza. Carinho e confronto. Uma relação real com várias dimensões. Sobretudo quando explora este tipo de relação, onde o sexo com desconhecidos permite esta dinâmica entre aquilo que se é, e a forma como quer ser visto. Uma tela em branco, como Glen diz em determinado momento, onde se pode projetar quem se quer ser. Não à toa, o mais romântico e sonhador (Russell) é um salva vidas, e o mais pragmático e despudorado (Glen) é um aspirante a artista. Para além dos limites que uma classificação “filme gay” pode colocar ambos estão perdidos, se auto sabotando por não saber para onde ir. A única certeza é a de que não querem ficar. A busca pela salvação e o mergulho no devaneio. A pequena janela do apartamento confortável que tem vista para um horizonte infinito. Dualidades que se apresentam com delicadeza e beleza em um filme que puxa o espectador para dentro da vida daqueles personagens (como demostra a bem concebida sequência numa plataforma de trem) quando queremos saber o que pensam e o que sentem.

Weekend O filme

Título original: Weekend

Direção: Andrew Haigh

Produção: Tristan Goligher

Roteiro: Andrew Haigh

Elenco:  Tom Cullen, Chris New, Jonahan Race, Jonathan Wright,Loretto Murray, Sarah Churm, Vauxhall Jermaine, Joe Doherty,Kieran Hardcastle, Mark Devenport, Julius Metson Scott, Martin Arrowsmith

Lançamento: 2011

Nota:  

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