Cinema por quem entende mais de mesa de bar

Weekend

RUSSELL (TOM CULLEN) É UM HOMEM JOVEM, bonito e inteligente, com um emprego estável e dono de um apartamento pequeno, mas aconchegante. Quando criança, passou por diversos lares adotivos, onde conheceu pessoas que viriam a se tornar amigos amorosos e atenciosos. Vez ou outra, frequenta casas noturnas em busca de companhias para suprir seus desejos sexuais, estabelecendo parcerias que podem durar uma ou algumas noites – nunca algo mais sério ou duradouro que isso. Entretanto, quando perguntado sobre a própria felicidade, o homem não consegue ir além de um “Estou bem”. A razão, como já sabemos àquela altura da projeção, é simples e melancólica: falta a Russell a liberdade de poder falar abertamente sobre amor e sexo ou trocar carícias com outra pessoa em público sem que o teor homossexual dessas ações o torne vítima de ódio e discriminação, nas mais diversas formas que esta pode assumir.

Escrito e dirigido por Andrew Haigh, Weekend tem início com a passagem rápida e esquiva do personagem de Tom Cullen por uma festa na casa do amigo Jamie (Jonathan Race), ocasião em que o rapaz jamais parece plenamente à vontade. Dali, Russell segue para uma boate voltada para o público gay e, após algumas bebidas e flertes contidos, acaba retornando ao seu apartamento na companhia de Glen (Chris New), com quem passa o restante da noite. Depois de superado o embaraço do despertar e do consequente retorno à sobriedade, Russell e Glen embarcam em uma troca de experiências que, em questão de horas, evolui para uma evidente afeição mútua – mas antes mesmo que surja a possibilidade da relação avançar para algo mais sério, entram em pauta as distintas relações que cada um possui com a própria sexualidade e uma viagem definitiva de Glen agendada para aquele final-de-semana.

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Remetendo naturalmente a Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, Weekend aposta no poder dos diálogos em detrimento da ação para desenvolver a relação entre seus personagens, através de planos longos que, em geral, mantém a câmera próxima aos atores e a profundidade de campo reduzida, captando bem as atuações intimistas do pequeno elenco. Sem conseguir fugir da previsibilidade imposta pela estrutura adotada, o roteiro de Haigh investiga com calma as personalidades complexas e distintas do casal principal, valendo-se ainda de suas discordâncias para incitar discussões pertinentes sobre os percalços vivenciados por homossexuais no dia-a-dia sem, contudo, tornar-se panfletário.

As transformações graduais sofridas por Russell e Glen (especialmente pelo primeiro), entretanto, são o que transformam o encontro dos dois homens em algo tão interessante. Como fica claro desde o princípio, Glen é sexualmente bem resolvido e parece disposto a enfrentar qualquer um que tente ameaçar sua liberdade, além de se revelar um homem sem amarras em busca do lugar ideal para estabelecer suas raízes. Assim, seu projeto artístico inacabado e o fato de dividir um apartamento com uma amiga só não são mais sintomáticos que sua decisão de abandonar tudo isso e partir para os EUA em busca de novas possibilidades – e essa volatilidade, juntamente com experiências traumáticas do passado, talvez explique sua aversão a relacionamentos. Por isso, a decisão do rapaz de contar ao parceiro sobre sua viagem logo no fim do primeiro encontro comprova tanto sua leitura correta daquela situação quanto a preocupação com a integridade emocional de Russell, revelando a afeição que Glen também alimenta e que acaba instabilizando sua noção sobre relacionamentos sérios (a inversão de papéis, quando Glen leva café para Russell na cama, é emblemática nesse sentido).

Russell, por outro lado, reserva sua orientação sexual apenas às pessoas de maior confiança e vive em um constante estado defensivo: quando ouve no metrô um grupo de pessoas julgando um conhecido por sua postura afeminada, por exemplo, o rapaz retira discretamente sua boina, temendo que aquele símbolo de vaidade (e peça de vestuário muitas vezes associada a homossexuais) possa ser usado como um pretexto para torná-lo o centro de uma conversa semelhante, algo que invariavelmente abalaria seu psicológico. Assim, quando notamos o apreço especial que Russell demonstra pelo – heterossexual e casado – melhor amigo (vivido com confiança e ternura por Jonathan Rice), podemos supor uma das razões que deram origem à introspecção emocional do protagonista, já que Jamie é uma companhia extremamente confortante como pessoa e amigo, mas inalcançável como amante.

Tom Cullen acerta ao adotar, tanto no dia-a-dia do personagem quanto na intimidade, postura e expressão neutras que vão pouco a pouco sendo amaciadas pelo parceiro, através da construção de um ambiente agradável e seguro que, para Russell, representa uma rara oportunidade de livrar-se de máscaras, receios ou pudores comuns em sua vida – afinal, enquanto não derrotar o próprio preconceito, seu maior inimigo continuará sendo ele mesmo. Desse modo, se no primeiro encontro o protagonista hesita em falar abertamente sobre seus interesses sexuais e renuncia atitudes que possam escancarar sua homossexualidade para os vizinhos, mais adiante não se intimida em trocar beijos com Glen diante da janela do apartamento ou em se entregar ao ato sexual sem as ressalvas de antes, já que aquelas decisões condizem com seus sentimentos e suas vontades genuínas daqueles momentos. Além disso, é curioso que os pouquíssimos atos de homofobia da narrativa ocorram sem grande alarde (fora de campo, em alguns casos), mas pareçam, de certa forma, virtualmente onipresentes, graças à já mencionada postura defensiva de Russell diante da sociedade.

Tentando abraçar o mundo em alguns momentos (as circunstâncias da discussão em um bar não ficam muito claras e o tema discutido recebe melhor tratamento em outras ocasiões), Weekend acerta em pelo menos um dos tópicos levantados: a rejeição que conversas acaloradas ou trabalhos artísticos enfrentam quando fogem do padrão heterossexual – como é o caso do próprio filme, que, bem como discuti em meu texto sobre Contracorrente, chegou ao Brasil em circuito limitado e sob um selo de distribuição exclusivo para filmes com temática gay, segregando involuntariamente o público. Fica claro, mais do que nunca, que ainda há um longo caminho a ser trilhado pela sociedade para que a busca pela felicidade plena do ser humano seja aceita, apreciada e respeitada sem o fantasma da rotulação.

Título original: Weekend
Direção: Andrew Haigh
Roteiro: Andrew Haigh
Elenco: Tom Cullen, Chris New, Jonathan Race, Laura Freeman, Loretto Murray
Lançamento: 8 de Junho de 2012
Nota:[quatro]

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