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2001: Uma Odisséia no Espaço

(2001: A Space Odyssey) De Stanley Kubrick. Com Gary Lockwood William Sylvester, Douglas Rain, Keir Dullea

2001 – Uma Odisséia no Espaço é certamente o filme mais grandioso de todos os tempos quando tenta através de imagens pensar na busca (mesmo que ficcional) de uma explicação para o lugar do homem no universo, e como a presença humana se inscreve na existência. Uma viagem às origens da nossa espécie até o que parece ser o infinito, desenvolvida em parceria com o escritor Arthur C. Clarke (que lançou um livro homônimo à época do lançamento do filme), retorna a um instinto básico do homem como meio de explicá-lo: a vontade de controle, de potência.

A racionalidade, capacidade que caracteriza o homem, que o coloca numa situação privilegiada com relação aos outros seres da terra, é aqui a capacidade de dar novos significados, de estabelecer novas relações. Como ela surge na raça humana o filme não tenta explicar cientificamente (nem tem essa obrigação), mas o motivo está diretamente ligado à aparição de um Monolito que em contato com os hominídeos a milhões de anos atrás, desencadeia um processo de reconhecimento de si no mundo e do mundo e suas potencialidades: o homem é agora capaz de controlar a natureza, utilizar seu entorno a seu favor – a presença do homem no mundo deixa de ser apenas instintiva e passa a ser também criativa. Tudo isto mostrado através da famosa cena, ao som de “Also Sprach Zaratustra” de Richard Wagner (referências a Nietzsche podem ser deduzidas a todo momento) em que a elipse nos desloca do momento em que os hominídeos descobrem a funcionalidade de um simples pedaço de osso (e também o poder que isso traria para eles) ao momento “presente” (visto que o filme teoricamente se passa no ano de 2001).

O salto não é só temporal: estamos em outro nível da capacidade criadora humana. A razão que domina a natureza e o outro já alçou vôos mais altos e a criação tecnológica e artística é evidenciada por Kubrick quando vemos as naves que orbitam ao redor da Terra, lentamente, ao som de Danúbio Azul de Strauss. Lentidão e delicadeza dão os tons de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, na verdade uma marca de Kubrick: alcançar a grandiosidade através do pequeno milimetricamente concebido. Os planos guardam em si a potência desta grandiosidade, que se revela aos poucos (a via contrária da maioria das ficções científicas que vemos hoje, onde a rapidez e a crescente falta de contemplação da imagem é que comunicam).

Aqui o desconhecido continua movendo o homem, e uma descoberta científica na Lua leva alguns especialistas a pesquisar o local: outro Monolito, ao que tudo indica “deliberadamente enterrado” (mesmo que um dos cientistas se ria desta possibilidade – o homem não considera a possibilidade de que não esteja sozinho). Aqui um déjà vu: a atitude do hominídeo que se assusta ao mesmo tempo em que se sente atraído por este objeto, é a mesma atitude do homem que conquistou a lua. O Monolito se impõe como um mistério que a comunidade científica se encarregará de resolver (ou pelo menos tentar), mesmo que este primeiro contato seja frustrado (a cena é de arrepiar).

É quando se passam dezoito meses que a parte da trama de 2001 mais conhecida se desenrola: a bordo da espaçonave Discovery está uma equipe de astronautas liderada por Dave Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood). Um computador comanda todas as mínimas funções da nave, HAL 9000: incapaz de errar, programado para “mimetizar a maioria das atividades cerebrais com muito mais velocidade e confiabilidade”. O projeto do homem de dominar a natureza, e criar mecanismos que aumentem sua potência sobre o real (na pré-história o osso servia para abater a tribo rival; agora o computador substitui as funções humanas) teria chegado ao seu apogeu, não fosse por um erro mínimo de HAL, que faz com que os astronautas considerem a possibilidade de desativá-lo. Mas nada passa despercebido aos olhos desta máquina (nunca uma simples luz vermelha foi ou será tão expressiva)…

Temendo que a missão seja colocada em risco caso seja desativado, HAL tem planos para eliminar cada um dos tripulantes. Graças ao fracasso de seu intento, Dave descobre que sua ida à Júpiter tem propósitos que até os tripulantes desconheciam. Há evidências claras de vida extraterrena, e a Discovery foi enviada ao planeta para verificar isso.

Se o Monolito é capaz de atrair o homem levando-o assim a um estágio superior de sua consciência, este novo contato se dará de uma forma incrivelmente sensorial: completamente de posse de todas as suas capacidades racionais, só resta ao homem conhecer sua origem e seu fim, contornar toda a origem do universo para entender a sua própria, contemplar a existência do universo para conter, de repente, a sua em um instante. Esta viagem colocará Dave num pára-espaço, numa temporalidade paralela, em que todos os conceitos de espaço-tempo conhecidos nada tem de valor. A medida do Universo é o próprio homem na medida em que se vê como um todo: princípio, meio e fim, eternamente. Afinal de contas, se o homem foi capaz de sair das cavernas e criar máquinas tão perfeitas como HAL 9000, qual o próximo passo evolutivo?

O fim. E o começo. Um Eterno Retorno.


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