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As Mais Belas Histórias de Amor do Cinema: 500 Dias com Ela

500-dias-com-ela-poster500 Dias com Ela (500 Days of Summer). De Marc Webb. Com Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel.

Desde o começo somos alertados de que não se trata de uma história de amor, mas sobre o amor. O amor acaba. É um sentimento poderoso, mas efêmero. Como tudo nessa vida não é mesmo? Filmes com essa temática não faltam, e a identificação com eles é sempre imediata. Quem nunca sofreu por amor? É um dado interessante pensar que, por mais que a gente tenha passado por isso, basta se apaixonar novamente pra que todas aquelas possibilidades que parecem utópicas demais quando acontece uma desilusão amorosa, reapareçam. É sempre essa esperança na felicidade, ou no se fazer bem com outra pessoa. Não nos acostumamos com a perda. É por isso que, quando ela bate à nossa porta dói.

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Imaginem: duas pessoas completamente diferentes, com histórias diferentes, se conhecem e passam a viver um romance. Quais as possibilidades de isso dar certo? Com certeza bem menores que as possibilidades de dar errado. É assim que somos apresentados a Tom (Joseph Gordon-Levitt) e Summer ( Zoey Deschanel) na bela introdução de 500 Dias com Ela (já postado aqui por Wonka). O encontro inesperado entre estas duas histórias vai gerar outra: a da relação de ambos, que com o andar da carruagem passa a carecer de certa denominação. Para Summer não há necessidade disso, já que ela diz não se sentir à vontade sendo qualquer coisa de alguém. Mentira. Isso é porque não estava realmente apaixonada. O encantamento é diferente da paixão de fato. Mas não deixa de ser um sentimento legítimo. Porque Summer se privaria de vivê-lo? As coisas em comum aparecem, o sexo já não é apenas sexo, e sim mais um momento em que a cumplicidade dos dois pode ser vivida (não posso deixar de citar a referência à A Primeira Noite de um Homem, filme que fez Tom acreditar em amor, ainda criança quando o assistira), e tudo parece caminhar para o que chamamos convencionalmente de “namoro”.

O que é namoro? Primeiro podemos falar em estabilidade de sentimentos. A fidelidade na verdade é um detalhe. Importante, mas um detalhe. Digamos que uma característica secundária. O outro passa a fazer parte da nossa vida: fazemos planos, dividimos expectativas. Mas pode mesmo acontecer da coisa desandar com o tempo. Não é culpa de ninguém. Simplesmente se olha pro outro lado da cama e aquilo passa a não fazer mais sentido. É a vida.

Algo parece ter se perdido. As piadinhas típicas do casal já não fazem tanta graça. Mas Tom se nega a pensar que Summer não é mais dele. Terá algum dia sido? Precisa que todas as palavras sejam ditas. Depois do término, da fossa (outra cena super inteligente de quando Tom vai ser consolado por sua irmã mais nova: a postura madura dela é refletida no modo como é captada pela câmera, como se fosse já adulta), vem o reencontro. Para Summer é passado. Para Tom, perceber isso é doloroso. Ele já não faz parte da sua vida, e só consegue imaginar como seria bom estar do lado dela (outra referência, aqui à Noivo Nervoso, Noiva Neurótica, de Woody Allen).

A única coisa boa de se terminar um namoro, é que inevitavelmente passamos a nos conhecer mais um pouco. Porque a percepção que temos de nós mesmos passa fatalmente pelo outro, pelo olhar do outro. Aquela coisa de “o que tem de errado comigo?” (mesmo que não tenha, afinal, são pessoas diferentes que podem ficar juntas ou não: é tudo uma questão de possibilidade, de convergência) nos faz ficar mais reflexivos sobre o que esperamos de uma relação e sobre nós mesmos. A cena da última reunião na empresa de Tom é bem simbólica nesse sentido: que relação é essa que queremos? A partir de que referenciais criamos essa imagem de namoro convencional? O namoro é um caminho natural pras relações? Já sabemos que o término provavelmente será. De uma forma ou de outra.

Marc Webb faz a gente pensar nisso tudo com uma direção não só ágil (herdada de seu passado dirigindo videoclipes provavelmente), mas extremamente sensível, e com um realismo que mesmo sendo trágico é doce. Trilha sonora, a edição, o uso de animação… É um filme delicioso de se ver, acima da média desse tal filão de filmes indie que faz tanto sucesso entre a tribo dos… indies. rs

Zooey Deschanel está linda, mas seus melhores momentos são mesmo ao lado de Joseph Gordon-Levitt que surpreende como protagonista subvertendo o clichê que se imagina para atores que normalmente desempenham esse papel: ele é charmoso, bem vestido, tem um super bom gosto musical e inseguro no amor. Não é o Jude Law, mas pensando que Gordon-Levitt sempre fez o coadjuvante atrapalhado, o rapaz se saiu bem. Só me incomodava um pouco sua semelhança com Heath Ledger.

A cena final é linda: “Autumn”, ela diz. Um recomeço? É disso que é feita a vida e nossa eterna empreitada em envolvimentos amorosos: tentativa e erro. Aprendemos pra depois acertar. Ou não.

Mas também não precisa ver esse filme se terminou seu namoro ontem. É totalmente desnecessário.

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