Do Fundo do Coração

por João

(One From the Heart) De Francis Ford Coppola. Com Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski.

Hank (Frederic Forrest) e Frannie (Terri Garr) estão juntos há cinco anos. Se conheceram coincidentemente no dia 4 de julho, dia da independência americana. Ao se deparar com tamanho tempo de relacionamento e na tentativa de comemorar a data, ambos se dão presentes que de certa forma refletem o que querem um do outro: ela compra uma passagem para Bora Bora. Ele compra uma casa. Neste desencontro de expectativas, aparece um desejo de descobrir um novo mundo, que não está muito longe, mas logo ali nas ruas coloridas e iluminadas de Las Vegas. Mas será que a busca por um amor idealizado é o caminho para a felicidade? Ao fim de Do Fundo do Coração, belíssimo filme de Francis Ford Coppola, temos algo que pode ser considerado uma resposta.

Algumas características formais de Do Fundo do Coração aparecerão novamente na filmografia de Coppola (o filme é de 1982): a capacidade de criar mundos imaginários, quase oníricos como visto em Drácula de Bram Stoker, mas que tem uma relevância quando constroem a ambientação não apenas física dos personagens, mas também psicológica. Ali o personagem de Keanu Reeves via os pesadelos que tivera na presença do Drácula de Gary Oldman, materializados na direção de arte. Aqui o casal protagonista vê na Las Vegas um mundo de luzes e cores capaz de resguardá-los de suas desilusões amorosas. Com o recente Tetro também guarda semelhanças embora com uma diferença: em Tetro o preto e branco envolve os personagens, escondendo-os e revelando-os.


Mas em Do Fundo do Coração é a profusão de cores a responsável por este efeito. A iluminação é a forma como nos situamos nos sentimentos dos personagens, é aquilo que os aproxima e separa, que une os pensamentos e cria novos sentimentos, algo que não poderia acontecer caso Coppola escolhesse uma ambientação mais realista. A mise en scene criada traz características teatrais. Os elementos lembram os de um palco (principalmente a iluminação e a cenografia). E aqui não há como esquecer outro filme que usa o mesmo artifício: O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e seu Amante, de Peter Greenaway (os créditos finais fazem questão de ressaltar o fato de que toda ambientação foi feita em estúdio).

O fato de esta ruptura acontecer justamente no dia 4 de julho não é mero acaso: é o dia em que todos devem estar felizes, comemorando e celebrando a vida e a liberdade. Os dois, decididos a encontrar outro alguém, saem às ruas meio perdidos e se vêem capturados por uma sensação de urgência em ser feliz. A cidade, as pessoas… Há algo de errado no fato de os dois estarem insatisfeitos. É aí que Harry encontra Leila (Nastassja Kinski) e Frannie encontra Ray (Raul Julia): promessas de fazer daquela noite, a primeira de tantas outras ao lado de alguém idealizado. Leila é uma bela mulher que se apaixona à primeira vista por Harry. Ray é um rapaz galanteador, que tem o espírito aventureiro que tanto encanta Frannie. Será isso suficiente? A pessoa que devemos amar é aquela que responde todas as nossas necessidades? Depois de uma noite, descobre-se que não necessariamente. Fazer planos juntos e viver uma vida com o outro prevê também as desilusões que só podem ser superadas por quem ama de verdade.

O filme é um deslumbre visual (visto pela última vez apenas em… Tetro!), tem uma trilha sonora belíssima (toda composta e cantada por Tom Waits e Cristal Gayle) e é um filme quase kitsch, quase musical da Broadway: uma viagem fantasiosa ao universo de um casal em crise. Renegado pela crítica e pelo público da época, Do Fundo do Coração merece ser revisitado, pois é um exercício delicioso do mestre Coppola. Recomendo.


João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.