Love is in the Air. Especial de Junho Parte 2: Casablanca

por João
De Michael Curtiz. Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Heinred

Casablanca é um lugar de transição: último território não ocupado pelos nazistas na época da Segunda Guerra, representava esperança aos refugiados (caso conseguissem um visto poderiam embarcar dali para Lisboa, e finalmente para a América), ao mesmo tempo em que escondia mecanismos em certa medida cruéis para aqueles que queriam se ver livres da condição de procurados pela Gestapo: o ser humano muitas vezes passa a ser tratado como mercadoria, moeda de troca, e surge uma espécie de mercado negro envolvendo vistos que só seriam liberados sob circunstâncias na maioria das vezes ilegais. É neste lugar que se passa a história do clássico Casablanca, dirigido por Michael Curtiz em 1942.

Em meio a este ambiente de tensão (mensageiros alemães foram assassinados, e ocorre uma busca por suspeitos) conhecemos Ricky Blaine (Humphrey Bogart): sua aparente insensibilidade esconde uma antiga história de amor que reaparece quando reaparece também a mulher à qual ele devotara esse sentimento, só que desta vez acompanhada de seu marido. Ela é Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e ele Victor Laszlo (Paul Heinred) também refugiados, a espera de uma oportunidade para seguir em direção à América. Sua única esperança pode ser os vistos que estavam em poder dos alemães assassinados, e que, ao que tudo indica, agora estão com Ricky Blaine.

A tradição de filmes dessa época de Hollywood sempre nos apresentou roteiros impecáveis, bem cuidados, e com diálogos espertos, certeiros, que ficaram nas memórias cinéfilas de todo o mundo. Com Casablanca não seria diferente.

Se pensarmos que o forte de Casablanca são os diálogos, isso se deve necessariamente pela acidez do protagonista da história: Rick é frio, tem sempre a resposta na ponta da língua, impiedoso, e em alguns momentos individualista. Sua frieza e objetividade impõem respeito ao mesmo tempo em que inevitavelmente tem um efeito meio magnético para as pessoas que estão ao seu redor. Mas por trás de uma personalidade forte, encontra-se uma bela, rápida e inesquecível história de amor. Que fica e que com o tempo se transforma em um certo rancor. Mas nada que sobreviva ao reencontro com a pessoa amada. Quando Ilsa entra em seu bar (e Ingrid belíssima, gerenosamente retratada em closes que realçam mais ainda sua beleza), uma parte familiar de seu passado volta, num flashback regado à whisky e As Times Goes By: Ilsa parecia ser a única capaz de penetrar na fortaleza que representa Ricky. Sua disposição para viver ao lado da única mulher que amou na vida é algo incomum para ele, talvez inédito (e tudo isso é claramente percebido em poucos minutos, graças à boa interpretação de Humphrey), e que por isso mesmo acaba demandando total entrega desse homem: ele quer cuidar dessa mulher, que viver com ela. Ela parece sentir o mesmo. Mas o máximo que consegue fazer é deixar uma carta antes de desaparecer da vida de Ricky. Agora não há mais tempo para se envolver com as pessoas. Em nenhum nível. Ricky estará marcado para sempre por aquele episódio em Paris, onde conheceu e perdeu o amor da sua vida.

Ilsa também está confusa com relação ao que sente: o amor avassalador que sente por Ricky (porque não importa o que aconteça no futuro, duas pessoas que se amam, sempre vão sentir e dizer palavras de amor, como nos diz a letra da música), não elimina o que sente por Victor (uma mistura de admiração e gratidão, sentimentos nunca unidimensionais, já que Ingrid Bergman também é sensacional na sua atuação). Pode-se culpar esta mulher, que de tão passional, entregou-se a uma relação que poderia ferir de forma irreparável aquele que amou? Ela abriria mão de viver aqueles momentos tão felizes ao lado de Ricky, só por saber que eles teriam que ser interrompidos, no momento em que sua razão à chamasse de volta à realidade?

É esse confronto entre o amor que se tornou platônico, já que nunca vivido na sua plenitude embora sempre vivenciado, e a realidade que grita a todo o momento a impossibilidade desse amor, é que dá o tom ao filme, que gera conflitos internos dos personagens: há espaço para sonhar com o amor ideal, com o amor de uma vida, quando a sua própria vida está em risco? Há espaço na vida de uma mulher cuja história parecia seguir muito bem, antes do reencontro com a pessoa amada? Uma decisão altruísta, e novamente o convívio com o tal sentimento que ficou em suspenso. Ricky está acostumado com isso…

Casablanca é um daqueles filmes românticos que falam de amor indiretamente. Ainda apresenta situações de certa tensão (principalmente nos momentos finais do filme), que dão um tom ainda mais monumental a história toda. É como se fosse um ato de ousadia, amar em tempos de guerra. rs. É isso. Clássico não é clássico à toa. E nem deve ser visto só porque é clássico. É um filme delicioso, atual, e sensacional. E super romântico.

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.