Love is in the Air. Especial Junho Parte 3: Fome de Viver | Cinema de Buteco
Romance

Love is in the Air. Especial Junho Parte 3: Fome de Viver

por João

fome-de-viver-poster01 Love is in the Air. Especial Junho Parte 3: Fome de Viver(The Hunger) De Tony Scott. Com Catherine Deneuve, David Dowie e Susan Sarandon.

“For love is not part of the dreamworld. Love belongs to desire. And desire is aways cruel.”

Desejo e amor se confundem quando se trata de Fome de Viver. Inacreditavelmente dirigido por Tony Scott em 1983, além de estiloso até a medula (imaginem uma mistura de Drácula de Bram Stocker com Entrevista com o Vampiro), coloca uma questão que parece ser problemática quando se trata do universo dos vampiros: a imortalidade. Colocada a perspectiva da vida eterna, pode também o amor durar pra sempre?

Esta era a promessa feita por Miriam Blaylock à John (interpretados por Catherine Deneuve e David Bowie, beijos) quando se conheceram à séculos atrás. Vivendo agora em Manhattan, e mantendo seus hábitos alimentares com discrição, tomam conhecimento do projeto de doutora Sarah (Susan Sarandon) que acaba de publicar um livro dissertando sobre a visão da ciência a respeito do envelhecimento. Suas experiências com símios em busca de resultados que prolonguem a vida humana, atraem a atenção de John que de repente se vê acometido de algum distúrbio celular que o leva a um envelhecimento acelerado. “A velhice é uma doença que pode ser curada”, diz Dra. Sarah.

Aquela bela imagem carregada por John dá lugar às rugas e a fraqueza física. O que necessariamente vem acompanhado da loucura, já que a promessa de uma vida eterna ao lado de Miriam não fora cumprida. Ela nada pode fazer para deter este processo, e parece conhecê-lo, já que seus antigos amantes tiveram o mesmo fim. E como a morte é algo diferente para seres como eles, John apenas vivenciará a sensação de morrer aos poucos, sem nunca dar o último suspiro. A cena é de arrepiar.

A busca por amor, se confunde com a busca pela própria subsistência, já que é a partir do sangue de seus amantes que Miriam se mantém eternamente jovem. Seu novo objeto de fascinação é a própria doutora Sarah. A atração é recíproca. A cena de sexo entre as duas é belíssima, e o diálogo que a antecede é delicioso. Quem é a presa, quem é o caçador? Quem quer seduzir quando já se tem idéia de que o envolvimento é inevitável? Sarah será trazida para este novo universo sem muita escolha. Pelo menos sem escolhas muito conscientes.

A imagem de vampiro trazida em Fome de Viver é por si só um show à parte. Não vemos caninos em momento algum. Suas roupas (figurinos sensacionais de Milena Canonero e Yves Saint-Laurent) dão um tom gótico, embora não exista resistência à luz do Sol. A trilha sonora que vai de Iggy Pop até Bach… Tudo contribui para que esta aura de mistério se instaure, já que nada é muito explícito na tela. Os vampiros como conhecemos estão mortos, pelo menos segundo a música de abertura que faz alusão à Bela Lugosi, ator da primeira versão de Nosferatu. È tudo muito fragmentado, como aquele momento vivido pelos personagens. Há sempre a falta: a eternidade não é absoluta em si mesma, precisa de outro para que exista; a ciência nunca consegue alcançar as respostas que procura, e esta busca mesmo sinaliza certo desespero inerente à condição humana em face da finitude; e finalmente o amor, tema desse especial. Fome de Viver fala de amor quando fala sobre falta. Sobre expectativas tão frustrantes até mesmo para aquele ser que parece chegar mais perto da perfeição. Se existe alguma eternidade ela está na busca. E quando o ciclo é quebrado há o fim.

A seqüência final é pesada, é triste. Miriam conhece o amor, na medida em que conhece a busca por satisfazer seu próprio instinto pela sobrevivência. No universo criado por Fome de Viver (baseado na verdade em um livro, escrito por Whitley Strieber) os vamíros são metáfora perfeita para esta condição. Ocupará o amor lugar parecido quando se fala dos pobres e mortais seres humanos? A busca por algo que lhes faça viver, o sentido mesmo para algo que parece tão inútil, já que finito? Fome de Viver coloca questões interessantes, ao mesmo tempo em que entrega um filme genial sobre o tema. Exceto para aqueles que estão acostumados com Pattinson, Stewart e Lautner e suas questões adolescentes. Bowie, Deneuve e Sarandon falando de problemas existenciais não é pra qualquer um. Eterno mesmo só Fome de Viver, filme que não envelhece e é obrigatório. Assistam.

João

Filósofo, arte educador, amante de cinema, funk carioca e de uma boa conversa acompanhada de cerveja.

Comentários

  1. Tive o prazer de ver esta pérola no cinema quando foi relançada no ano passado aqui no Rio e é uma sensação incrível ver Bowie, Deneuve e Susan Sarandon atuando juntos, além de serem atores incríveis, o filme é realemnte uma obra assustadora, não por cair nos sustos fáceis, mas sim pela tensão dos personagens e o roteiro forte, as cenas de amor são uma das melhores ja feitas!