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Crítica: Será Que?

Uma comédia romântica capaz de agradar meninos e meninas com um humor sutil e atuações inspiradas de Radcliffe e Kazan.

Critica Sera Que Daniel Radcliffe

APRENDI QUE OS MELHORES RELACIONAMENTOS AMOROSOS SÃO AQUELES QUE NASCEM DE UMA AMIZADE. Amadurecer uma relação assim e conseguir transformá-la em algo para a vida toda não é fácil. Teoricamente, deveria ser uma coisa para o resto da vida, até o fim, “até que a morte os separe”. Fica ainda melhor quando a história é construída em cima de ingredientes tortuosos e problemáticos, mas com tanta vontade que seriam capazes de superar qualquer obstáculo. A comédia romântica Será Que?, ou The F Word no original, fala exatamente dessa transformação da amizade para o amor, e o melhor de tudo: ela é uma ficção em que a vida real não interfere de jeito nenhum. Um autêntico conto de fadas para confortar as almas sofridas de quem já não vive algo assim mais. Por apenas ter tomado as decisões erradas pelo caminho.

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Wallace (Daniel Radcliffe) encarou mais de um ano de fossa sozinho desde que pegou sua namorada transando com outro cara no trabalho. Por acaso, durante uma festa, ele conhece Chantry (Zoe Kazan) e começa a se sentir atraído por ela. Parecia algo difícil de acontecer, como se ele estivesse conformado de que seria um solitário para o resto da vida, mas acontece dele sentir vontade de estar com aquela garota esquisita. O problema é que ela tem um namorado. Será Que? apresenta o desenvolvimento dessa curiosa amizade entre duas pessoas que preenchem a vida um do outro, mas que estão em momentos diferentes da vida.

O grande mérito do roteiro é evitar ao máximo que Wallace tome a iniciativa para fazer o que é certo. Tudo isso acontece por um motivo nobre: ele não acredita que um relacionamento que começa com uma indifelidade possa ser algo sério e que dure para sempre. O mais curioso é que o dilema de Wallace é confrontado justamente pelo melhor amigo, que iniciou um namoro intenso com uma garota que havia acabado de conhecer numa festa. E ela era comprometida com outra pessoa. O filme nos faz refletir sobre até que ponto existem coisas certas ou erradas quando se trata de um amor. Será que o sentimento não deveria ser o suficiente para superar a possível dúvida sobre o caráter e confiança daquele que trai? Na vida real, imagine só, você invadindo o espaço de um casal que está junto há digamos nove anos. Você é um intruso naquilo. Você se força a acreditar que não está fazendo algo errado porque a garota está infeliz. Precisa de muito diálogo, muita honestidade e transparência para que uma coisa dessas não mexa com a sua cabeça. Para Wallace, aparentemente, seria um grande obstáculo a ser superado, para outras pessoas pode ser o meio termo que corre o risco de crescer e continuar se repetindo no futuro.

Crítica Sera Que

A gente vive histórias complicadas quando se trata de romance. Todos nós. Fazemos coisas estúpidas não pela falta do amor, mas às vezes por pura ignorância. Insegurança. Medo do futuro, das sombras do passado, daquilo se repetir quando a pessoa encontrar outro. E aí, você se perguntaria se ela também teve aquela dificuldade para beijar o cara do mesmo jeito que teve quando era você naquela posição. Talvez as nossas certezas passem a se misturar tanto com as paranoias que entramos numa espiral de dor e sofrimento por nada, por uma loucura. E nesse acúmulo de emoções estragamos algo que foi construído ao longo dos anos e ofereceu tanto de bom para os dois lados. Wallace é um cara leal aos sentimentos, por mais que sua história familiar tenha sido comprometida, ele consegue usar suas experiências ruins como motivações para seguir em frente e fazer diferente. Ao mesmo tempo, ele se sente resignado com a situação. Não há motivo para sair de sua zona de conforto e lutar por algo que ele sabe que é o certo, já que Chantry parece amar o seu namorado e planeja até se casar com o sujeito. É preciso muito esforço do destino, e pressão dos amigos, para que Wallace descubra que não se consegue construir esse tipo de conexão facilmente ou com qualquer pessoa. Quando você alcança isso, meu velho, é preciso sangrar para fazer funcionar e seguir adiante independente das dificuldades colocadas pela vida. O discurso do personagem durante uma cena de casamento, e o seu olhar profundo para sua “amiga”, ilustram bem o sentimento de encontrar esse alguém especial e precisar cuidar disso.

Em uma cena linda, Wallace é convocado para resgatar Chantry dentro de um provador de roupas de uma loja. Observamos o personagem se mantendo fiel a promessa de não abrir os olhos e sua relutância em quebrar a própria palavra. Na sequência, Chantry dá a entender que se sente atraída pelo amigo, mas que não tem ideia de ser uma coisa recíproca. Na verdade, é ela quem toma as iniciativas na maioria das vezes em que isso acontece, como na parte em que eles nadam sem roupa. “Se você olhar, eu olho”, ela diz. Esse tipo de conversa insinuante é a maneira perfeita de se arriscar sem o medo da rejeição e ainda se manter no domínio da situação. Chantry tem muito mais a perder que seu amigo solteiro: um relacionamento de cinco anos não se apaga facilmente. Mérito para a condução natural que torna o ritmo dos acontecimentos envolventes e coloca o espectador suspirando por cada desencontro e risco de tudo ser colocado a perder.

Será Que? é uma comédia romântica que surge como uma opção surpreendente para os momentos em que nossos corações lamentam o rumo das coisas e a certeza de que palavras e atos não são facilmente esquecidos, e muito menos perdoados. Entre os desejos de fazer o certo de Wallace e os impulsos de seu amigo em mostrar que a única coisa certa na vida é correr atrás de quem faz o seu coração bater, o longa-metragem é uma boa pedida para passar os períodos de fossa naquele estágio em que ainda relutamos com o fim ou desejamos voltar ao passado para fazer tudo ser diferente e não deixar o medo ser maior que o amor.


Poster Sera Que
Será Que? (What if?, 2013, Canadá/Irlanda) Dirigido por Michael Dowse. Escrito por Elan Mastai. Com Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Rafe Spall. 

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