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Toda Forma de Amor


BELAS HISTÓRIAS DE AMOR NÃO SURGEM FACILMENTE EM QUALQUER PRODUÇÃO HOLLYWOODIANA. Geralmente, os romances costumam ser babacas, extamente igual acontece na vida real. Quando um longa-metragem consegue capturar a essência do amor, na grande parte das vezes, trata-se de representar a frustração e o amor como uma constante fonte de alegria e decepção. Exemplo mais recente é o de Namorados Para Sempre. Porém, vez ou outra surgem produções capazes de celebrar o sentimento sem cair no ridículo. Direito de Amar, produção que (quase) rendeu o Oscar de Melhor Ator para Colin Firth, e Toda Forma de Amor são alguns desses filmes e curiosamente, ambos tem temática gay.

Mike Mills escreveu o roteiro de Toda Forma de Amor como uma espécie de autobiografia de sua própria vida. Assim como acontece no filme, que ele também assina a direção, o seu pai se assumiu gay depois de uma idade avançada e pouco depois faleceu. Mills disse que essa foi a maneira que encontrou para continuar o diálogo com o seu pai, que sempre falava sobre as suas experiências de vida e da busca constante pela felicidade e o amor. O título original Beginners remete exatamente a essa relação, em que dois homens passam a lidar com a vida depois de tomarem grandes decisões.

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Toda Forma de Amor (que nem na música do Lulu Santos) narra o recomeço da vida de dois homens: um senhor de 75 anos de idade, que após a morte da esposa, se assume gay e passa a viver tudo que negou durante toda a sua vida. Hal encontra a sua verdadeira felicidade e se encontra como pessoa, mesmo sabendo que estava com câncer e que logo morreria; e de seu filho adulto, Oliver, que começa a refletir sobre a sua própria vida e em tudo que aprendeu com o pai e suas descobertas.

Descrevendo a sinopse dessa maneira, o leitor mais desavisado pode criar a falsa impressão de que Toda Forma de Amor é uma comédia dramática gay, mas não é. Assim como acontece em Direito de Amar, a sexualidade do personagem pouco importa para tudo que o filme tem a oferecer para o público. Mais do que a relação de cumplicidade entre pai e filho (interessante notar que Oliver não faz julgamentos quanto a decisão do pai em sair de dentro do armário) e do aprendizado que essa relação deixa para Oliver, o filme é justamente sobre não ter medo de recomeçar a sua própria vida do zero e correr atrás do que realmente nos torna realizados.

Christopher Plummer justifica toda a badalação em torno de sua performance como Hal Fields. Durante boa parte do drama, a impressão que fica é que os comentários foram supervalorizados, já que, por melhor e mais competente que o ator seja, não havia nenhum motivo de alarde até chegar na etapa final e Hal contar sobre sua relação com a falecida esposa. Toda a cena, dos closes no rosto de Plummer até as coisas que são ditas, é de partir o coração. Ewan McGregor não faz feio e consegue mostrar seu talento ao lado de um ator tão eficiente quanto Plummer. Ele faz bem o papel de homem sofrido e que precisa se reinventar após a morte do pai. Acabei me lembrando de George Clooney e a sua participação apagada em Os Descendentes, onde ele interpreta um personagem que também passa por uma jornada de autoconhecimento.

Mesmo que o foco do filme esteja na relação de Plummer-McGregor, a atriz Mélanie Laurent (Bastardos Inglórios) rouba a cena como o interesse romântico de Oliver. Complicada, indecisa e altamente sedutora, Anna desenvolve um envolvente romance com o personagem de McGregor. A química entre os dois atores é deliciosa e oferece um ponto de vista mais otimista e jovial quanto a forma de melhor aproveitar uma relação amorosa.

Um belo filme, acompanhado de uma trilha sonora recheada de jazz antigo e com atuações realmente inspiradas. Difícil não gostar de Toda Forma de Amor ou querer ficar se preocupando com eventuais “problemas” técnicos. Mills é competente ao contar a sua história, especialmente por usar uma narrativa não-cronológica para apresentar seus personagens e acontecimentos, e como todo bom filme que se preze, o importante é emocionar o espectador. Imperdível.

 

Título original: The Beginners
Direção: Mike Mills
Roteiro: Mike Mills
Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent

Nota:

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