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Filme: Canibais

O Cinema de Buteco adverte: o texto a seguir possui spoilers e deverá ser apreciado com moderação.

Canibais

UM ADJETIVO COMUM PARA DESCREVER ELI ROTH É PERVERTIDO. Sádico, nojento, maluco, sem noção e demente seriam outros. Por sorte, eu sou um cara de gostos simples e aprecio esse tipo de “doença” em cineastas. Lamentavelmente, Roth não consegue ter a qualidade sórdida de um Paul Verhoeven, David Cronenberg, Roman Polanski ou até Quentin Tarantino, mas ele está lutando para isso. Quem sabe um dia?

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Em Canibais (Green Inferno, 2013), o cineasta apresenta a história de um bando de adolescentes riquinhos, malcriados e maconheiros que começam a ter a viagem de salvar o mundo, a começar por uma tribo índigena na América do Sul. No meio da viagem, o avião sofre uma pane e os jovens idealistas futuro da nação se fodem no meio da selva com um bando de índios canibais.

O longa-metragem é realmente de 2013, mas somente em 2015 conseguiu ser lançado no mercado norte-americano. Praticamente ao mesmo tempo de Bata Antes de Entrar, com o Keanu Reeves. Sorte dos fãs das loucuras bizarras que se passam na cabeça de Eli Roth, que provavelmente deve sentir o maior tesão quando tem uma ideia realmente surreal e a coloca em prática nos seus filmes. Canibais é CHEIO desses momentos.

Não me entendam mal: gostei da obra e gosto de Eli Roth. No entanto, tenho que reconhecer que o cinema dele é indicado para um público bem específico que possui um estômago forte para aguentar os excessos do diretor, que desta vez até pegou leve. Claramente influenciado pelo clássico Holocausto Canibal (em que o diretor foi acusado de ter matado de verdade seu elenco de tão grotesco e gráfico que é o filme), Canibais tem as suas cenas violentas feitas com o intuito de chocar o espectador não-iniciado. Porém, nada que surpreenda quem ainda tem pesadelos com o olho da garota no final de O Albergue.

O grande lance que faz a cabeça de Roth é ignorar as regras e criar um universo paralelo em que ele pode se divertir (e tentar levar o espectador junto) com a morte e o sofrimento de seus personagens. A cena mais tensa, por exemplo, não envolve gente sendo devorada, mas sim uma Barbie literalmente se borrando por causa de uma dor de barriga brutal. FELIZMENTE Roth tem a noção de não ser gráfico nesse momento (existem limites), o que não o impede de dar um close nas expressões de alívio da moça. A piada se completa quando as crianças da aldeia ficam rindo do ridículo da situação e do cheiro ruim que fica exalando do “jaula” em que os sobreviventes do acidente de avião ficam confinados.

Outro momento inspirado, e que realmente nos faz rir bastante, é quando o
“zé droguinha” do grupo enfia uma quantidade generosa no corpo da Barbie com problemas no intestino. Basicamente, num plano inacreditável, eles acharam que esperar os índios canibais colocarem o corpo da garota (espero que alguém tenha se lembrado de jogar uma água nela antes) para queimar dentro de uma fogueira e ser devorado posteriormente deixaria todo mundo da tribo muito louco, o que permitira uma possível fuga. Por incrível que pareça, o plano funcionou, mas quem já fumou um baseado forte sabe muito bem como é a tal da “larica” que vem depois. Tenho uma ex-namorada que é muito anti-drogas, mas até ela se cagaria (para ficar no clima) de rir dos índios com larica e devorando o coitado do “zé droguinha”, que numa ação completamente expositiva do roteiro, diz: “Ih, fodeu. Eles estão com larica.

Roth tem seu momento inspirado ao mostrar o dedo do meio para movimentos adolescentes de estudantes hipócritas que dizem defender uma causa, mas na verdade estão é encontrando maneiras de garantir o seu. Num mundo em que a ilusão de todos serem pessoas idôneas e que agem conforme a lei, é até interessante ter essa discussão. Pena que seja apenas um detalhe no meio de vísceras, fezes e drogas pesadas. Não faz a menor diferença para o espectador.

Canibais é mais uma comédia de humor negro de qualidade duvidosa do que um filme de terror. O gore está lá, mas não há nenhuma construção de clima de terror para assustar o espectador ou nos deixar tenso. Tudo é gratuito e produzido com a única intenção de nos tentar fazer vomitar (ou rir muito, dependendo do seu nível intelectual ou dos remédios/tóxicos que você consome). Para quem aprecia esse tipo de coisa, ainda está para nascer algo mais divertido que Zumbis na Neve ou Tucker and Dale vs Evil.

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