Filme: Um Cão Andaluz (1929)

Um Cão Andaluz
Lançado na França, em 1929, “Um Cão Andaluz” foi escrito por Luis Buñuel e Salvador Dalí e teve como base alguns sonhos dos artistas. O filme representa uma das maiores inovações do cinema. Diz a lenda que quando foi exibido pela primeira vez, os autores levaram pedras para se defender dos prováveis ataques da plateia, que não estava acostumada com esse tipo de produção. “Um Cão Andaluz” não apenas foi um dos destaques da trajetória do diretor, mas também um dos filmes mais memoráveis e relevantes de toda a história do cinema, por simbolizar uma ruptura com as formas tradicionais de produção que existiam até então.

“Um Cão Andaluz” significou uma fuga do plano do consciente e abriu portas para que os filmes pudessem explorar o universo inconsciente da mente humana. Baseou-se nos estudos de Freud sobre o inconsciente e no Manifesto Surrealista, lançado em 1924 escrito por André Breton. Como resultado, a história criada por Buñuel e Dalí foge da linearidade fílmica e se desapega por completo da racionalidade. É uma obra de caráter surrealista dotada de simbologias desconexas e cenas oníricas, assumindo, assim, um caráter metafórico. Apresenta sequências de cenas ilógicas cujos significados não são explícitos. Oferece dessa forma, um verdadeiro exercício de reflexão ao espectador que busca (assim como faz quando sonha) desvendar as cenas e imagens que são mostradas e atribuir um sentido a elas.

O curta-metragem possui 16 minutos. Pouco tempo, mas o suficiente pra ter feito história e para se tornar memorável aos que o assistem. Logo no início, uma cena surpreende: um homem munido de uma lâmina, a usa para cortar o olho de uma mulher. Mal temos tempo para ficarmos perturbados, já surge outra imagem desconexa a essa, em que um homem anda tranquilamente de bicicleta com uma pequena caixa pendurada no pescoço. E então, de repente, uma mulher vê fotografias em seu quarto e depois vai olhar pela janela. E assim segue o filme, com uma esquisitice atrás da outra. Os planos, apesar da ausência de uma estrutura formal, sempre intrigam o espectador. Uma das cenas mais épicas é quando um homem observa formigas saírem da palma de sua mão. E o que isso tudo representa é um grande enigma. Atribuir sentido, conforme já comentado, é um exercício pessoal, pois o roteiro não oferece objetividade, apenas apresenta sequências surreais, sugerindo uma interpretação subjetiva.

Nesse filme, o incomum, o improvável e o absurdo se mostram a todo instante propiciam uma ruptura com a realidade. E esses ingredientes compuseram um resultado final que atribuiu grande reconhecimento a Luis Buñuel tornando o diretor um ícone respeitado do cinema, e também libertou a maneira padrão de se criar filmes. Afinal, os roteiros precisam mesmo de um sentido determinado? Por que não fugir dessa regra?

Juliana Vannucchi