Crítica de It: A Coisa: Estamos diante um futuro clássico do gênero?
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Crítica: It: A Coisa (2017)

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de It: A Coisa possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação. Se você não ler, vai flutuar.

poster-a-coisa Crítica: It: A Coisa (2017)A HISTÓRIA DE STEPHEN KING COM O CINEMA É RECHEADA DE ALTOS E BAIXOS. Alguns tão baixos que a gente prefere até esquecer (estou falando de vocês, remake de Carrie, 1408 e Celular). Mas quando os produtores acertam na mão, temos releituras que ficam marcadas na história do cinema. It: A Coisa (It, 2017), de Andy Muschietti, me parece destinado a ocupar um lugar especial como um futuro clássico do gênero.

Muschietti apareceu na indústria há pouco tempo, quando apresentou o longa-metragem Mama, que entrou com louvor na nossa lista de melhores filmes de terror de 2013. O cineasta reuniu clássicos do cinema dos anos 1980, como Goonies e Conta Comigo (de autoria do próprio Stephen King, para quem não sabe), se beneficiou do hype de Stranger Things (inclusive com a participação do ator Finn Wolfhard), e usou todas essas referências para fazer uma das principais releituras de toda a obra de terror escrita por King, ao lado de Carrie e O Iluminado. O subtítulo da adaptação de 1990 nunca fez tanto sentido: “Uma obra-prima do medo”.

It: A Coisa é visceral. Nos minutos iniciais já somos surpreendidos com o assassinato de uma criancinha, o pequeno Georgie. Muschietti recria a sequência mais lembrada do longa-metragem de 1990 com um toque de sadismo ultra especial. O Pennywise de Bill Skarskard até nos faz pensar em Tim Curry (que viveu o personagem na versão original), mas logo ganha força e nos faz sentir muito medo. Ainda que os efeitos visuais tirem um pouco do impacto e força do personagem, são as expressões do ator que acabam nos convencendo. Substituimos o medo que a maquiagem de Curry nos fazia sentir por uma entidade que muda sua forma e tamanho numa facilidade assustadora, justamente como nos nossos piores pesadelos.

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Daí vem a força do longa. O medo que cada personagem sente é trabalhado com maestria pelo roteiro e acompanhado sabiamente pelo diretor. Cada um dos personagens principais possui o seu próprio núcleo independente de terror. Eddie (Jack Dylan Graze) é neurótico com doenças e sente o maior pavor de adoecer, além de ter uma mãe que o sufoca; Stanley (Wyatt Oleff) tem medo de uma pintura esquisita na sua casa e tem pesadelos com ela; Richie (Finn Wolfhard) tem o conveniente medo de palhaços; Mike (Chosen Jacobs) tem medo de fogo desde que perdeu a sua família num incêndio; Ben (Jeremy Ray Taylor) é o menino novo que sofre bullying na escola; Bill (Jaeden Lieberher) é o protagonista e sofre com a morte do irmãozinho; mas o grande destaque é o conflito vivido por Beverly (Sophia Lillis), que sofre com o desejo masculino (como na cena nojenta em que conversa com o dono da farmácia – detalhe que me chamou atenção foi o comportamento do público no cinema rindo sem pensar realmente no que estão assistindo) e uma relação abusiva com o próprio pai.

Os coadjuvantes também recebem um tratamento diferenciado. O grupo de jovens agressivos que gostam de vandalizar e assustar os mais novos ganha reflexos crueis com a realidade. O líder do grupo sofre agressões psicológicas e físicas do seu pai, o que acaba sendo um combustível para praticar violência com outras pessoas. No final, ele dá uma pirada básica e é seduzido pelo lado negro da Força. Ao perceber que as crianças perderam o medo, Pennywise apela para a agressão de um jovem desorientado para praticar sua vingança.

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O desenvolvimento desses personagens, ainda que de forma simples e objetiva, contribui imensamente para a nossa imersão, como espectadores, nos dramas e medos que cada um deles vive. A gente passa a se importar muito com a segurança de cada um e torce para que eles consigam unir suas forças para superarem juntos a ameaça. Assim como em Conta Comigo, é a amizade que importa no final das contas, e nesse caso ela vira munição contra o terrível Pennywise.

É curioso como mesmo com toda a violência gráfica e psicológica, It: A Coisa ainda consegue encontrar uma forma de ser extremamente engraçado. São muitas oportunidades que geram boas gargalhadas no público, especialmente a cena em que Beverly descobre o pôster do New Kids on the Block no quarto de Ben. A própria Beverly, por ser a única garota do grupo, é responsável por outro momento inocente em que os garotos ficam babando viajando nela e ficam constrangidos quando ela olha de volta.

Ao lado de Under the Shadows e A Autópsia, It: A Coisa se destaca como um dos principais exemplares do gênero no ano – e fatalmente estará no topo do ranking de melhores filmes de terror de 2017. Fãs de Stephen King finalmente terão um motivo para querer abandonar suas leituras e conferir nas telonas essa adaptação sensacional e imperdível para quem aprecia bons filmes.

Resumindo: Filmaço!

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.