Críticas de filmes Terror

O Herdeiro do Diabo

o herdeiro do diabo

SALVO ALGUMAS EXCEÇÕES, o ano de 2013 foi bastante proveitoso para o Cinema de horror, quando tivemos menos continuações de franquias intermináveis e mais remakes funcionais e inícios de possíveis novas franquias com grande potencial; menos found footage e mais horror filmado de maneira tradicional – muito mais eficiente -, entre outros aspectos que fizeram os fãs de um bom terror mais felizes durante os últimos doze meses. No entanto, apenas em seu primeiro mês, 2014 já vem se mostrando um tremendo gerador de frustrações para os fãs do gênero, condenando agora O Herdeiro do Diabo a ser mais um título para começar a engrossar a lista.

A fita era capaz de gerar uma certa esperança simplesmente por iniciar sua projeção com uma bela referência ao genial Brian De Palma, através de um plano que brinca com o voyeurismo – lembrando bastante a cena inicial de Um Tiro na Noite -, marca registrada do cineasta, um ponto positivo para seus realizadores, que ao menos demonstravam até aí ter um conhecimento artístico e o conhecimento de onde queriam chegar. Mas nós sabemos muito bem que até os artistas mais medíocres se inspiram em grandes gênios, e as esperanças logo vão por água abaixo. Apresentando-nos a um jovem casal, formado por Samantha (Allison Miller, da série Go On) e Zach McCall (Zach Gilford, de O Último Desafio), que estão em lua de mel, o roteiro da estreante Lindsay Devlin leva-nos logo até a República Dominicana, onde a viagem do casal acontece, quando uma estranhíssima situação surge, levando os dois – que não tem consciência dos acontecidos – a um ritual obscuro e desconhecido – sem explicações aparentes para terem sido levados da boate até o local do ritual -, causando marcas irreversíveis na moça. Ao voltarem para casa, realizam a descoberta de que esta está gravida, mas sem suspeitarem de nada por acreditarem ter sido apenas algo inesperado acontecido durante a lua de mel, seguem com a gestação da criança e recebem com estranhamento as transformações pelas quais Samantha passa durante a gravidez, passando pela agressividade anormal, o afastamento daqueles com os quais convive e a geração de pequenos desastres à sua volta, pois a jovem acabou recebendo a criança em seu corpo como uma maldição, por menos que suspeite disto.

Durante a análise da sequência citada no início do parágrafo anterior, creio ser interessante observar a origem dos dois diretores por trás do projeto, Matt Betinelli-Olpin e Tyler Gillett. Nenhum dos dois tem, como função principal, a direção. Enquanto o primeiro é, originalmente, um ator, o segundo trabalha primeiramente como um diretor de fotografia – ainda que ambos cumpram outras funções, também, na produção cinematográfica. Talvez, seja justamente isto o que leva a condução do longa a funcionar em alguns pontos isolados, e se sair tão mal em outros. Já nesta primeira cena, por exemplo, nota-se um determinado primor com o trabalho de fotografia – depois, infelizmente, acaba caindo na mesmice -, o que deve advir justamente do trabalho direto de Gillett na função, assim como acontece com a direção de atores, que consegue extrair uma performance bastante convincente da protagonista Allison Miller, uma atriz com poucos papéis interessantes na carreira, o que demonstra a capacidade dos realizadores em trabalhar com o elenco, algo com prováveis relações com o conhecimento de Betinelli-Olpin do trabalho de atuação, justamente por exercê-lo originalmente. Na condução narrativa de forma geral, no entanto, os dois falham grandiosamente.

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Se na primeira metade da projeção – nos primeiros dois terços, para ser mais exato – há uma opção pela condução mais cadenciada, focando em cada etapa da transformação de Samantha a ponto de tornar-se uma criatura extremamente perigosa, o que acaba gerando uma demora excessiva para desenvolver a trama – durante alguns momentos, a projeção chega a dar sono -, algumas sequências dispensáveis e a falta de sustos, elemento essencial numa produção do gênero – existe o desenvolvimento de uma atmosfera de tensão, preparação para estes, mas sempre surge um anti-clímax que os impede de acontecer. Mas no terceiro ato, a estrutura adotada destoa completamente do que era desenvolvido até ali, optando por um clima frenético, exageradamente acelerado e com um encaixe de cenas sem qualquer explicação para acontecer, simplesmente para dar logo uma resolução a tudo aquilo – independentemente de esta ser satisfatória ou não – e tentar prender a atenção do espectador novamente. Ou seja, tudo o que há de mais sobrenatural na trama é reservado para o ato final, o que acaba gerando um desenvolvimento muito aquém do esperado para este ponto – um ponto essencial.

Considerando a decepção comercial atualmente vista com esta produção, me parece que a onda dos longas de terror filmados em found footage está chegando ao fim, e isto é um alívio, como podemos comprovar aqui mais uma vez, onde existem claras inspirações, por esta visão, na franquia Atividade Paranormal. Aqui, até existe uma tentativa para justificar a necessidade de Zach estar filmando tudo, o tempo todo, com sua câmera – o fato de ser um costume herdado de seu pai -, mas esta justificativa só piora as coisas. O texto ainda peca por alguns erros pedestres, como a decisão de Zach instalar câmeras de segurança em sua casa ocorrer antes mesmo de ele desenvolver suspeitas sobre o que estaria acontecendo, por exemplo, o que tornaria-a inválida. Ainda existem elementos moralmente reprováveis, como o fato de todos – ou, ao menos, todos os que avistei – aqueles que participaram deste ritual de maldição contra a protagonista não serem caucasianos e norte-americanos, mas sempre negros e imigrantes – torço para que tenha sido apenas uma coincidência.

Mas a verdade é que O Herdeiro do Diabo poderia ser descrito com uma definição semelhante com aquela que usei para descrever Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal, ainda na semana passada: um filme feito para agradar os espectadores que ficarão durante toda a primeira metade da projeção distraindo-se com seus celulares na sala de cinema e, já nos minutos finais, quando finalmente colocarem os aparelhos para descansar, assistirão a alguns instantes de cenas frenéticas, sustos e imagens “impressionantes”, deixando a sessão extremamente satisfeitos e aguardando por uma continuação – pois, claro, há um ridículo cliffhanger no final cuja função é unicamente deixar brechas para uma.

poster o herdeiro do diabo

Título original: Devil’s Due
Direção: Matt Betinelli-Olpin e Tyler Gillett
Gênero: Terror
Roteiro: Lindsay Devlin
Elenco: Allison Miller, Zach Gilford, Roger Payano, Sam Anderson.

Lançamento: 24 de Janeiro de 2014

Nota:[uma]

Leonardo Lopes

Eu já sabia que ia terminar assim. Estudante de Jornalismo (FAAP-SP). Tenho o Cinema e a comunicação como grandes (únicas?) paixões. Marxista e pessimista. Saudosista e louco.
Colunista do Cinema de Buteco e membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.