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The Woman


OS CRÍTICOS DO GÊNERO DEVEM TER TORCIDO O NARIZ. Aliás, eles devem odiar quando filmes de terror conseguem transmitir mensagens tão diretas (e com tanta eficiência) quanto em The Woman. A produção nos propõe a discutir uma curiosa subversão de valores: a ambiguidade de transformar a pessoa em animal e vice-versa.

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Como o próprio título já indica, a obra do diretor Lucky McKee apresenta uma mulher selvagem que vive na floresta e se alimenta de peixes crus (e que faria o Gollum, de O Senhor dos Anéis, se apaixonar imediatamente). A aparente liberdade da mulher acaba no momento em que um advogado machista e provinciano fuma seu baseado e se depara com a selvagem tomando banho. Auxiliado pelo efeito alucinógeno do cigarrinho do capeta, o sujeito se “apaixona” e passa a fantasiar em possuir a mulher. Tudo isso embalado por uma trilha sonora bem suja e que combina perfeitamente com o clima da cena.

Após elaborar um plano e obrigar a família inteira a arrumar o porão, o maníaco Chris Cleek (Sean Bridgers) sequestra a “Mogliwoman” (Pollyanna McIntosh) e resolve trata-la como o mais novo animal de estimação da casa dos Cleek`s. Claro que isso tudo estava fadado a dar errado e não demora para o chefe da família perder o controle e descobrir que certas coisas nunca poderão ser controladas, principalmente quando se trata da fúria de uma mulher. Racional ou não. Quer dizer, a fúria de uma mulher pode ser considerada racional em alguma oportunidade? Enfim, isso não vem ao caso.

McKee explora o potencial do roteiro e desenvolve bem a psicologia dos personagens e faz um bom trabalho na condução dos atores, que embora limitados, não comprometem. Enquanto a ala feminina é obviamente reprimida e abusada (a única que parece escapar do sadismo do pai é a inocente Darlin, interpretada pela cativante Shyla Molhusen, que trata a nova moradora da casa dos Cleek como se fosse a mistura de um brinquedo com irmã mais velha), o filho Brian (Zach Rand) é estimulado a emular o comportamento do pai e se achar acima das mulheres. Uma das cenas que explicita esse comportamento, além dos vários olhares (e pensamentos) de cobiça para a mulher acorrentada e semi-nua no porão, é como o personagem reage depois de perder uma partida de basquete para uma garota de sua classe na escola. 



Peggy (Lauren Ashley Carter) interpreta a filha mais velha e que enfrenta problemas na escola, cuja professora acaba desencadeando os eventos que cobrem o ato conclusivo de The Woman. A atuação de Carter como a adolescente deprimida (sempre acompanhada pelas canções melancólicas de seu iPod) e com uma gravidez inesperada é outro destaque da produção, ainda que sua performance seja ofuscada pela irritante e caricatural, mas nem por isso ruim, pela atuação de Bridgers. 


Em momento algum The Woman (ou a versão mórbida e feminina de Mogli, o Menino Lobo) se preocupa em explicar as origens de como aquela mulher foi parar na floresta. Esse é o grande ponto positivo da produção, que tem uma narração ágil e interessante, além de abrir espaço para discussão do que é realmente racional: o animal bípede que anda pelas florestas comendo carne crua e dormindo em cavernas ou o animal socialmente funcional e que no seu interior é um poço de irracionalidade e violência? A crítica de McKee deve servir como filme de cabeceira para discursos contra o machismo e violência contra as mulheres, ainda que corra o risco de ser mal-interpretado. Poucos filmes são capazes de estimular essa discussão de forma criativa e original, sem se preocupar em divertir o público e ainda assim, causar reflexão. 

Um conto de fadas às avessas, a produção de McKee não é indicada para qualquer tipo de público, ainda que tenha uma doçura distorcida e completamente bizarra, que deixa essa sensação de que The Woman é sim um conto de fadas da vida real. Mas sem a preocupação de encontrar um príncipe encantado, já que eles não existem de verdade. Prepare seu estômago para a épica sequência final, quando o diretor abandona qualquer pretensão de seriedade e mergulha o filme no que existe de melhor no trash e gore

São três caipirinhas. 

The Woman, 2011
Direção: Lucky McKee
Roteiro: Lucky McKee
Elenco: Pollyanna McIntosh

Nota:

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