Crítica: Tubarão (Jaws), de Steven Spielberg
Críticas de filmes Terror

Tubarão


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TUBARÃO É UM DOS MAIORES FILMES DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS. Também é considerado como o primeiro blockbuster da história de Hollywood, o que acabou revolucionando a indústria para sempre. E claro, transformou Steven Spielberg em uma das principais estrelas da chamada nova-Hollywood. A produção enfrentou sérios problemas. Após um bom começo, com as filmagens dentro do cronograma, começaram uma série de imprevistos que atrasaram as filmagens em mais de 104 dias. As más condições climáticas, barcos à deriva, câmeras encharcadas e um inesperado problema com o tubarão mecânico tornaram a vida de Spielberg um inferno. Parecia até a carreira do diretor se encerraria logo após ter feito apenas outros dois filmes (Encurralado e Louca Escapada). Mas a sorte estava ao lado do cineasta, e ainda deixou uma lição valiosa para outros produtores que decidissem se aventurar filmando no oceano aberto: péssima ideia!

A trama mostra a pacata cidade litorânea Amity sendo atacada por um gigantesco tubarão branco perverso e esfomeado durante as celebrações do dia da independência. O chefe de polícia (Roy Schneider) busca o auxílio de um biólogo (Richard Dreyfuss) e de um velho lobo do mar (Robert Shaw) para conseguir evitar que o dentuço marinho continue matando os banhistas e estragando o feriado, para a tristeza do ganancioso prefeito que veste ternos com âncoras estampadas. Um verdadeiro símbolo do luxo e bom gosto.

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Shneider está ótimo na pele de Martin Brody. Se trata de um curioso personagem que tem fobia de mar, mas vive numa ilha. Em uma cena, Brody é vítima da ironia de um vovô que fala exatamente sobre essa sua curiosa peculiaridade. Isso demonstra que apesar de fazer o seu trabalho direito, ele não é 100% respeitado pelos moradores da cidade e precisa construir esse respeito aos poucos. Acompanhando Schneider temos um jovem Richard Dreyfuss, que anos depois estrelaria Contatos Imediatos de Terceiro Grau, e o experiente Robert Shaw. Os dois personagens vivem um certo conflito verbal imediato, mas não demora para entrarem em acordo.

O monólogo de Quint (Shaw) é um dos melhores momentos do longa-metragem de Spielberg. Logo após terem o primeiro confronto contra a besta do oceano, o trio de heróis se diverte enchendo a cara e disputando para ver quem tem mais cicatrizes de guerra (cena homenageada anos depois em Procura-se Amy, de Kevin Smith). Repare que Brody (Schneider) apenas levanta a camisa, como quem fosse mostrar a marca de um apendicite, mas logo desiste ao constatar o quanto seria ridículo tentar participar do “concurso”. Em determinado momento da conversa, Quint começa a fazer um discurso sobre como os tripulantes do U.S.S. Indianapolis foram quase que completamente devorados por tubarões, logo após entregarem a bomba atômica na Segunda Guerra Mundial e serem atingidos por um submarino inimigo. Justamente com esse trecho, é apresentada a motivação de Quint para ajudar a eliminar o tubarão.

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Impossível falar de Tubarão sem exaltar a trilha sonora genial de John Williams, que venceu o Oscar de Melhor Trilha Sonora por seu trabalho. Quem acompanha o Cinema de Buteco há mais tempo, sabe que eu sempre digo que uma boa música é um grande passo para tornar determinados filmes inesquecíveis (mesmo se for ruim, você vai se lembrar justamente por causa daquela trilha sonora incrível). O tema de Tubarão talvez seja um dos exemplos mais importantes de trilha sonora do cinema, ao lado de Psicose (de Bernard Herrman). Os ataques do tubarão causam muito mais tensão quando acompanhados daquelas duas notas simples que saíram da cabeça de Williams. Com a repetição dessas notas ficando cada vez mais altas e intensas, o espectador inevitavelmente aperta o apoio do sofá ou respira bem fundo para se recompor depois da sequência. John Williams pode não ser um compositor muito inspirado nos dias de hoje, mas é um verdadeiro gênio da música para o cinema. Essa reação também se deve aos nossos reflexos condicionados. Ao ouvir o tema, nosso inconsciente já se prepara para ver o monstro ou tomar um susto, independente do que estiver em cena. Isso nos torna um exemplo claro da teoria do cão de Pavlov, um estudioso russo do século 20.

Por último, é preciso falar sobre o acaso que atingiu os bastidores de Tubarão e ajudou (muito) a transformar a obra no que ela é até hoje. Spielberg teve sérios problemas com os tubarões mecânicos (carinhosamente chamados de Bruce), que simplesmente não funcionavam. Como ele tinha que cumprir um cronograma, optou por reescrever algumas cenas para mostrar a criatura apenas quando fosse especialmente necessário. Ao guardar o “monstro” para o terceiro ato, Spielberg conseguiu alimentar a expectativa do espectador até o fim, quando todos já estavam se revirando ao avesso para verem o assassino mais letal do oceano em ação. Wes Craven fez parecido durante A Hora do Pesadelo original, quando o psicopata Freddy Krueger só foi devidamente apresentado em cena durante a conclusão. Usando as lições de Alfred Hitchcock, Spielberg aprendeu que a sugestão é muito mais eficiente do que a realidade. Quando construímos o suspense de maneira eficiente, não há a menor necessidade de entregar a “cereja do bolo” na bandeja para o público. Se a história for boa, eles vão querer esperar até o final para serem recompensados.

Confesso que nunca fui fã do trabalho de Steven Spielberg, embora sempre tenha respeitado e reconhecido o talento ímpar do cineasta. Dentre seus filmes, não tenho a menor dúvida de que Tubarão é o meu favorito e não digo isso apenas por gostar de filmes de tubarão. Quando escuto alguém dizendo que não gosta de nada do diretor, apenas pergunto se ela realmente conseguiu entrar no mar tranquilamente depois de assistir a Tubarão. Causar esse efeito não é para qualquer um, nem para qualquer filme. Apenas os melhores conseguem mexer com o nosso imaginário dessa maneira.

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Nota:[cinco]

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.