Crítica: Curtindo a Vida Adoidado (1986)

Curtindo a Vida Adoidado Destaque

13- Curtindo a Vida AdoidadoATIRE A PRIMEIRA PEDRA QUEM NUNCA ASSISTIU CURTINDO A VIDA ADOIDADO DUBLADO NA SESSÃO DA TARDE e se divertiu horrores mesmo assim. Existem raros casos de filmes que conseguem manter a sua qualidade mesmo em versões alteradas, como é o caso desse clássico dirigido por John Hughes em 1986, um ano depois de O Clube dos Cinco.

Muito difícil pegar e escrever uma crítica sobre Curtindo a Vida Adoidado. Afinal de contas, se trata de um dos meus filmes favoritos e que a maioria dos nossos leitores do Cinema de Buteco já assistiram e possuem uma opinião formada. O que eu poderia dizer para acrescentar nessa experiência? Sinceramente, não sei bem nem por onde começar, mas o fato é que às vezes precisamos correr riscos e nos aventurar – como é o caso aqui nesse texto.

O que torna esse filme tão especial é a quantidade de mensagens positivas presentes no roteiro. Basicamente, John Hughes transformou uma típica história de autoajuda numa comédia deliciosa sobre realmente viver ao invés de ficar apenas sobrevivendo e matando tempo aqui. Ferris Bueller (Matthew Broderick) provavelmente é apenas o maior malandro já visto na história do cinema e sequer tem noção de quanto as suas filosofias são valiosas, mas a mensagem chega direto no coração dos espectadores. Estamos tão presos em nossas rotinas profissionais ou acadêmicas que esquecemos o quanto a vida é rara e passa rápido. O que Ferris ensina é que nós precisamos “sequestrar” os nossos amigos e nos permitir dias de loucuras e muitas histórias para contar no futuro.

Mas não é apenas de um roteiro engraçado e sarcástico que vive Curtindo a Vida Adoidado. Uma das minhas sequências favoritas faz um divertido paralelo entre o comportamento/personalidade de Ferris e seu amigo Cameron (Alan Ruck). Enquanto Ferris aparece em cenas ensolaradas e recheadas de vida, Cameron tem um clima mais sombrio e depressivo. É como se Ferris estivesse no Hawaí e Cameron prestes a morrer sozinho. Aos poucos vamos acompanhando mais da personalidade do melhor amigo de Ferris e descobrimos seus problemas. Por isso, é lindo quando ele mesmo percebe os erros que está cometendo com a sua vida e decide confrontar o pai para discutir a relação de ambos.

Outra sequência especial é aquela que acontece dentro de um museu, ao som de “Please, Please, Please, Let Me Get What i Want”, do Smiths. Os personagens parecem se fundir com os quadros expostos no museu e isso dá um clima diferenciado para o filme: é como se, mesmo com toda a maneira intensa com que o Ferris, Cameron e Sloane (Mia Sara) viveram o seu dia, eles ainda encontram tempo de refletir sobre a vida. Ou apenas é um momento em que John Hughes brinca com os espectadores e reconhece a sua obra-prima. Vai saber…

Não preciso comentar sobre a épica sequência musical com “Twist and Shout”, né? Essa todo mundo conhece, todo mundo já quis imitar em casa ou todo mundo deseja visitar Chicago apenas para poder imitar isso no exato lugar em que a cena foi filmada. Oi? Você não tem essa vontade? Sério? Você não aprendeu nada com Curtindo a Vida Adoidado?

Pouco antes de estrelar Platoon, de Oliver Stone, o polêmico Charlie Sheen marcou presença como um coadjuvante de “luxo” numa das cenas mais divertidas de Curtindo a Vida Adoidado. Depois de Jean ser injustamente presa por suspeita de passar um trote (acredito ser uma falha do roteiro, já que uma busca da polícia na casa resultaria na apreensão da carteira de Rooney), ela encontra um cara preso por causa de drogas (claro). No começo, ela trata o sujeito com a maior indiferença, até que momentos depois já está trocando saliva com ele e sendo fuzilada com os olhos pela mãe. A sequência é ainda mais engraçada porque finalmente temos uma cena em que Jean está feliz e sorrindo ao invés de reclamar do irmão.

Se você conhecer alguém que não gosta de Curtindo a Vida Adoidado, o meu conselho é FUJA desta pessoa. Ela certamente possui problemas sérios de caráter ou é a pessoa mais sem graça da face da Terra. Você pode até se esforçar para fazer caridade e convence-la que o filme merece uma nova chance. Agora, se por acaso, você cruzar o caminho de quem ainda não viu essa obra-prima de John Hughes, sugiro fazer um convite naquele velho estilo “vem assistir filme na minha casa”, segurar o fogo na sua bunda, e esperar até o final dos créditos para receber um verdadeiro abraço de gratidão. Pois a lição ensinada por Curtindo a Vida Adoidado é valiosa demais para que existam pessoas de bem que passem a vida inteira sem tomar conhecimento dela.

Parafraseando o nosso querido Ferris, “A vida passa rápido demais; e se você não parar de vez em quando para vivê-la, acaba perdendo seu tempo.” Lembre-se disso. Todos os dias.

Curtindo a Vida Adoidado ficou entre os 15 primeiros na nossa eleição com os 100 Filmes Favoritos do Cinema de Buteco.

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.