Dançando no Escuro: O Amor Incondicional | Cinema de Buteco
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Dançando no Escuro: O Amor Incondicional

Em meu debut aqui no Cinema de Buteco vou discorrer sobre um filme que particularmente gosto muito. E que de certa forma aborda sobre o tema mais filmado no mundo: o AMOR. Mas não é qualquer amor. É o amor mais forte e puro que existe. Amor infinito, que perpassa qualquer barreira, desafio e é incapaz de ser explicado. Um amor que é maior que o amor próprio sem ser intransitivo. O amor de mãe.

Não queria criar aqui uma enquete e perguntar qual teria sido a melhor representação do amor fraternal nas grandes telas, mas sim apontar aquele que para mim é o melhor representante. Embora este filme já tenha uma resenha aqui no blog, vou colocar o meu ponto de vista sobre este que é um dos meus “filmes de cabeceira” e prestar uma homenagem aos seres mais importantes de nossas vidas.

Um filme que mostre o amor de uma mãe inevitavelmente vai ser triste. Mas quando Lars von Trier resolve transportar este sentimento para as telas não nos deparamos com algo triste, e sim algo audacioso e cruel. Até hoje me lembro de quando vi Dançando no Escuro nos cinemas. No silêncio assombroso ao final do filme, só era possível ouvir os gemidos baixos e aquele desagradável barulho de defluxo vindo dos espectadores. E acho que isto é a máxima do cinema como arte. Dentro de uma sala, aquela atmosfera nos envolve tanto, que o difícil é se segurar e não cair em prantos. Mas não é de se espantar, afinal o cinema feito por Von Trier é assim, se não chocar, se não tocar, se não causar algo, seja repulsa ou fixação não é genuinamente ele.

Mas “Dançando no Escuro” não é apenas um filme cruel, que perpetra sinicamente uma crítica ao sistema penal americano, ele é acima de tudo um anti-musical. Um melodrama longe de ser uma glamorosa super produção, o filme se distância de qualquer forma fantasiosa no qual a maioria dos filmes do gênero musical nos transporta. No longa, mais que qualquer efeito, figurino, locação ou cenografia, a força da história prevalece e se sobressai a qualquer outra minúcia. Sendo um filme que ainda carrega algumas nuances do manifesto Dogma 95.

O filme apresenta um método antagônico, rompendo com as facetas venturosas dos filmes do gênero, encarnando um verdadeiro drama cruel e satirizando a felicidade “falsa” típica dos musicais. Trier trouxe um novo olhar sobre o gênero, mas se aproveitou para inserir belíssimas sequências musicais ao longa. O diretor marcou bem as passagens das narrativas de espaço, para transmitir esta quebra do real para o fantasioso, fruto da mente da personagem principal. Para representação do que seria a dramática “vida cotidiana”, ele cria uma atmosfera que remete ao formato documental, como câmeras trêmulas, desfocadas e planos abstratos. Portanto, nas sequências musicais tudo é alterado, tanto nos planos e cortes, quanto na atuação. Para a filmagem das sequências musicais foram usadas 100 câmeras, que capturaram em um único take todo o percurso da cena. Dando ao resultado final um aspecto fragmentado, com muitos planos e cortes, esta quebra é tão grande e perceptível (até da qualidade visual e sonora) que as sequências parecem ser videoclipes inseridos dentro do filme.

Para o desafio de levar as telas uma história tão enternecedora, Von Trier se quer chamou uma atriz para encarnar o papel da protagonista Selma Jezková. Mas fez a escolha certa! Talvez porque tivesse a certeza de que ao convidar a cantora islandesa Björk para interpretar a personagem, ela não iria apenas tentar ser atriz, mas literalmente, ela iria se entregar, dar vida e ENCARNAR Selma de corpo e alma. Björk levou tão a sério que surtou, o que não é muito difícil de acontecer trabalhando ao lado do já surtado diretor dinamarquês.

Plano geral

O filme se passa nos Estados Unidos na década de 60. Selma é uma imigrante tcheca que luta para criar sozinha e com dignidade seu filho Gene. Trabalhando pesado em uma metalúrgica, ela divide seu tempo entre cuidar do filho e sonhar com os musicais hollywoodianos. Uma mulher que nos transmite sensibilidade e fragilidade, mas uma mãe que vai resistir até o seu último suspiro para proteger a sua cria. Não bastassem todas as dificuldades, Selma se esconde a todo custo por trás de uma deficiência, sofre de uma doença hereditária degenerativa, que lhe causa uma cegueira progressiva. Mas em nenhum momento ela usa desta deficiência para que as pessoas tenham dó dela, ao contrario, luta para superar e para que o filho não sofra da mesma enfermidade. Mas sendo constantemente torturada pelos acontecimentos que recorrem sobre sua narrativa.

A trilha foi minuciosamente composta para se encaixar perfeitamente a cada sequência e ruído, aumentando ainda mais a carga emocional das cenas. Genialmente composta por Björk, trás também a ilustre e presença de Thom Yorke, vocalista do Radiohead, na faixa I’ve Seen It All, além dos parceiros de longa data da cantora, Sjon e Mark Bell. Como dito acima, os takes musicais são os únicos momentos que vemos a felicidade cínica dos musicais no filme, os momentos alucinógenos em que Selma está mergulhada em seus musicais imaginários. Em umas das sequência mais belas do filme, exatamente da música I’ve Seen It All Björk canta: I’ve seen it all, I’ve seen the dark/ I’ve seen the brightness in one little spark./ I’ve seen what I chose and I’ve seen what I need,/ And that is enough, to want more would be greed./ I’ve seen what I was and I know what I’ll be/ I’ve seen it all – there is no more to see! (…)

Confira a belíssima sequência, que poderia muito bem ser um videoclipe:


Os personagens de Kathy e Jeff, interpretados respectivamente por Catherine Deneuve e Peter Stormare, formam dois pilares na vida de Selma. A primeira é um espécie de mãe, que xinga, dá conselhos e é sempre o ombro amigo, o segundo é protetor, mais que um amigo, ele vai prontamente socorrê-la em qualquer situação, sua cumplicidade e admiração por Selma se transforma em uma grande paixão.

A cena final é apoteótica, certamente umas das mais tristes e cruéis da história cinematográfica. Os gritos do calvário de Selma são aterrorizantes, sucumbida, já sem forças, ela clama murmurando por Gene. Kathy, sua amiga/mãe lhe entrega o que lhe parece ser o seu último suspiro, a derradeira prova de que Gene foi operado e está curado. Daí vem um silêncio crucial, uma mistura de medo e dor, mas talvez uma contida satisfação, mesmo estando a um passo da morte. Usando captação do som direto, Björk (em transe) entoa a canção “New World”. Fico imaginando se ao gravar esta cena Von Trier não teria parado e pensado: acho que sou muito cruel! A cantora transmite tanta emoção que nos deixa sem reação. A voz de Björk tremula, embargada e sem firmeza, conflui com o aspecto documental do filme, a câmera também tremula e inquieta, nos atormenta, afirmando, que este momento não se trata de uma alucinação musical da personagem, é a representação da vida real. Aquele canto de lamentação vai ganhando firmeza, força e mais força, parece querer chegar a um ápice, que subitamente é cessado…

“They say it’s the last song. They don’t know us, you see. It’s only the last song if we let it be…”

Curiosidades

Von Trier ambicionou trabalhar com Björk após ter visto o videoclipe de It’s Oh So Quiet” (1995), uma verdadeira obra-prima do gênero, dirigido por Spike Jonze, com fortes referencias aos musicais hollywoodianos. Quem conhece o trabalho do diretor dinamarquês, sabe que ele não é nada fácil. Björk também não tem um gênio muito fácil e isso culminou em muitas brigas nos sets de filmagem. Em uma destas brigas com o diretor, a protagonista simplesmente rasgou toda a roupa que estava usando, que fazia parte do figurino de Selma e foi embora, sem deixar rastro. Com as filmagens em pleno gás, Björk sumiu, deixando toda a equipe à deriva. Sem notícias, e em busca de vários recursos para não atrasar o cronograma, foram criadas máscaras que reproduziam o rosto de Björk. Felizmente as máscaras não precisaram ser usadas, pois a cantora voltou três dias depois para concluir as filmagens.

O filme recebeu várias indicações e prêmios. Há dez anos recebia a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes (2000) e o prêmio de melhor atriz para Björk. O filme também recebeu duas indicações ao Oscar, Melhor filme estrangeiro e Melhor canção para I’ve Seen It All. Entre penas e ovos Björk se apresentou na premiação usando um extravagante vestido de cisne desenhado por Pejoski Marjan.

Confira a apresentação de Björk no Oscar 2001:

Enfim, mesmo não sendo para todos os gostos Dançando no Escuro é um filme que todos, sem exceções, deveriam ver antes de morrer (ressalvo a sua classificação indicativa). Um filme sofrido, mas necessário, que toca qualquer ser humano provido de coração, por mais que possa ser difícil para alguns, merece ser visto.

Trailer


Ficha técnica
Título original: Dancer in the Dark
Gênero: Drama/Musical
Diretor: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Björk, Catherine Deneuve, David Morse, Peter Stormare, Joel Grey, Vincent Paterson, Cara Seymour, Vladica Kostic.
Produção: Vibeke Windeløv
Trilha: Björk, Lars von Trier, Sjon Sigurdsson, Mark Bell, Thom Yorke.
Países: Dinamarca, França e Suécia.
Duração: 137 min.
Ano: 2000

Redação do Buteco

Cinema por quem entende mais de mesa de bar.

Comentários

  1. Sem palavras para descrever esse filme…ele é tão importante para a gente aqui, que foi o primeiro filme que falamos no blog!

  2. ótimo debut. transmite bem a densidade do filme. é subjetivo na medida certa. e corrigiu meu erro mortal quando disse que o DOGMA É 95 E NÃO 98. deu vontade de ver de novo.